Máquina que limpa Oceano recolheu plástico pela primeira vez.

Foi projectada por um adolescente holandês, em 2012, para recolher plástico dos oceanos. Foi testada no ano passado e falhou, mas parece estar finalmente a funcionar. A máquina desenvolvida pela fundação Ocean Cleanup recolheu pela primeira vez plástico do Grande Depósito de Lixo do Pacífico, que flutua entre a Califórnia e o Havai. Segundo o seu inventor, Boyan Slat, foram recolhidos detritos de vários tamanhos, inclusive microplásticos.
“O nosso sistema de limpeza do oceano está finalmente a apanhar plástico, desde redes-fantasma [esquecidas ou largadas no mar] a uma tonelada de pequenos microplásticos. Além disso, alguém sentiu falta de um pneu?”, escreveu o jovem numa publicação nas redes sociais, acompanhada por uma fotografia onde se veem os resíduos recolhidos.
O sistema, apresentado pela primeira vez numa conferência TedEx, consiste numa barreira flutuante de 600 metros de comprimento, que utiliza a força das correntes para capturar os resíduos. Tem a forma de U e uma espécie de rede que apanha plástico até aos três metros de profundidade.
“Após um ano de testes, conseguimos desenvolver um sistema autónomo no Grande Depósito de Lixo do Pacífico que usa as forças naturais do oceano para capturar e concentrar passivamente o plástico”, lê-se no comunicado da organização.
Segundo o The Guardian, 600 a 800 mil toneladas de redes de pesca são abandonadas ou perdidas no mar anualmente, que se juntam a 8 milhões de toneladas de resíduos plásticos que chegam das praias.
Entre o Havai e a Califórnia situa-se aquela que é considerada a maior acumulação de plásticos do mundo. Tem 17 vezes o tamanho de Portugal continental, Açores e Madeira.
O sistema de limpeza – System 001/B – foi desenhado não apenas para recolher as redes de pesca e os detritos visíveis, mas também os microplásticos. De acordo com a organização sem fins lucrativos, foram apanhados pedaços de polímeros de 1 milímetro.
“A missão para tirar o plástico dos oceanos, que se acumula há décadas, está ao nosso alcance”, afirmou Boyan Slat, destacando que a equipa teve de superar “enormes desafios técnicos” para chegar a este ponto.
Recorde-se que, no final do ano passado, a Ocean Cleanup anunciou que o sistema não estava a cumprir a sua missão. Uma das causas, adiantou, poderia ser a velocidade a que o sistema se movia. Entretanto, os problemas foram resolvidos com uma âncora que diminui a velocidade da máquina e aumentaram o tamanho da linha de cortiça, para garantir que o plástico não se perde.
Apesar do sucesso desta operação, Boyan Slat, agora com 25 anos, reconhece que ainda há um longo caminho pela frente. Um dos próximos passos é criar o System 002/B, que irá permitir suportar e manter o plástico durante longos períodos de tempo na água.
Segundo o The Guardian, o plástico que entretanto for recolhido será levado para a costa, em dezembro, para ser reciclado.
De acordo com um estudo feito pela equipa de Slat, citado pela National Geographic, as redes de pesca “representam 46% do lixo [do Grande Depósito], sendo a restante maioria composta por outros equipamentos da indústria de pesca, incluindo cordas, tubos para criação de ostras, armadilhas para enguias, caixas de pesca e cestos”. Segundo as estimativas dos cientistas, “20% dos detritos provêm do tsunami que atingiu o Japão em 2011″.

