Universidade de Coimbra Quer Produzir Ouriços-do-Mar em Aquacultura

Uma equipa de investigadores do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE), da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, quer tornar possível a produção de ouriços-do-mar em aquacultura.

O objectivo dos investigadores do MARE é a produção de ouriços-do-mar de forma rentável e com reduzido impacto ambiental. O projecto é denominado “OtimO – Optimização dos processos de produção de Ouriço-do-mar” e é financiado em 202 mil euros.

O “caviar” da costa portuguesa
As gónadas, ou ovas, do ouriço-do-mar são muito apreciadas e a sua procura na perspectiva da gastronomia gourmet tem vindo a aumentar. A intensificação da apanha, muitas vezes de forma desregrada, visa colmatar o interesse nacional e do mercado internacional.

Tal valorização crescente das ovas, em segmentos como o da restauração, conduz ao seu elevado valor comercial. Logo, a aposta neste cultivo em cativeiro vem dar uma resposta, por via de métodos optimizados, à produção da espécie.

Um dos objectivos é promover o desenvolvimento das zonas costeiras através da diversificação e aumentar a competitividade no sector, bem como, evitar a sobre-exploração do recurso.

A intensificação da captura tem originado esgotamento de stocks, o que representa impactos negativos consideráveis no ecossistema. Através do sistema de aquacultura multitrófica integrada, são produzidas espécies de diferentes níveis tróficos ou nutricionais.

Coimbra já está a dar cartas na produção do caviar português
O projecto OtimO já está a ser desenvolvido desde Outubro de 2018, através da Associação de Desenvolvimento Local da Bairrada e Mondego (AD ELO), nos laboratórios do MARE na Figueira da Foz – Laboratório MAREFOZ.

Faz parte da equipa de investigadores Tiago Verdelhos, coordenador do projecto OtimO, incluído no Programa Operacional MAR 2020, que visa implementar em Portugal as medidas de apoio enquadradas no Fundo Europeu dos Assuntos Marítimos e das Pescas (FEAMP).

Os ensaios estão a ser realizados com ouriços-do-mar capturados no seu habitat natural, sendo estudados e controlados, durante todo o processo, pelos investigadores. A equipa pretende encontrar uma solução para os problemas críticos que impedem a produção da espécie em aquacultura.

Um dos processos é feito através da procura de larvas viáveis e da calibração dos processos de reprodução, desenvolvimento larvar e o seu crescimento. Todos estes passos são necessários, de modo a tornar possível a cultura em cativeiro, garantindo a qualidade e as características originais do ouriço-do-mar.

É de apontar que a reprodução da espécie em cativeiro é altamente complexa e depende de factores como a temperatura, a alimentação, a iluminação, a salinidade, entre outros.

Redução do impacto ambiental pela aquacultura
O modelo de produção proposto pelo projecto OtimO visa o desenvolvimento do sector da aquacultura de uma forma ambientalmente sustentável. Neste sentido, o plano propõe a recirculação de água e a reutilização ou reciclagem de recursos.

A aquacultura estuda a produção racional de organismos aquáticos, como peixes, moluscos, crustáceos, anfíbios, répteis e plantas aquáticas para uso do homem. A produção de peixes através de aquacultura triplicou entre 1995 e 2007.

Até ao final da primeira década do século XXI, a aquacultura era responsável pela produção da metade do peixe consumido pela população mundial. Actualmente, dos 160 milhões de toneladas de produtos do mar que são consumidos a cada ano, 50% têm origem na aquacultura.

Em Portugal, a aquacultura ainda tem um impacto reduzido. Em 2018, a produção nacional aquícola registou 13 992 toneladas, traduzindo-se num aumento de 11,5% face ao ano anterior. A produção em águas marinhas e de transição registou 70% do total da produção aquícola em 2018. A maior representatividade deve-se ao aumento de produção de amêijoas, ostras, mexilhão e macroalgas.

A aquacultura assume-se, cada vez mais, como uma alternativa sustentável no panorama do abastecimento alimentar mundial. Pela aquacultura também é possível fazer chegar determinados pescados marinhos a alguns países que, de outra forma, não têm como ter acesso aos mesmos em boas condições sanitárias. 

