"No mar não tenho obstáculos". Marta Paço é campeã mundial de surf adaptado

 

A jovem sagrou-se, no domingo, campeã mundial de surf adaptado na Califórnia e admite ser um exemplo para quem, como ela, nasce com alguma dificuldade física.

Marta Paço nasceu a 7 de janeiro de 2005. Tem apenas 16 anos e muito para contar, ou não tivesse já escrito o nome na história do desporto português – ao sagrar-se campeã de mundo de surf adaptado – e provado que, o que parece impossível, pode ser só uma barreia ultrapassável.

A jovem, natural de Viana do Castelo, nasceu invisual mas nunca deixou que isso fosse uma sentença para fazer o que quer que fosse. Praticou goalball, desporto colectivo com bola praticado por atletas invisuais e equitação. Até que, há quatro anos, em 2007, começou a surfar as primeiras ondas e apaixonou-se perdidamente pela modalidade. Um amor que deu frutos logo em 2009, quando se sagrou campeã europeia.

“Houve um meeting europeu de surf adaptado em Viana que envolvia atletas de vários países, como Espanha, França ou Itália, e aconteceu na altura em que conheci o meu treinador, Tiago Prieto, que era cliente no café da minha mãe. Foi aí que dei os meus primeiros passos no surf”, começou por contar Marta.

No mar, é onde a atleta se sente mais livre e com a cabeça limpa. “Para mim, no mar não há obstáculos. Sinto-me completamente à vontade e muito mais livre”, acrescenta. Marta treina quatro vezes por semana e consegue conciliar a parte desportiva com as aulas na Escola Secundária de Monserrate, onde estuda, e com lições de piano e inglês. Está no 11.º ano e pretende seguir Relações Internacionais, ainda que prefira viver “um dia de cada vez” e “deixar as coisas acontecerem”.

“Costumo treinar quatro dias por semana, entre duas a duas horas e meia”, revela Marta, que vê no treinador um grande pilar, além da família, que sempre a apoiou. “Ele é os meus olhos na água. Se eu falhar ele falha, se ele falhar eu falho. Somos uma equipa. Nas competições, ele vai ao meu lado mas nunca me pode tocar. As orientações têm de ser verbais. Caso ele me toque, sou desclassificada. Ele dá-me dicas e avisa quando vem uma boa onda. E depois, o resto é comigo”.

E a equipa não podia funcionar melhor. No domingo, Marta sagrou-se campeã mundial na Califórnia. “Demorou um bocadinho a cair-me a ficha, embora tenha percebido logo pela reacção das pessoas o que tinha conseguido. Festejei logo com o meu treinador. Quando comecei a praticar surf, nunca pensei em competir a sério, mas vou continuar. Vai ficar para a vida!”.

E mais do que o mundial, Marta conseguiu algo maior: ser uma inspiração para muitos. “Tenho recebido muitas mensagens de pessoas que dizem que, depois de terem conhecido a minha história, sentiram-se inspiradas a concretizar alguma coisa que tinham planeado e que tinham deixado por conta da deficiência, E isto era uma coisa que gostava de fazer, ser uma inspiração. Apesar da responsabilidade que isso implica”.

Não podia estar no melhor caminho.

Foto: Rui Manuel Fonseca/Global Imagens

Menos pescada, mais bacalhau. Estão definidas as quotas de 2022

 

Os ministros com a Pasta das Pescas da União Europeia fizeram uma maratona para decidir as quotas de pesca. No caso de Portugal foi possível atenuar alguns dos cortes propostos pela Comissão Europeia, em relação à pescada, ao linguado e a lagostim.

Ainda assim, mantém-se reduções significativas, comparativamente com os totais admissíveis de captura relativos ao ano passado.

A pescada sofre uma redução de 8% face ao total admissível de captura de 2021. Bruxelas propunha um corte de 15%. “Neste caso, foi reconhecida a argumentação portuguesa de que a proposta inicial se encontrava desajustada à realidade deste manancial, pois com base na avaliação de uma única espécie extrapolava-se a redução para as várias espécies de linguado, que não são avaliadas”, refere uma nota do Ministério do Mar.

No caso do lagostim, ficou decidido uma redução de 5% em relação ao ano passado, quando Bruxelas propunha um corte de 16%.

No documento divulgado após as negociações, o Ministério do Mar afirma que “foi compreendido que as duas unidades funcionais deste recurso onde o sector português das pescas actua estão em bom estado biológico, como reportam os pareceres científicos”.

A nota refere ainda que “na Organização de Pescas do Atlântico Noroeste foi possível um aumento de 168% da quota do bacalhau, para as 786 toneladas”, ou seja “mais 493 toneladas do que a quota em 2021.

Na Comissão Internacional para a Conservação dos Tunídeos do Atlântico regista-se uma redução de 10%, de cerca de 310 toneladas, na quota de atum patudo e de 20% na quota de voador no Atlântico Sul, de cerca de 127 toneladas”.

No documento divulgado após a reunião, o Ministério do mar destaca também o caso das Pescas da Noruega, onde se regista uma redução de 5 toneladas na quota do bacalhau capturado na respetiva zona económica exclusiva.

Em relação ao bacalhau do arquipélago de Svalbard, “onde Portugal tem uma quota importante”, decorrem ainda as negociações, não se prevendo uma decisão antes de janeiro de 2022.

Foto: © ESTELA SILVA/LUSA

Aquário Vasco da Gama abre sala interativa para atrair mais crianças

O Aquário Vasco da Gama abriu ao público a sala “Janela para o Oceano”, uma obra que demorou um ano a ser montada e teve um custo de 300 mil euros.