Peixe-leão está dominando o oceano Atlântico e isso preocupa especialistas

Cientistas estão preocupados com a destruição causada por uma espécie de apetite voraz: o peixe-leão (Pterois volitans). Esses animais são um dos maiores invasores das águas dos Estados Unidos e têm causado um desequilíbrio ecológico no Oceano Atlântico, em especial nos ecossistemas da costa leste norte-americana até ao Golfo do México.
Num estudo publicado no jornal Marine Ecology Progress Series, cientistas explicaram como ocorre o ataque dos peixes-leão: eles lançam um jacto de água a partir da boca e engolem a sua vítima por inteiro. O movimento é tão rápido, que mesmo os peixes que estão próximos não percebem.
“É na verdade bem difícil descrever como um peixe-leão se alimenta, pois ele o fazem num segundo”, afirmou Kristen Dahl, investigador da Universidade da Flórida, ao portal Live Science.
Biólogos acreditam que os animais têm dominado a cadeia alimentar devido ao factor surpresa: a espécie é criada tradicionalmente em aquários, então é uma novidade na natureza e acaba não sendo reconhecida por outros peixes como uma ameaça.

Pela primeira vez, um homem alcançou o ponto mais profundo de todos os 5 oceanos

Escondida sob o Estreito de Fram, uma passagem que separa a Gronelândia e Svalbard, fica o ponto mais profundo do Oceano Árctico, onde o fundo do mar chega a 5.550 metros. Agora, o explorador Victor Vescovo tornou-se na primeira pessoa a alcançá-lo.
Em 24 de Agosto, Vescovo desceu ao fundo do chamado Molloy Deep, uma vala gelada que fica a 274 quilómetros a oeste de Svalbard, na Noruega. Para chegar a Molloy, Vescovo desceu num submersível chamado DSV Limiting Factor entre 64 a 80 quilómetros da borda de um bloco de gelo, de acordo com um comunicado. Após o mergulho solo inicial de Vescovo, a equipa mergulhou mais duas vezes.
“Estava frio, claro, e tivemos apenas seis a oito semanas de bom tempo por ano para experimentar”, disse Vescovo ao Live Science. “No inverno, o local de mergulho é coberto de gelo e, quando não é, as tempestades podem ser um problema“.
A expedição inteira foi cronometrada em torno das estreitas janelas climáticas que permitiriam mergulhar nos oceanos Ártico e Meridional. “Felizmente, os deuses do tempo sorriram-nos este ano.”
Com os mergulhos mais recentes, Vescovo e a sua equipa concluíram a “Expedição Five Deeps”, uma missão para chegar ao fundo dos cinco oceanos do mundo – uma conquista filmada para Deep Planet, uma série de documentários que será exibida no Discovery Channel ainda este ano.
Vescovo já desceu até a parte mais profunda do Oceano Atlântico, o Oceano Antártico, o Oceano Índico e do o Oceano Pacífico. Em maio, quebrou o recorde de James Cameron com o mergulho a solo mais profundo de todos os tempos no Oceano Pacífico. O explorador desceu 10.927 metros do Challenger Deep, o ponto mais profundo do planeta e parte da Fossa das Marianas.
Vescovo disse que a sua parte favorita de estar nas profundezas era o facto de estar a ir a um lugar ninguém tinha ido antes e “trazendo luz a lugares que não a veem há milhões de anos”. Explorar as profundezas era um sonho de Vescovo desde que era criança, quando lia história sobre as grandes aventuras dos exploradores do século XX.
“Com a equipa certa, talentosa e apaixonada, e a tenacidade de superar contratempos, tudo é possível”, disse. “Ainda há uma quantidade enorme de coisas para explorar pela primeira vez neste mundo”.
Este mergulho também fez de Vescovo a primeira pessoa a mergulhar na parte mais profunda de todos os oceanos do mundo.