Natgeo

Foto: Tiago Verdelhos

 

Campanha científica acrescenta 37.500 km2 ao mapa do mar português

 

A campanha científica que o navio hidro-oceanográfico D. Carlos I, da Marinha Portuguesa, realizou durante nove semanas nos Açores, para levantamentos hidrográficos, permitiu “acrescentar cerca de 37.500 km2 sondados ao Mapeamento do Mar Português”, foi anunciado esta segunda-feira.

Numa nota, a Marinha adianta que o navio hidro-oceanográfico atracou esta manhã na Base Naval de Lisboa perfazendo “62 dias de missão e 970 horas de navegação, tendo percorrido 6.800 milhas náuticas (mais de 12 593 quilómetros)“, no âmbito do programa SEAMAP 2030 e da cooperação com o Governo Regional dos Açores.

O programa ‘SEAMAP 2030’, de mapeamento do mar português, visa a “caracterização da natureza dos fundos marinhos, na perspetiva de serviço hidrográfico nacional, numa abordagem multidisciplinar”, contribuindo para “aumentar o conhecimento nas áreas estratégicas de interesse nacional e para promover as atividades de desenvolvimento tecnológico, exploração sustentável dos recursos e investigação científica associadas às ciências do mar”.

O projeto irá “permitir a aquisição e processamento de dados para desenvolver produtos finais como cartografia náutica, mapas de informação diversa dos fundos marinhos e conhecimento do mar português”.

Esta campanha científica de nove semanas no arquipélago I permitiu “acrescentar cerca de 37.500 km2 sondados ao Mapeamento do Mar Português, no âmbito do programa SEAMAP 2030 e da cooperação com o Governo Regional dos Açores”, salienta a nota.

A Marinha explica ainda que a campanha científica consistiu “no levantamento hidrográfico, com os sistemas sondadores multifeixe de bordo, de dez montes submarinos com especial interesse para o estudo dos ecossistemas do mar profundo, num raio de cem milhas náuticas (mais 185 quilómetros) do grupo central do Arquipélago dos Açores”.

O navio realizou, ainda, a manutenção de duas boias multiparamétricas do Sistema Integrado de Monitorização Ambiental da Zona Económica Exclusiva de Portugal, dando apoio a uma equipa técnica do Instituto Hidrográfico.

No âmbito do projeto CETUS (que monitoriza informações sobre cetáceos) “e da colaboração da Marinha Portuguesa com o Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Porto (CIIMAR), embarcaram quatro observadores de cetáceos, tendo sido avistados vários exemplares das espécies Balaenoptera borealis (baleia-espadarte), Physeter macrocephalus (cachalote) e Grampus griséus (golfinho-de-risso)”.

O D. Carlos I é comandado pelo capitão-tenente Teotónio Pires Barroqueiro e tem uma guarnição de 34 militares.

Para esta campanha científica embarcaram ainda um médico e dois mergulhadores da Marinha Portuguesa, e uma equipa da Brigada Hidrográfica do Instituto Hidrográfico, constituída por cinco militares especializados em Hidrografia, que realizou levantamentos hidrográficos costeiros e portuários nas ilhas da Graciosa e do Faial.~

Foto: © António Araújo/Lusa

Cientistas “acordam” bactérias com 100 milhões de anos

Os micróbios e as bactérias estavam presentes em argilas enterradas no fundo do mar do oceano Pacífico e são apontados como os organismos vivos mais antigos do planeta Terra.

Uma equipa de cientistas, dos Estados Unidos e do Japão, conseguiu “acordar” bactérias da época dos dinossauros, com mais de 100 milhões de anos.

A Reuters conta que os microrganismos estavam adormecidos nas profundezas do oceano Pacífico e a equipa está convicta de que estes micróbios são os organismos vivos mais antigos do planeta. O artigo científico com a descoberta foi publicado na terça-feira na Nature Communications.

“É surpreendente e biologicamente desafiador que uma grande parte dos micróbios tenha sido capaz de reviver após muito tempo enterrados ou presos sob condições extremamente baixas de nutrientes e energia”, comentou Yuri Morono, geomicrobiologista da Agência de Ciência e Tecnologia do Japão.