Os tempos de pandemia foram aproveitados pelo Aquário Vasco da Gama, para fazer algumas remodelações, a mais recente chamada “Janela para o Oceano”, um espaço que abriu ontem ao público e que é uma sala totalmente interactiva e a pensar nos mais novos. As obras desta sala, que ocupa o espaço do antigo tanque das otárias, duraram um ano e representam um investimento de 300 mil euros, suportado pela Marinha.

“Foi feito um mini anfiteatro com um mega ecrã interativo, é um dos maiores de Portugal e da Península Ibérica, com 20 metros quadrados, em que as crianças podem interagir com o ecrã com vários filmes didáticos, não só das características dos peixes que ali estão, como também com aspectos ligados à poluição. Nós temos um primeiro filme, com vários cenários do fundo do mar, mas a partir deste momento, com esta capacidade que o aquário tem, poderão ser produzidos mais filmes, com vários temas, ligados à literacia dos oceanos”, explicou o comandante Nuno Leitão, director do Aquário Vasco da Gama.

Este grande ecrã encontra-se na parede principal da sala, mas existem mais zonas interactivas nesta “Janela para o Oceano”. “O chão terá um espaço também interativo em que os miúdos poderão interagir com os pés. Por exemplo, pisam uma tartaruga e a tartaruga indica que tem não sei quantas tartarugas mais pequeninas. O chão é como se fosse água, por isso, os miúdos quando andam é como se estivessem a chapinhar. É um chão interactivo de inteligência artificial, com cerca de 8 metros quadrados, permitindo que as crianças, naquele espaço, se sintam dentro de água”, acrescenta este responsável. Existem ainda duas mesas interactivas onde os visitantes podem, por exemplo, desenhar peixes e enviar esses mesmos peixes para o oceano.

Dentro de uma a duas semanas, o Aquário Vasco da Gama irá apresentar ao público mais uma novidade: um grande aquário com enguias elétricas a gerarem energia. “As enguias eléctricas produzem descargas até 860 volts e nós vamos ter um aquário com enguias eléctricas, com medidores, para as crianças poderem visualizar as descargas que as enguias eléctricas produzem”, revela o comandante Nuno Leitão.

Na calha está também a digitalização de todo o acervo histórico do rei D. Carlos, o fundador do Aquário Vasco da Gama, de forma a quem esteja fora do edifício possa aceder a este espólio.

Foto: © Rita Chantre / Global Imagens

Crise de contentores dá lucros milionários às grandes transportadoras

A maior empresa de navegação do mundo, a Danish Maersk, está ganhando mais dinheiro do que nunca. Graças ao aumento do preço do aluguer de seus contentores, a empresa registou no terceiro trimestre deste ano o período mais lucrativo de seus 117 anos de história.

O lucro, antes da dedução de impostos e juros, atingiu 5,9 biliões de dólares, enquanto a receita atingiu 16,6 biliões de dólares.

As grandes empresas de transporte marítimo acabaram por ser as grandes vencedoras da crise da cadeia de abastecimento transportando mercadorias em todo o mundo.

Como há excesso de demanda por parte dos consumidores e falta de oferta para movimentar os produtos, os preços do transporte marítimo dispararam.

Em algumas das rotas marítimas mais movimentadas entre a Ásia e os Estados Unidos, Europa ou América Latina, as tarifas aumentaram mais de 500%.

“Os portos não estão funcionando tão bem quanto deveriam, então não podemos descarregar contentores tão rápido quanto gostaríamos”, disse Soren Skou, presidente-executivo da Maersk, no início de novembro.

Como os portos e toda a cadeia logística de transporte sofrem congestionamentos, as mercadorias demoram a chegar ao destino. As empresas são obrigadas a pagar mais para transportar os seus produtos e os consumidores também acabam pagando mais por eles.

Simon Heaney, director-sénior da unidade de pesquisa de contêineres da consultoria Drewry, explica que o setor de navegação está registrando lucros recordes.

Entre 2000 e 2019, o sector faturou 83,5 biliões de doláres antes do EBITDA (Lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização)

Para este ano, a projecção é que a indústria naval terá um lucro de pelo menos 150 biliões de dólares.  “Eles vão dobrar num ano o que conseguiram em quase duas décadas”, afirmou Heaney à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC. Mas ele alerta que se trata de uma situação excepcional.

Em geral, o transporte marítimo é visto como “uma indústria de baixa margem que atrai poucos investidores”, ressalvou.

As cinco maiores companhias marítimas do mundo respondem por dois terços do mercado. E as dez maiores empresas controlam 85% do transporte global, de acordo com dados de Drewry.

“Diria que o mercado é moderadamente concentrado e é um sector bastante competitivo”, diz o especialista.

Uma visão completamente diferente tem Alejandro Molins, consultor e académico da Escola de Organização Industrial (EOI), em Espanha.

“Estamos diante de um mercado que está nas mãos de pouquíssimas operadoras que controlam o trânsito de mercadorias no mundo”, diz. 

“É um oligopólio.”

“Elas hoje possuem lucros espectaculares, embora por muitos anos também perderam muito dinheiro. O que é facto é que o mundo está vendo uma oferta cada vez menor de companhias marítimas”, acrescenta. Molins diz que a concentração do mercado não favorece a concorrência nem beneficia os consumidores.