O Oceano Atlântico pode começar do outro lado do mundo

Uma questão chave para os cientistas do clima é sobre a possível desaceleração do sistema de circulação principal do Oceano Atlântico, o que poderia ter consequências dramáticas para a Europa e outras zonas.
Porém, um novo estudo sugere que a ajuda para este oceano pode vir de uma fonte inesperada: o Oceano Índico. O novo estudo, conduzido por Shineng Hu, da Scripps Institution of Oceanography da Universidade da Califórnia-San Diego, e Alexey Fedorov, da Yale Universitypublicado na revista Nature Climate Change, é o mais recente de uma crescente corpo de pesquisa que explora a forma como o aquecimento global pode alterar os componentes do clima global, como a circulação de retorno do Atlântico Sul (AMOC).
A AMOC é um dos maiores sistemas de circulação de água do planeta. De acordo com a Europa Press, funciona como uma escada rolante líquida: transporta água quente até ao Atlântico Norte através de uma corrente superior e envia água mais frio para o sul através de uma corrente mais profunda.
Ainda quem se tenha mantido estável durante milhares de anos, os dados dos últimos 15, assim como as projecções de modelos de computador, têm preocupado alguns cientistas porque tem mostrado sinais de desaceleração durante esse período. Desconhece-se, porém, se é o resultado do aquecimento ou apenas uma anomalia a curto prazo relacionada com a variabilidade natural do oceano.
“Ainda não há consenso”, admite Fedorov, “mas acredito que a questão da estabilidade do AMOC não deve ser ignorada. A mera possibilidade de colapso deve ser motivo de preocupação numa época em que a atividade humana está a forçar mudanças significativas nos sistemas da Terra”.
“Sabemos que a última vez que a AMOC enfraqueceu substancialmente foi há 15 mil a 17 mil anos e teve um impacto global”, acrescentou. “Estamos a falar de invernos duros na Europa, com mais tempestades ou um Sahel mais seco na África devido à mudança descendente da faixa de chuva tropical, por exemplo”.
Grande parte do trabalho de Fedorov e Hu concentra-se em mecanismos e características climáticas específicas que podem estar a mudar devido ao aquecimento global. Usando uma combinação de dados de observação e modelos sofisticados de computador, rastreiam os efeitos que as alterações podem ter com o tempo.
Para o novo estudo, analisaram o aquecimento no Oceano Índico. “O Oceano Índico é uma das impressões digitais do aquecimento global”, disse Hu. “O aquecimento do Oceano Índico é considerado um dos aspectos mais fortes do aquecimento global”.
Os investigadores apontam que o seu modelo indica uma série de efeitos em cascata que se estendem do Oceano Índico ao Atlântico: à medida que o Oceano Índico aquece cada vez mais rápido, gera chuvas adicionais. Isto, por sua vez, atrai mais ar de outras partes do mundo, incluindo o Atlântico, para o Oceano Índico.
Com tantas chuvas no Oceano Índico, haverá menos chuvas no Oceano Atlântico. Menos chuvas levarão a uma maior salinidade nas águas da porção tropical do Atlântico, porque não haverá tanta água da chuva para diluí-la. A água salgada no Atlântico, ao chegar ao norte através do AMOC, arrefecerá muito mais rápido que o normal e afundará mais rápido.
“Isso funcionaria como um impulso para o AMOC, intensificando a circulação”, explica Fedorov. “Por outro lado, não sabemos por quanto tempo esse aquecimento melhorado do Oceano Índico continuará. Se o aquecimento de outros oceanos tropicais, especialmente o Pacífico, chegar ao oceano Índico, a vantagem do AMOC vai parar”.
Esta última descoberta ilustra a natureza intrincada e interconectada do clima global. À medida que os cientistas tentam entender os efeitos das mudanças climáticas, devem tentar identificar todas as variáveis ​​e mecanismos climáticos que podem desempenhar um papel.
Foto: Tiago Fioreze / wikimedia

Quatro mulheres nadam 25 quilómetros por um mar livre de lixo


Uma portuguesa e três espanholas
nadam no sábado, 28 de Setembro, cerca de 25 quilómetros, em mar aberto, na
região de Múrcia, Espanha, numa acção solidária a favor de uma associação
ambientalista que visa dar “visibilidade à problemática da poluição marinha”.

Em
declarações à agência Lusa, Sara Ramalho, nadadora de 33 anos natural de Viana
do Castelo, explicou que o objectivo desta iniciativa é “aumentar a
consciencialização sobre a poluição marinha e inspirar o mundo a repensar o uso
de plástico”.