Os investigadores contaram com a ajuda do navio de pesquisa JOIDES Resolution para encontrar os micróbios, representantes de numerosos grupos de bactérias, em sedimentos nas profundezas do sul do oceano Pacífico.

Com o auxílio do JOIDES Resolution, foi feita uma perfuração de quase seis quilómetros de profundidade no mar. As amostras de argila, nas quais os micróbios foram encontrados, foram recolhidas cerca de 74,5 metros abaixo do fundo do oceano.

As bactérias remontam à época em que os dinossauros habitavam o planeta Terra e sobreviveram mesmo sem nutrientes.

Durante a experiência, já em laboratório, os cientistas incubaram os microrganismos durante 557 dias. Com a incubação, as bactérias cresceram, multiplicaram-se e revelaram várias actividades metabólicas.

“Manter a capacidade fisiológica total durante 100 milhões de anos em isolamento e com fome é uma façanha impressionante“, disse o oceanógrafo Steven D’Hondt, da Universidade de Rhode Island, nos Estados Unidos.

ZAP //

IRRI Images / Flickr

 

Troia-Mar é a praia com maior capacidade da costa alentejana

A praia Troia-Mar, no concelho de Grândola, distrito de Setúbal, é a que tem a maior lotação da costa alentejana, segundo uma proposta da Agência Portuguesa do Ambiente (APA).

De acordo com a proposta disponibilizada no `site` da APA para “consulta informal” da população, respeitante à região do litoral alentejano, a praia Troia-Mar terá capacidade para 3.500 utentes, mais 1.500 do que as praias da Comporta, Carvalhal, Pego e Melides, também no concelho de Grândola, que terão capacidade para 2.000 pessoas cada.
A praia Troia-Bico das Lulas terá capacidade para 1.900 pessoas, a Troia-Galé e a Atlântica podem receber até 1.300 e, por último, na praia das Camarinhas prevê-se uma lotação de 1.100 utentes.
No concelho de Odemira, que abre a época balnear em 15 de junho, a praia das Furnas-Mar é a que terá maior capacidade, atingindo os 1.500 utentes, mais 100 do que a praia da Franquia, com 1.400. Furnas-Rio terá capacidade para 1.000 pessoas e a praia do Malhão Norte para 800.
Já a praia do Farol poderá receber, segundo a proposta, 700 utentes, Malhão Sul terá uma lotação para 600, Zambujeira do Mar fica com uma capacidade para 500 pessoas, Almograve Norte para 300, Carvalhal para 200 e as praias de Alterinhos e Almograve Sul para 100 pessoas cada.
Seguem-se as praias do concelho de Santiago do Cacém, que conta com a vigilância dos nadadores-salvadores a partir de 20 de junho e que este ano devem poder receber em simultâneo 2.900 pessoas.
Segundo a proposta divulgada no `site` da APA, a Costa de Santo André terá capacidade para 2.500 pessoas e a Fonte do Cortiço terá uma lotação d 400 pessoas.
No concelho de Sines, as praias Vasco da Gama e São Torpes, conhecida pela água quente e pela prática do surf, terão uma capacidade para 2.000 pessoas cada, seguindo-se a praia da Vieirinha/Vale Figueiros (1.300 utentes), Ilha do Pessegueiro (700 pessoas) e a Grande de Porto Covo (300).
No total, as 30 praias consideradas de uso balnear na costa alentejana podem receber em simultâneo 36.600 pessoas.
“Em contexto covid importa garantir a distância de segurança, o que pode implicar a redução da capacidade de ocupação do areal em determinadas praias. Contudo, em algumas praias, em particular nas de grande dimensão, os valores agora obtidos podem ser superiores à capacidade de carga definida nos Planos de Ordenamento da Orla Costeira/Programas da Orla Costeira, tendo em conta que, nas actuais condições, os utilizadores estão mais disponíveis para ocuparem uma área de areal que ultrapassa os limites das áreas de conforto”, consideradas naqueles documentos, explica a APA.
No caso das “águas costeiras e de transição”, o cálculo da capacidade de cada praia foi apurado através de uma conjugação de critérios como a definição da área de areal utilizável para a prática balnear com a profundidade possível, as características biofísicas e faixas de salvaguarda ao risco costeiro, o limite lateral das praias, a influência da maré e a utilização de uma área de 8,5 metros quadrados/pessoa, considerando o distanciamento físico necessário por razões sanitárias”, entre outros.
Quanto a “águas interiores”, foi definida a área utilizável para a prática balnear “considerando a extensão da frente da zona balnear e uma faixa com a profundidade passível de utilização contada a partir do limite do plano de água”, sendo tidos também em conta “os espaços envolventes disponíveis para o uso balnear”, como parques de merendas, esplanadas, relvados, campos de jogos e piscinas com plataformas flutuantes.
Durante a época balnear deste ano, os utentes das praias devem assegurar um distanciamento físico de 1,5 metros entre diferentes grupos e um afastamento de três metros entre chapéus-de-sol, toldos ou colmos, segundo um decreto-lei aprovado pelo Governo.
Além do “distanciamento físico de segurança entre utentes no acesso e na utilização da praia e no banho no mar ou no rio”, os cidadãos devem cumprir as medidas de etiqueta respiratória e proceder à limpeza frequente das mãos, bem como “evitar o acesso a zonas identificadas com ocupação elevada ou plena”.