“As empresas menores não têm capacidade de negociação se houver poucos players no mercado.” Por outro lado, argumentou, as companhias de navegação não são apenas donas dos navios e contentores. Elas também possuem o restante da cadeia logística, controlando portos, carga, descarga, transporte terrestre, armazéns, etc.

“Essas companhias detêm o negócio vertical e horizontalmente”, afirmou. Para ele, a concentração no mercado desse sector é semelhante ao que ocorre em outros, como no sector da tecnologia.

Willy Shih, professor da Escola de Negócios de Harvard, nos EUA, ressalta que o lucro recorde das empresas de navegação, deve-se a um problema de oferta e demanda um sector com altos e baixos.

“O sector de navegação passou por anos de austeridade. Por décadas, não foi um negócio tão lucrativo por ter excesso de capacidade”, disse em entrevista à BBC News Mundo. “É um negócio cíclico”, acrescenta o académico.

As projecções apontam que a crise nas cadeias produtivas continuará no próximo ano, não só porque há engarrafamentos nos portos, mas também porque há falta de mão de obra em outras partes essenciais do processo, como, por exemplo, nos camionistas que transportam mercadorias dos terminais portuários para os centros de distribuição. Como a crise não dá sinais de abrandamento, as empresas que estão sem stock, tiveram que recorrer ao transporte aéreo de produtos. Empresas americanas como Nike, Crocs ou Levi Strauss pagaram custos mais altos para transportar alguns dos seus produtos em aviões. Isso explica porque começou a aumentar a demanda por transporte aéreo de cargas, uma alternativa mais cara, mas que num contexto desafiador como o actual, tem ganhado espaço.

Até a gigante Maersk começou a expandir as suas operações do mar aos céus, comprando a Senator International, operadora de cargas com sede em Hamburgo, na Alemanha, que lhe dará mais acesso a aeronaves, capacidade ferroviária.

Das profundezas do oceano para uma praia da Califórnia

Uma “criatura das profundezas do oceano” apareceu misteriosamente em uma praia de Torrey Pines, em San Diego, Califórnia – Estados Unidos. Jay Beiler caminhava pela areia por volta das 16h40 do horário local quando encontrou o peixe-futebol do Pacífico (Himantolophus sagamius), um tipo de tamboril de águas profundas.

“Nunca tinha visto nada parecido como isto antes. Vou à praia com frequência, então estou familiarizado com o território, mas nunca vi um organismo que parecesse tão temível como este”, afirmou Beiler.

A espécie que tem uma pequena luz bioluminescente no topo da cabeça que age como uma isca ficou famosa no filme ‘Procurando Nemo’. “No começo eu pensei que era como uma medusa ou algo assim, então cheguei perto e olhei para ele com um pouco mais de atenção. Algumas outras pessoas se reuniram em volta dele também, e então vi que era um peixe muito incomum. É o peixe dos pesadelos. A boca quase parecia sangrenta!”, completou.

De acordo com Beiler, o animal tinha quase trinta centímetros de comprimento. “Esta é uma das maiores espécies de tamboril e só foi vista algumas vezes aqui na Califórnia, mas é encontrada em todo o Oceano Pacífico”, explicou Ben Frable, gerente de recolha da colecção de vertebrados marinhos do Scripps Institution of Oceanography.

Frable afirmou que era uma fêmea e que as fêmeas da espécie têm a isca e são muito maiores – até 60 vezes maiores – do que os seus machos, que não têm os dentes salientes. A criatura também tem pontos de verrugas nas laterais, que são “uma espécie de projecções ósseas” que podem ser usadas para defesa.

“Então, se um tubarão de águas profundas ou algo assim vier e tentar mordê-lo, ele pega todos aqueles espinhos. Não é muito apetitoso quando se leva aqueles espinhos na boca. Mas eles podem ter outros propósitos. Nós realmente não sabemos. Não sabemos muito sobre a biologia destes peixes, e essa é uma das razões pelas quais gostaríamos que as pessoas nos avisassem quando encontrassem um na praia para que possamos aprender um pouco mais”.

“O peixe-futebol do Pacífico é conhecido por 30 espécimes que já foram recolhidos e levados a museus em redor do Oceano Pacífico. Eles foram encontrados do Japão até a Nova Zelândia, por toda parte, e muitas vezes eles foram encontrados na praia, então não se sabe ao certo o que os faz parar”, contou o especialista da Scripps Institution of Oceanography.

Foto: Jay Beiler

Oceano Ártico ficou mais quente décadas antes do que o previsto

Segundo avança o “Green Savers”, o Oceano Ártico está a ficar mais quente desde o início do século 20 – décadas antes do que os registos sugeriam – devido à água mais quente que flui para o delicado ecossistema polar do Oceano Atlântico.

Um grupo internacional de investigadores reconstruiu a história recente do aquecimento do oceano na porta de entrada para o Oceano Ártico, numa região chamada Estreito de Fram, entre a Gronelândia e Svalbard.

Utilizando as assinaturas químicas encontradas em microrganismos marinhos, os investigadores descobriram que o Oceano Ártico começou a aquecer rapidamente no início do século passado à medida que águas mais quentes e salgadas fluíam do Atlântico – um fenómeno chamado Atlantificação – e que essa mudança provavelmente precedeu o aquecimento documentado por medições instrumentais modernas. Desde 1900, a temperatura do oceano aumentou cerca de 2 graus Celsius, enquanto o gelo marinho recuou e a salinidade aumentou.

