A China, após anos de duras restrições e lockdowns devido à pandemia da COVID-19, volta a sofrer um impacto devido â crise do Mar Vermelho e revela preocupação por parte dos exportadores
na costa leste do país, que para além dos atrasos nas entregas, ainda enfrentam o aumento
de preços.
Marco Castelli, fundador da IC Trade, com sede em Yiwu, situada na província de Zheijang, na região leste da China, que
exporta peças mecânicas fabricadas na China para a Europa, afirmou: “Há dois impactos desta crise. O primeiro é o prolongamento dos prazos de envio. Os tempos
de trânsito são mais longos. Demora cerca de 20 a 25 dias a mais do que o
normal. Este é então um problema de liquidez e de stock para clientes e
fornecedores. O segundo impacto são os preços do transporte, que estão
aumentando”.
De acordo com o especialista, os custos dos contentores foram multiplicados por 3 ou até
4, dependendo da urgência da entrega. Alguns importadores
já cancelaram parte dos seus pedidos, em função desta nova dinâmica.
“Ainda está melhor do que durante o vírus”, relativiza.
“Há altos e baixos nos negócios, estamos tentando nos adaptar”,
afirma este intermediário que trabalha com muitos clientes na Europa e na
África.
“Mas espero que não dure. Neste momento o transporte é
super caro. Passamos de € 2 mil para € 6 mil de um contentor da China para a França. Então,
aqueles que não estão com falta de stocks dizem que vão esperar pelo feriado
chinês no próximo mês, na esperança de que os preços caiam novamente”,
lamenta.
“Tenho um cliente marroquino que me disse que ainda
tinha um pouco de stock e que esperaria até depois Ano Novo Chinês para a
entrega, porque neste momento o transporte está muito caro. Mas os clientes que
realmente precisam de seus produtos não têm escolha. Para os comerciantes, as
lojas devem funcionar e é o cliente final que vai pagar o preço”, afirmou.
A inflação pesa sobre os consumidores, mas também pode
desacelerar toda a cadeia de produção. O risco, é, a longo prazo, é de alguns
clientes deslocalizarem a sua produção, fazendo novamente, duas consequências em
termos logísticos, avalia Marco Castelli.
“A primeira é que tem prazos de entrega e trânsito mais
longos, e tem de encomendar mais produtos para manter o seu nível de stock.
Portanto, se precisar de mais tempo, irá precisar de mais mercadorias no seu
stock, pois o próximo stock chegará mais tarde”, explica.
“Então, tem que gastar dinheiro e eventualmente
pensar em deslocalizar os seus pedidos. Mas a mudança não é tão fácil e, acima de
tudo, não pode ser feita rapidamente. A primeira consequência é, então, que a
empresa tem que comprar mais produtos e isso leva a problemas de
liquidez”, completou.
Para algumas fábricas na China, o comércio com a Europa e a
África representa até 40% da actividade global. Por isso, a crise no Mar
Vermelho pode pesar também sobre o emprego.
Isso explica as preocupações de
Pequim: “As águas do Mar Vermelho constituem uma importante rota
comercial internacional de bens e energia”, afirmou Mao Ning, porta-voz do
Ministério de Relações Exteriores chinês, na sexta-feira.
Há urgência, porque em menos de três semanas começam os
feriados do Ano Novo Lunar, quando cerca de 300 milhões de trabalhadores
migrantes saem de férias e as fábricas fecham.