Associação de ciências marinhas quer pescas baseadas em conhecimento científico

A associação Sciaena – Oceanos, Conservação e Sensibilização defende a necessidade de pareceres científicos na gestão das pescas em águas profundas, o que poderá implicar menos capturas de espécies como o goraz e o peixe-espada-preto. A associação, que em conjunto com outras organizações não-governamentais de ambiente apelam aos governos que limitem a pesca e minimizem os impactos da actividade no mar profundo, disse esta quinta-feira à agência Lusa que “Portugal tem algumas pescarias de profundidade, nos Açores, na Madeira e na costa continental, que dependem dessas medidas”. Gonçalo Carvalho, coordenador executivo da Sciaena, explicou que em causa estão os stocks de espécies como o goraz (pescado sobretudo nos Açores) e do peixe-espada-preto (pescado na Madeira e na costa continental). “O que temos verificado, ao longo dos anos, são passos muito lentos para conhecermos estes stocks, para acumular mais conhecimento científico que nos permita ter mais confiança nas medidas de gestão que tomamos”, afirmou o responsável pela associação, considerando haver, por outro lado, “uma certa relutância em seguir os pareceres científicos, que são precaucionais, para estas espécies”. A excepção em Portugal tem-se verificado nos Açores onde com “a adopção de várias medidas de gestão para controlar a forma como se pesca estas espécies”, mais sensíveis do que a maior parte das que vivem a menores profundidades. Um esforço que é reconhecido pelo Conselho Internacional para a Exploração dos Mares (CIEM), que admitiu o aumento da captura recomendada de goraz para as 610 toneladas em 2021, o valor mais elevado desde 2012. Daí a importância atribuída por Gonçalo Carvalho a que “sejam seguidos os pareceres científicos” e em alguns pontos da costa portuguesa isso represente cortes nas cotas de pesca em águas profundas. “É urgente gerir estes stocks com estas precauções e seguindo à risca o que a ciência nos diz”, afirmou, lembrando tratar-se de espécies “muito sensíveis e que se forem postas em causa vão demorar muito tempo a recuperar”. A Sciaena, em conjunto com a Birdwatch Irelanda, Sociedade Holandesa de Elasmobrânquios, Ecologistas en Acción, Fundació ENT, Oceana, Our Fish, e Seas At Risk apelaram aos governantes europeus para que estabeleçam limites de pesca e minimizem os impactos da actividade no mar profundo, dada a vulnerabilidade das espécies e escassez de stocks. O apelo das organizações tem por base um parecer científico publicado na quarta-feira, pelo CIEM, e que confirma que a maioria das populações de peixes de profundidade na área da União Europeia permanece em condições preocupantes e sem dados suficientes para uma avaliação adequada.