Os resultados, relatados na revista Science Advances, fornecem a primeira perspetiva histórica sobre a atlantificação do oceano Ártico e revelam uma conexão com o Atlântico Norte muito mais forte do que se pensava. A conexão é capaz de moldar a variabilidade climática do Ártico, o que pode ter implicações importantes para o recuo do gelo marinho e aumento do nível do mar global à medida que as camadas de gelo polares continuam a derreter.

Todos os oceanos do mundo estão a aquecer devido às alterações climáticas, mas o Oceano Ártico, o menor e mais raso dos oceanos do mundo, está a aquecer mais rápido de todos.

A atlantificação é uma das causas do aquecimento no Ártico, porém os registos instrumentais capazes de monitorizar esse processo, como os satélites, datam de apenas cerca de 40 anos.

À medida que o oceano Ártico fica mais quente, o gelo da região polar derrete, o que, por sua vez, afeta os níveis globais do mar. Conforme o gelo derrete, expõe mais a superfície do oceano ao sol, libertando calor e aumentando a temperatura do ar. À medida que o Ártico continua a aquecer, derrete o permafrost, que armazena grandes quantidades de metano, um gás com efeito de estufa muito mais prejudicial do que o dióxido de carbono.

Os investigadores afirmam que os seus resultados também expõem uma possível falha nos modelos climáticos, por não reproduzirem essa atlantificação inicial do início do século passado.

O mar das Selvagens é único — e agora vai ser totalmente protegido

Numa entrevista ao Observador, o biólogo Paulo Oliveira, um dos responsáveis pela área marinha protegida das Selvagens, explica o que está em causa no projecto de defesa de um oceano único no mundo.

São 2.677 quilómetros quadrados, uma área equivalente a todo o distrito de Lisboa, onde passa agora a ser completamente proibido pescar e explorar recursos naturais. Num raio de 12 milhas náuticas (22 quilómetros) das Ilhas Selvagens, na Região Autónoma da Madeira, o ponto mais a sul do território português, foi esta semana estabelecida uma Área Marinha Protegida com proteção total — a maior deste género de todo o Atlântico Norte.

O objectivo? Proteger um dos ecossistemas marítimos mais bem preservados de todo o planeta.

O anúncio foi feito na passada segunda-feira, numa altura em que se assinalam os 50 anos da fundação da Reserva Natural das Ilhas Selvagens, e resulta de um projecto científico levado a cabo pelo Governo Regional da Madeira e pelo Instituto das Florestas e da Conservação da Natureza (IFCN), com o apoio da investigação científica realizada pela Fundação Oceano Azul, pela National Geographic e pelo Waitt Institute.

Precisamente graças à reserva natural criada há 50 anos para proteger uma colónia de cagarras, a porção oceânica em redor das Ilhas Selvagens é atualmente “um dos melhores e mais bem preservados ecossistemas desta zona do Atlântico“, diz numa entrevista ao Observador o biólogo madeirense Paulo Oliveira, responsável pelo setor de conservação da natureza, assuntos do mar e preservação da biodiversidade do IFCN, organismo do Governo Regional da Madeira, e um dos arquitetos deste novo projeto de preservação do mar das Selvagens que pretende colocar Portugal como um dos líderes mundiais da preservação oceânica.

Embora não esteja totalmente a salvo dos impactos nocivos da atividade humana e das alterações climáticas, “porque o mar não tem fronteiras”, o mar das Selvagens encontra-se num estado “quase prístino”, explica Paulo Oliveira. Por isso, impunha-se aprofundar o nível de proteção da região, acabando com a atividade humana que ainda ali era permitida — incluindo a pesca artesanal do atum e do peixe-espada preto. A imposição da medida não foi feita sem diálogo com os pescadores, que, de acordo com o biólogo do Governo Regional da Madeira, entenderam desde o início a importância de preservar aquele mar.

Além disso, Paulo Oliveira acredita que a nova classificação daquelas águas vai ser um dos melhores cartões de visita da Madeira, atraindo para a região cientistas de todo o mundo para estudar aquele mar, que se encontra num estado de conservação difícil de encontrar noutras águas. Para o biólogo, não há dúvidas: a criação desta área protegida será um exemplo para decisores políticos de todo o mundo. “Este tipo de medidas só faz sentido num cenário de alterações climáticas se forem feitas em larga escala no planeta”, ressalva Paulo Oliveira.

O que é uma área marinha protegida? Na prática, o que significa este rótulo que vai ser posto nesta região?

Se nós olharmos para o regime jurídico para a biodiversidade, existem áreas protegidas com diferentes tipologias. De acordo com a tipologia, têm objetivos diferentes e cumprem desígnios diferentes. No nosso caso, estamos a falar de uma área marinha protegida de proteção total, o que quer dizer que é o estatuto máximo que poderemos ter ao nível da proteção conferida num espaço. Neste caso, as Ilhas Selvagens são uma área protegida com uma componente marinha muito representativa desde 1971. Tinham uma proteção, ao nível da parte marinha, até à batimétrica dos 200 metros, que será neste momento alargada até às 12 milhas. Isto, por si só, é significativo. Mas temos aqui um aspeto que me parece, de facto, o mais relevante: será uma área de proteção total. Aquilo a que se chama “no-take“, portanto, a atividade extrativa, seja ela qual for, está completamente proibida.

Estamos a falar de 2.677 quilómetros quadrados. É a maior da Europa.

Será a maior área marinha protegida com proteção total do Atlântico Norte.

Dizia que toda a atividade extrativa fica proibida com este novo regime jurídico. Estamos a falar de pesca, exploração de recursos naturais — tudo isto passa a ser completamente proibido?

Exatamente. Ao nível das atividades extrativas, das atividades humanas, ficam circunscritas a partir de agora a algumas atividades que podem vir a ser autorizadas pelo Instituto de Florestas e Conservação da Natureza, designadamente o turismo de natureza e científico — quando feito em harmonia com o espaço —, a investigação, a educação ambiental e toda essa componente do envolvimento das populações. Relativamente às atividades que sejam lesivas para aqueles ecossistemas, neste momento serão proibidas.

Qual é a importância desta área para ter merecido, ao longo das décadas, um regime de proteção cada vez mais alargado? Estamos a falar de que espécies e ecossistemas que encontramos ali e que já não encontramos noutros sítios?

A Reserva Natural das Ilhas Selvagens começa em 1971, fundamentalmente para proteger a colónia de cagarras que ali existia, que nidificava ali, que era alvo de caça de forma bastante significativa e impactante para essa população. Foi isso que motivou a criação da reserva em 1971. Mas o património natural das Ilhas Selvagens é muito mais amplo do que as cagarras — sem menosprezo pelas cagarras, obviamente. Temos toda uma panóplia, também em terra, porque é importante lembrar que há uma pequena parte da reserva que é em terra, de espécies exclusivas daquele espaço. Depois, temos um mar que se encontra em muito bom estado de conservação. Ao longo de toda as suas dimensões, a coluna de água e os fundos, que agora irão até à batimétrica dos 3.200 metros. O que nós temos ali para proteger é um dos melhores e mais bem preservados ecossistemas desta zona do Atlântico — e que será um exemplo para muitas outras áreas. Será uma referência a nível mundial, para ser combatido este flagelo que nós temos da degradação dos ecossistemas marinhos. Nós aqui na Madeira estamos a dar um passo que é importante localmente, com uma dimensão muito grande a nível do Atlântico, mas também acho que isto poderá ser, e será certamente, uma referência e um exemplo em que muitos outros decisores se vão inspirar para seguir.

É interessante que refira que é um dos lugares do oceano mais bem conservados no planeta. Numa altura em que temos assistido a uma grande degradação das condições do oceano devido à poluição e a todo o tipo de atividades humanas que descarregam os seus efeitos no oceano, o que é que explica que esta região se tenha mantido relativamente a salvo desses efeitos?

Obviamente que a área não está completamente a salvo desses efeitos, como nem seria de esperar, porque o mar não tem fronteiras. Há impactos muito grandes. Penso que um dos aspetos fundamentais para que as Selvagens estejam no estado em que estão tem a ver com a criação da reserva em 1971 e todo o trabalho de fiscalização e monitorização daquele espaço que foi feito ao longo destes 50 anos. As Selvagens fazem este ano 50 anos e é importante perceber que temos ali 50 anos de conservação da natureza, 50 anos em que as atividades humanas têm sido bastante regradas. Acho que é aqui que está a chave e o segredo deste bem-sucedido ecossistema.

Ainda que seja difícil replicá-lo em sítios povoados, em zonas costeiras com cidades…

Sim, obviamente. Nós, aqui na Madeira, temos toda a tipologia de áreas marinhas protegidas. Temos áreas marinhas protegidas costeiras, temos áreas marinhas protegidas um pouco mais afastadas, como por exemplo a Reserva Natural das Ilhas Desertas, e depois temos as Selvagens, que são bastante mais distantes desses impactos humanos. Obviamente que isso facilita imenso alguns aspetos relativamente aos impactos humanos, que são bastante minorados. Por outro lado, levanta outros desafios, designadamente a facilidade com que as potenciais infrações poderiam ser feitas se não houvesse fiscalização atenta. Porque é mais fácil fiscalizar aqui junto à costa do que fiscalizar tão longe de onde estão as entidades e os meios que fazem a fiscalização. Aquilo que marca a diferença foi o facto de termos sempre tido a capacidade de ter pessoas lá em baixo — nós aqui na Madeira dizemos muito das Selvagens “lá em baixo”, como é para sul. Tivemos sempre uma presença de pessoas que fiscalizavam e faziam a vigilância, que foi aumentada em 2016 e 2017, com a presença em permanência da Polícia Marítima. Neste momento, também temos ali um posto avançado da Polícia Marítima, que é determinante para a preservação daquele ecossistema através da fiscalização.

“O que nós temos ali para proteger é um dos melhores e mais bem preservados ecossistemas desta zona do Atlântico — e que será um exemplo para muitas outras áreas. Será uma referência a nível mundial, para ser combatido este flagelo que nós temos da degradação dos ecossistemas marinhos.”

E também muita ciência feita lá, imagino.

Sim, a questão da ciência e do conhecimento foi determinante para chegar onde chegámos. Em 2010, houve uma grande expedição às Ilhas Selvagens promovida pela Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental de Portugal. Isso foi em 2010, estiveram lá setenta cientistas no mar e em terra, que deram um aporte muito grande de conhecimento. Depois, em 2016, tivemos uma expedição da National Geographic, com todas as suas mais-valias, todo o seu conhecimento, entre outras que foram aparecendo — com outra dimensão, mas igualmente importantes. Foi a partir dessa expedição da National Geographic que começámos a trilhar este caminho de aumentar a área protegida, porque, de facto, houve indicações muito claras do estado quase prístino que aqueles mares têm.

E consideraram que seria fundamental aumentar o nível de proteção para garantir esse estado para o futuro?