Foto: Carlos Lopes/Arquivo



Futuro Portuário de Sines

Parte do futuro mencionado no título, passa pela já anunciada expansão do Terminal XXI, que demonstra a aposta ganha de um projecto que se iniciou operações em meados de 2004, subindo desde de então diversos patamares, até à futura capacidade dimensionada de 4,1 milhões de TEUS. Ao seu lado, irá encontrar-se o futuro Terminal de Contentores Vasco da Gama, que viu o seu concurso adiado até 6 de Abril de 2021, e irá ter uma capacidade máxima de 3,5 milhões de TEUS. Ambos os projectos possuem o condão de dotar Sines de um enorme hub portuário, como irá reconfigurar o Concelho de Sines, bem como o Sector Portuário Nacional. 

É uma evolução que não surpreendeu quem acompanha de perto. Se o facto de serem terminais de águas profundas é importante? Sim. Se é extremamente  relevante a sua localização geográfica? Obviamente. Mas não será tudo.

Há quem fale em “reforçar o papel à escala internacional”. Falar nesse aspecto, sem propor a criação de uma zona franca, é falhar na intenção. Só a constituição de um projecto desta natureza, irá dar o impulso internacional que se pretende, de modo a incentivar o investimento, para estimular um incremento nas trocas comerciais e baixar custos. Mas se é importante captar o investimento estrangeiro, não menos será importante uma estratégia de captação de empresas nacionais com visão na área da inovação e tecnologia de modo a potenciar novas áreas de negócio.

Mas não é suficiente ainda. Se é falado que a plataforma integrada no Corredor Atlântico da Rede Transeuropeia como factor de vantagem, esquecendo que o actual governo demonstrou incapacidade de completar o projecto do Corredor Internacional Sul, que já deveria estar completo no 1° Trimestre de 2019, e que só deverá estar pronto em meados de Dezembro de 2023, senão for mais tarde, devido à pandemia da Covid-19.

E perante uma visão de crescimento, da possível captação de novas empresas, da criação de inúmeros postos de trabalho ( que esperamos qualificados e bem pagos), estará o Concelho preparado para esse futuro crescimento? Terá habitação para tanta gente nova, quando não existe suficiente e de forma acessível já vive ou é de cá? Uma estratégia para reforçar a exigência no que concerne à responsabilidade para com o ambiente? Que crie verdadeiro apoio aos mais antigos, que crie mais vagas para os bebés e crianças? Tanto que podia ser mais mencionado. 

Há paralelamente a estes projectos, um trabalho intenso que tem de ser feito para projectar o Concelho de Sines a esse novo paradigma. E esse trabalho que tinha de se iniciar ontem, infelizmente ainda não aconteceu e cada atraso irá ter suas repercussões negativas. 

Autor: Paulo Freitas

Ameaçada de extinção, maior tartaruga dos oceanos usa praias vazias para reprodução.

A natureza vem aproveitando o momento de quarentena e a redução das acções humanas directas e, assim, dos seus tão nocivos efeitos, para reflorescer e até mesmo renascer onde a vida, a fauna e a flora, pareciam antes condenadas. As tartarugas marinhas são um excelente exemplo de espécie que parece vir beneficiando da quarentena – em especial a Tartaruga de Couro, maior espécie de tartaruga dos oceanos: ameaçada de extinção, a espécie vem aproveitando as praias vazias da Florida, nos EUA, para colocar os seus ovos nas areias. Com até 400 kg e podendo medir até 2 metros de comprimento, a Dermochelys coriácea, também conhecida como tartaruga gigante, é encontrada em oceanos tropicais e subtropicais e pode viver até 300 anos. A ausência de pessoas nas praias da Flórida também significa a ausência de outras ameaças contra a espécie, para além das pessoas propriamente: as areias e águas se livraram dos resíduos plásticos e até mesmo das luzes nocturnas, capazes de atrapalhar a busca dos filhotes recém-nascidos por chegar ao mar. Segundo investigadores da Sea Turtle Conservancy, entidade que trabalha pela conservação das tartarugas nos EUA, é ainda prematuro para concluir que se trata da melhor temporada para a Tartaruga gigante, mas os indícios são positivos: no ano passado na Juno Beach, praia com maior densidade de ninhos de tartaruga no mundo, foram registados 21 mil ninhos nas areias nas duas primeiras semanas de desova, e nesse ano os biólogos já atestaram um aumento. O aumento na presença das Tartarugas marinhas  – e, da mesma forma, de seus ovos – vem sendo também visto na Índia, na Tailândia e outros tantos países.

Foto: Reuters

Covid-19: máscaras e luvas podem fazer disparar a poluição nos oceanos

Vários estudos indicaram que a qualidade do ar tinha melhorado substancialmente em quase todo o mundo, pouco depois do início da pandemia de Covid-19. Na China, em França ou nos Estados Unidos, os níveis de poluição desceram de forma sustentada, como consequência do fecho de várias actividades, nomeadamente a indústria.
Mas a World Wild Fund for Nature (WWF) alerta que, a longo prazo, podem surgir outros problemas para o meio ambiente. A obrigatoriedade do uso de máscara em muitos locais do planeta levou à massificação deste equipamento. Juntando a generalização das luvas, é necessária uma produção em massa deste tipo de materiais, feitos maioritariamente com plástico.
Grande parte do equipamento de protecção individual (EPI) são descartáveis, e acabam por ser deitados fora depois da sua utilização. A WWF alerta que estes materiais, ainda que não sejam recicláveis, devem ser deitados no lixo, prevenindo que acabem “nas ruas, nos passeios ou nos parques”.
A organização avança que já é notória uma maior presença de máscaras e luvas nos oceanos, e que a sua presença pode ser letal para vários peixes e tartarugas, que confundem o plástico com alimento, e acabam por ingerir o material.
Uma estimativa do Politécnico de Turim diz que, com o começo da fase dois do desconfinamento, vão ser precisos mil milhões de máscaras e luvas por mês só em Itália.
A WWF fala em “quantidades muito elevadas” de EPI’s, e apela à responsabilidade da população na hora de deitarem fora os materiais.
Cada um de nós deve fazer um esforço para assegurar que procedemos da forma correta e com o mínimo impacto possível na natureza”, refere.
A organização afirma que, mesmo que apenas 1% das máscaras seja descartada de forma incorrecta, isso corresponde a 10 milhões de máscaras deitadas na natureza todos os meses. Considerando o peso de uma máscara como quatro gramas, isso significaria 40 quilos de plástico, só em máscaras, deitado na rua todos os meses.
Da mesma forma que os cidadãos se mostraram responsáveis a seguir as directivas dos governos para conter a infecção, agora devem ser igualmente responsáveis na gestão dos EPI’s”, diz a WWF.
A presidente da WWF Itália pede que se evite um “impacto devastador”. Donatella Bianchi relembra que todos os anos são despejadas 570 toneladas de plástico no mar Mediterrâneo.

Covid-19: O confinamento fez silêncio nos oceanos e isso é “uma oportunidade única”