Sim. Hoje em dia, independentemente de termos metas a cumprir a nível internacional — até 2030 existe o compromisso de 30% dos nossos mares serem protegidos, 10% com proteção total —, o que se passa muitas vezes é a criação de áreas no mar. São criados riscos no mar e depois o que se pode fazer fora e dentro é rigorosamente igual. Se nós queremos marcar a diferença, temos de fazer esses tais riscos, essas tais delimitações, mas depois sermos interventivos lá dentro. De facto, está mais do que provado, a ciência mostra que as áreas marinhas protegidas que são mais efetivas são aquelas onde existe proteção total. Se temos uma área marinha protegida e continua a haver extração, por mais pontual que seja, nunca chegamos a atingir aquele patamar prístino que queremos para os nossos oceanos.

O IFCN e o Governo Regional da Madeira estão juntos com a Fundação Oceano Azul e com a National Geographic para este projeto. Como é que se criou este grupo de entidades para chegar a esta classificação?

O networking acaba por ser aparecer naturalmente. Quando existem interesses que convergem na mesma direção, para o mesmo fim — e para um fim nobre como este —, fomos trabalhando a par e passo sem novidade. Foi de forma natural que as sinergias foram aparecendo. A Fundação Oceano Azul, a National Geographic e outras entidades foram sempre colaborando bastante neste acumular de conhecimento. Mas a participação de entidades com esta dimensão vai sempre muito mais além, é uma intervenção transversal. Posicionaram-se sempre como parceiros, disponibilizaram o seu networking, quer ao nível do conhecimento, mas também ao nível da criação da credibilidade à volta do projeto. Os projetos vivem muito e vão sendo construídos à volta do fator credibilidade e confiança naquilo que está a ser feito. Quer a Fundação Oceano Azul quer a National Geographic foram determinantes para nos dar esse conforto.

Na área marítima protegida anterior, ainda sem a classificação de proteção total, o que é que já era proibido fazer?

Na parte terrestre, as ilhas estavam e continuam condicionadas à utilização da entidade gestora [o IFCN]. A pesca estava condicionada. Era proibido fazer pesca que envolvesse redes e a pesca que atualmente se fazia lá, basicamente, era a pesca do atum, com métodos artesanais, e também do peixe-espada preto.

E isso vai passar a ser proibido. Há uma noção do impacto económico que esta medida poderá ter nesse setor? Ou é residual?

A atividade de pesca naquela área para os armadores, que são fundamentalmente armadores da Madeira e dos Açores, é residual. Estamos a falar em números abaixo dos 5% de toda a pesca nos mares da Madeira. Há anos em que é muito menos do que isso. Mas, nisso, o Governo Regional sempre soube estabelecer pontes e sempre soube ultrapassar esses problemas quando eles surgem. Temos o grande exemplo das Desertas. Quando criámos a reserva, houve um diálogo muito forte com os pescadores — e alguns mal-estares iniciais foram sendo atenuados ao longo do tempo sem consequências. Houve uma perceção da importância daquilo que estávamos a fazer.

E neste caso das Selvagens também está a ser feito esse diálogo?

Exatamente. Nós ouvimos todos os stakeholders, todas as áreas com interesse relativamente àquele espaço, e está a ser trabalhado. As sugestões foram acomodadas e neste momento acredito que será um processo pacífico, como se quer.

Vai haver compensações, autorizações para pescar noutros sítios?

É como lhe digo: neste momento, o diálogo está em cima da mesa, está a haver esse diálogo. Tendo em conta o facto de estarmos a falar de uma área em que a pesca, de facto, é bastante residual para os armadores da Madeira, está a haver um diálogo, mas ainda não existe nada em cima da mesa em concreto.

Em relação à fiscalização, antes, havia muitas infrações registadas? Qual era o nível de ação que a polícia tinha de ter na região?

As infrações têm vindo a diminuir ao longo do tempo. Durante as últimas décadas foram diminuindo bastante. As infrações maiores, as de maior monta e preocupação, eram de semirrígidas e embarcações espanholas que vinham às Selvagens pescar ilegalmente. As mais recentes ocorreram em 2010, 2011, 2012, por aí. Depois de a Polícia Marítima se ter estabelecido lá e ter criado o seu posto avançado, não tem havido quase problemas nenhuns. Pode ter havido uma navegação ilegal aqui, um fundear ilegal ali, mas em termos de infrações impactantes, desapareceram por completo desde esse momento.

E a nova legislação vai prever algum reforço dos meios de fiscalização, da Polícia Marítima e outras autoridades?

Nós temos uma capacidade instalada muito forte lá em baixo nas Selvagens. Quer por parte do IFCN, portanto do Governo Regional, quer por parte marinha. Acreditamos que esta capacidade instalada é suficiente para, numa primeira fase, manter a integridade deste espaço e fazer cumprir aquilo que são as novas regras. Mas é preciso termos presente uma coisa: cada vez mais, os métodos remotos de fiscalização e deteção de ilegalidades, através de radares, de imagens de satélite e de todas as plataformas que existem para controlar o tráfego marítimo, acreditamos que, independentemente de já termos a capacidade instalada, a curto prazo poderemos facilmente melhorá-la através destas novas tecnologias.

“Acreditamos que o turismo científico e da natureza, o mercado de nicho, será potenciado, o que é muito importante. Mas também é elevado o nome da Região Autónoma da Madeira enquanto destino sustentável do ponto de vista ambiental e da maneira como trata os seus ecossistemas.”

Este novo regime jurídico da reserva vai necessitar de algum investimento considerável? Ou, na verdade, não muda grande coisa uma vez que a capacidade instalada é suficiente?

A curto prazo, não existe essa necessidade imediata. Mas estamos já a trabalhar para encontrar soluções baseadas na tecnologia, e menos baseadas na presença humana. Não temos valores concretos, mas não estamos a falar de investimentos avultados. Pelo menos, que sejam tão avultados que impeçam a sua implementação.

E há algum impacto desta nova classificação, por exemplo, na atividade turística?

O impacto será favorável. Tudo aquilo que era a visitação mantém-se como estava, mas agora o cartão de visita é outro. As pessoas vão estar a visitar a maior área marinha protegida com proteção total da Europa — isto, só por si, é um grande cartaz. E depois tem impactos também ao nível daquilo que é a imagem da Madeira enquanto destino sustentável. Não só teremos efeitos localizados ali nas Selvagens. Acreditamos que o turismo científico e da natureza, o mercado de nicho, será potenciado, o que é muito importante. Mas também é elevado o nome da Região Autónoma da Madeira enquanto destino sustentável do ponto de vista ambiental e da maneira como trata os seus ecossistemas.

Queria voltar àquilo que me dizia no início. A nova classificação torna esta área marinha um exemplo, quer a nível nacional quer à escala global. É um exemplo de como a humanidade se deve relacionar com os oceanos — sobretudo vindo de um país que dizemos ser 97% mar?

Nós estamos aqui com um problema de escala global ao nível do desaparecimento de espécies, quer em terra quer no mar. Neste caso, relativamente ao ambiente marinho, nós estamos a atravessar uma crise global e importa que existam medidas bastante determinadas e que existam decisores e decisões políticas que orientem para a reversão desse estado de coisas. É óbvio que uma região como a Madeira, ao tomar uma medida destas, é de certeza motivador para muitas outras regiões onde, porventura, os decisores podem estar um pouco menos sensibilizados para a tomada de medidas — e que a referência da Madeira seja um exemplo e os motive a fazer o mesmo que nós vamos fazer agora aqui. A única maneira de nós preservarmos os nossos oceanos é criando zonas como esta, de preferência com alguma conetividade e interação entre elas, de forma a termos o mar global protegido.

Um país como Portugal, que tem uma extensão marítima tão grande, também tem a aprender a nível nacional com o que está a ser feito na Madeira?

Não gosto de dizer que alguém tenha de aprender connosco, porque, de facto, Portugal é um país muito capaz ao nível de proteção e preservação dos ecossistemas e das espécies. Temos feito trabalhos muito interessantes. Agora, uma vez mais reforço a minha ideia: não é uma questão de estar a ensinar nada a ninguém, ninguém tem nada a aprender connosco. Nós queremos é marcar a diferença pelo exemplo e que venham outros e digam: “Na Madeira, eles fizeram, nós também somos capazes de fazer, afinal isto é possível de ser feito”.

O oceano é o lugar em que os efeitos das alterações climáticas se vão sentir durante mais tempo, porque demora mais a reagir. Uma medida como esta poderá ajudar a que no futuro a Madeira sinta menos os efeitos das alterações climáticas?

As alterações climáticas são um fenómeno global. Obviamente, este tipo de medidas só faz sentido num cenário de alterações climáticas se forem feitas em larga escala no planeta. Um ecossistema que esteja em bom estado de conservação tem outra capacidade de amortecimento relativamente ao impacto das alterações climáticas.

Pelo menos 18 navios presos no gelo depois de Oceano Ártico congelar inesperadamente

Pelos menos 18 navios de carga ficaram presos depois de o Oceano Ártico ficar totalmente congelado de forma inesperada perto da costa da Rússia. 

O jornal Independent avança que o gelo tem, neste momento, até 30 centímetros de espessura desde que se formou. 

As empresas dos navios de carga foram apanhadas de surpresa pelo congelamento precoce e podem agora ter que esperar dias até serem retirados do local. 

O capitão de um dos navios, Viktor Gil, contou que a situação é “bastante terrível”, mas garante que a tripulação tem mantimentos suficientes para esperar pelo momento em que serão retirados do gelo, daqui a mais ou menos uma semana. 

No passado, o clima mais quente causado pelas mudanças climáticas permitia que os navios cruzassem partes da rota marítima do norte da Rússia em novembro sem incidentes. Este ano, não foi bem assim.

Shipping. Um futuro para o "Mar Português"

Um futuro mais sustentável e duradouro para a economia do mar em Portugal implica que os transportes marítimos sejam uma das âncoras da nossa política pública do mar.

O shipping não pode ser considerado e tratado pelos diversos actores públicos do “Mar português” como actividade menor, pois, é uma actividade marítima que pode cimentar economicamente e ambientalmente a política pública do Mar, e deste modo ajudar a consolidar um futuro promissor, afirmativo e sustentável do “Mar português. Durante séculos esta nossa actividade permitiu-nos alargar horizontes, aumentar o conhecimento e saber, fortalecer a interculturalidade e consolidar uma sociedade mais desenvolvida social e economicamente, de acordo com os padrões da época.  

Como sabemos, sendo o shipping na sua generalidade uma actividade de enorme transversalidade e amplitude económica e social ─ emprega muito e em diferentes actividades funcionais, gera fluxos financeiros de enorme mais valia e de grande importância para o PIB e impostos ─, necessita de uma constante absorção de soluções criativas e inovadoras e de uma ampla e diversificada fonte de serviços e produtos para conseguir assegurar o seu normal funcionamento.