Com a diminuição de navios em movimento,
os cientistas puderam investigar como o silêncio dos oceanos é benéfico para a
fauna marinha
A pandemia, o isolamento social e o
bloqueio implementado em todo o mundo permitiram uma mudança positiva a nível
ambiental. O ar está mais limpo, já não existe tanto ruído, as fábricas pararam
e os transportes também. Tal como em terra, no mar, o ambiente também mudou:
instalou-se um silêncio. O ruído dos navios e dos outros transportes já não se
faz ouvir e a fauna marítima está mais calma.
Os observatórios aquáticos, que recolhem
dados sobre o aspecto físico, químico, biológico e geológico dos oceanos,
oferecendo recursos científicos e técnicos que permitem que os investigadores
recebam dados em qualquer lugar do mundo, administrados pela Ocean Networks
Canada, localizados perto de Vancouver, no Canadá, recebem os sinais sonoros
subaquáticos em tempo real. O oceanógrafo e professor David Barclay, da
Universidade Dalhousie, no Canadá, e os seus colegas, analisaram as gravações subaquáticas
em dois locais perto do porto, encontrando uma diminuição significativa no
ruído dos navios. “Normalmente, sabemos que o ruído subaquático afecta os
mamíferos marinhos”, explica o oceanógrafo.
Num dos sítios onde se recolheram as
ondas sonoras, Barclay confirma que o bloqueio teve influência no ruído do mar.
“Houve uma queda consistente no ruído desde o primeiro dia de Janeiro, o que
representou uma alteração de quatro ou cinco decibéis no período até ao dia 1
de Abril”. Durante este período de tempo, os dados do porto mostraram uma queda
de cerca de 20% nas exportações e importações.
Enquanto isso, no segundo local,
localizado em águas mais profundas, a cerca de 3 000 metros de
profundidade e a 60 quilómetros das rotas marítimas mais próximas, os níveis de
ruído diminuíram cerca de 1,5 decibéis. “Isto dá-nos uma ideia da escala a que
esta redução no ruído pode ser observada”, disse o professor Barclay ao The Guardian.
A redução da presença dos navios no
oceano torna possível descobrir quais os efeitos que este período pode ter na
vida marinha. Barclay compara esta época com uma “experiência humana gigante”.
“Estamos perante um momento de verdade”,
resume, ao The Guardian, Michelle Fournet, investigadora em
acústica marinha na Universidade de Cornell, em Nova Iorque, que estuda baleias
jubarte no Alasca. “Temos a oportunidade de ouvir e esta oportunidade não
aparecerá novamente nas nossas vidas”.
A última vez que os oceanos estiveram
tão silenciosos foi no seguimento dos atentados do 11 de setembro, quando houve
uma diminuição nos movimentos dos navios e dos aviões. Nesta altura, os
cientistas puderam concluir que o ruído dos navios está intimamente ligado com
o stress crónico das baleias. ” [Actualmente] temos uma geração de jubarte que
nunca conheceram um oceano calmo”, confirma a investigadora Fournet.
O final de abril costumava ser a época
de maior movimento de navios cruzeiro, no porto de Vancouver, mas a pandemia da
Covid-19 impediu esta afluência.
“O que sabemos sobre as baleias no
sudeste do Alasca é que, quando fica barulhento e os barcos passam por elas,
elas ‘chamam’ menos” disse Fournet. “Espero que o que possamos ver seja uma
oportunidade para as baleias terem mais conversas e mais complexas.”
Na Europa, também existem especialistas
a tentar descobrir qual o impacto que este bloqueio está a ter nos oceanos.
Nathan Merchant, especialista em bioacústica no Centro de Ciências do Ambiente,
Pescas e Aquacultura do governo do Reino Unido (Cefas) disse: “Estamos à espera
para ver o que nossos registos dizem”. O Cefas tem aparelhos para detetar ruído
em quatro locais: dois no Mar do Norte, um em Plymouth e outro perto de Bangor.
“Veremos como o coronavírus está a afectar o ruído subaquático em toda a Europa.
Portanto, este trabalho fora do Canadá será o primeiro de muitos”, disse ele.
“Temos esta experiência natural em andamento. É claro que é uma crise terrível,
mas é melhor analisarmos os dados para descobrir que efeito está a ter”.

Foto: Getty Images

Formentera, primeiro destino do Mediterrâneo a abrir

Depois de mais de 50 dias de confinamento, a ilha de Formentera é o primeiro destino mediterrânico a sair da clausura social. Foram cerca de dois meses sem turistas, nem barcos ou trânsito nesta que é a mais pequena das ilhas Pitiusas. É o reabrir de portas para um destino aclamado pelas suas praias inesquecíveis, ritmo de vida tranquilo, bom tempo e mar turquesa, o mais parecido com as Caraíbas que se encontra a cerca de hora e meia de voo de Portugal.


Além desta ilha do arquipélago das Baleares, há mais três ilhas espanholas que iniciam agora o regresso à actividade turística. São elas La Gomera, El Hierro e La Graciosa, que fazem parte do arquipélago das Canárias. O impacto da COVID-19 nestes destinos não teve as mesmas consequências dramáticas ocorridas no restante território espanhol, por isso Formentera e as referidas ilhas canárias entraram já na Fase 1 de saída do confinamento.