Pelo que captar a sede destas empresas para o nosso território pode representar uma oportunidade para o crescimento de outras atividades económicas do país ─ como por exemplo a agricultura, metalomecânica, reparação naval, finança e seguros etc. ─, a criação de novos e diversificados empregos, bem como potenciar a formação para as actividades de mar e, naturalmente, garantir novas receitas de impostos.

Assim, uma estratégia assertiva para receber e captar a sede destas empresas será a mola adequada para gerar o sucesso ao desenvolvimento de um concelho, região ou país, basta para tal observar o exemplo do Reino Unido.

Ao consultarmos o estudo do Maritime UK’s “State of the maritime nation” verificamos que o Reino Unido estrategicamente estabeleceu como foco as actividades “portuárias, de serviços, de engenharia e de lazer”, consolidando assim uma indústria marítima pujante e complementar, tornando-a numa das maiores actividades económicas do país ─ em 2017 representava “47 bilhões de libras em volume de negócios, 17 bilhões de libras em VBA e 220.100 empregos”, assegurando “5,3 bilhões para o tesouro em impostos e exportando 12,4 bilhões em bens e serviços”.

E, ainda permitiu que regiões e concelhos, como foi o caso de Londres se especializassem em serviços marítimos do shipping, garantindo-lhes uma participação direta nestes resultados “VAB 26% e Empregos 19%”.

Este estudo também refere que a “OCDE prevê que a economia marítima cresça para o dobro – cerca de US$ 3 triliões nos próximos dez anos”. Assim, preparar este sector de actividade marítima a exemplo do que Reino Unido está a fazer é um imperativo, uma necessidade.

Deste modo, agregar o ecossistema do shipping, promover a criação do Centro Internacional de Shipping, dinamizar a constituição de um Centro de Arbitragem Marítima, rever o imposto de tonelagem e o regime jurídico da actividade profissional do trabalhador marítimo, criar alguns incentivos tarifários e/ou fiscais aplicados, serão parte importante para incentivar a deslocalização para o território nacional, e em particular para a região de Lisboa, de uma parte das empresas de shipping europeias e mundiais de média e grande dimensão. Pois, como afirma o Livro Branco “Pelo Mar Rumo ao Futuro” – sedear em Portugal apenas 5% do shipping europeu terá um impacto estimado em 100 mil postos de trabalho e de €7 mil milhões (3,5%) no produto interno bruto (PIB).

Fonte: Ionline

Viana do Castelo e Figueira da Foz cooperam viradas para a Economia do Mar

Cooperação, foi a palavra de ordem das segundas Jornadas de Inovação que decorreram em Viana do Castelo, no âmbito do projecto INOVSEA para as regiões costeiras do Alto Minho e do Baixo Mondego, com foco na Economia do Mar.

Empresas e entidades representativas de projectos e potencialidades do sector nos municípios parceiros promotores do projeto, Viana do Castelo e Figueira da Foz, foram convidadas a partilhar experiência e conhecimento naquele evento. O objectivo foi o intercâmbio de ideias de negócio para, em contexto de recuperação da economia, gerar novas oportunidades de investimento nas duas regiões que, no seu conjunto, atualmente, empregam “cerca de 3100 pessoas” em actividades económicas ligadas ao mar. No Alto Minho, a economia do mar representa “um volume de negócios de 204 milhões de euros, exportações de 91 milhões de euros e um VAB de 62 milhões de euros”.

Pesca, aquicultura, transformação e comercialização de produtos alimentares, construção e reparação naval, portos, transporte marítimo e logística. E ainda recreio, desporto e turismo, e novos usos e recursos do mar foram áreas de actividade e negócio da também designada “economia azul” abordadas durante as jornadas.

“Foi um dia bastante rico e inovador”, considerou o presidente da Associação Empresarial de Viana do Castelo (AEVC), Manuel Cunha Júnior, afirmando-se convicto que o projecto INOVSEA, promovido por aquela colectividade e pela Associação Comercial e Industrial da Figueira da Foz (ACIF), “será um game changer” (terá um efeito importante de inovação) no setor.

O presidente da AEVC afirmou que “são muito mais os pontos que unem, do que os que separam, Viana do Castelo e a Figueira”, já que “são dois municípios que têm uma economia muito voltada para o mar”. E que ambos estão apostados na “troca de conhecimento e informações, e em colocar as empresas e entidades dos dois concelhos em networking para se criarem novas dinâmicas e até novas empresas”. “Queremos que venham novas empresas para cá e levar novas para lá. A economia do mar vai ser, nos próximos dez anos, muito importante para a retoma da economia portuguesa”, disse.

Para o presidente da Associação Comercial e Industrial da Figueira da Foz (ACIF), Nuno Lopes, o trabalho desenvolvido no âmbito do projecto INOVSEA, terá “resultados sólidos de acréscimo de valor para ambos os concelhos”. Adiantou que um dos sinais é que uma das empresas da Figueira da Foz (a Lusalgae) presentes nas jornadas de Viana pensa estender a sua actividade ao Alto Minho. E acrescentou que espera que da cooperação entre a AEVC e a ACIF resulte “o engrandecimento” de projectos já existentes nos dois territórios costeiros. “Queremos perceber os fatores onde a Figueira da Foz e Viana do Castelo têm mais sucesso, de forma a que possamos agrupar mais valor a esses projetos, para que, se já são dinâmicos, passem a ser uma referência a nível nacional”, defendeu.