Além da portuguesa, integram o projecto solidário Brazadas de Vida as nadadoras espanholas Célia Pascual, de Huelva, Marina Martinez, de Villena (Alicante), e Nuria Consuegra, de Madrid. “Somos apaixonadas por nadar no mar, queríamos ir além da prática desportiva e alcançar um impacto positivo na sociedade. É por isso que, através do Brazadas de Vida, tentamos dar visibilidade, consciencializar e denunciar causas com as quais nos sentimos identificadas, e pensamos que são problemas actuais”, disse Sara Ramalho.

Natural de Monserrate, em Viana, Sara Ramalho reside na capital espanhola, desde 2009. Licenciada em Gestão e a trabalhar numa empresa inglesa, Sara Ramalho adiantou que o “desafio” que as quatro vão enfrentar terá uma duração estimada de “mais de oito horas, sem descanso”, com a começar “na região de Múrcia, no Parque Regional Puntas de Calnegre – Cabo Cope, paralelo à costa, e entrando no Puerto de Mazarrón e na torre de Cabo Cope”.

A acção solidária tem início pelas 07h30 (hora local, mais uma do que em Lisboa), na praia de La Reya, no porto de Mazarrón. Em 2017, as quatro mulheres nadaram durante seis horas entre as ilhas de Formentera e Ibiza, numa acção solidária para ajudar os refugiados que atravessam o Mediterrâneo. Na altura, pretendiam angariar 10.800 euros, equivalentes ao número de braçadas que cada uma teve de dar para percorrer os 18 quilómetros que separam as duas ilhas Baleares.

Portugal quer classificar 30% do espaço marítimo como área protegida até 2030

O Oceano não é só uma vítima das alterações climáticas, é também uma das principais fontes de soluções. É a pensar nisso que 14 países assinaram na passada segunda-feira um compromisso para uma acção climática com base no Oceano – e entre eles está Portugal, que se comprometeu, entre outras medidas, a classificar 30% do seu espaço marítimo como área protegida até 2030, altura em que pretende também garantir que 10% da energia consumida no país seja produzida através de eólicas offshore ou através da energia das ondas. A ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, esteve em Nova Iorque a participar na Cimeira do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU), tendo acompanhado o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. 

Estes compromissos foram assumidos durante uma reunião do Painel de Alto Nível para uma Economia do Oceano Sustentável (High Level Panel for a Sustainable Ocean Economy) que esteve reunido em Nova Iorque à margem da Cimeira do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU), e que é composto por 14 países. Para além de Portugal, este Painel inclui a Noruega, Austrália, Japão, Quénia, México, Namíbia, Chile, Indonésia, Palau, Fiji, Gana, Canadá e Jamaica. Todos juntos representam cerca de 30% da linha costeira mundial, 30% das Zonas Económicas Exclusivas globais ou 20% da frota de navios em todo o mundo.

Cada um dos 14 países comprometeu-se com medidas concretas para desenvolver na próxima década, reconhecendo o Oceano como uma das principais fontes de soluções, pelo seu papel fulcral no combate às alterações climáticas, nomeadamente como regulador climático do Planeta ou pelo grande poder de absorção de CO2.  “O Oceano tem um grande impacto nas alterações climáticas, constituindo-se como uma grande fonte de absorção de CO2, retendo 50 vezes mais dióxido de carbono do que a atmosfera. É por isso que o Oceano tem de ser central naquele que é o grande objectivo global da descarbonização e do combate às alterações climáticas”, defendeu a ministra do Mar, Ana Paula Vitorino.

Entre os compromissos mais emblemáticos assumidos por Portugal está a intenção de classificar 30% do espaço marítimo nacional como áreas marinhas protegidas (AMP) até 2030, o que significa uma intensificação dos esforços que já haviam sido assumidos anteriormente. Actualmente, as AMP ocupam apenas 7% do espaço marítimo nacional e em Junho, por ocasião da Conferência das Nações Unidas para o Oceano, Portugal apresentou como compromisso a classificação de pelo menos 14% do espaço marítimo sob jurisdição nacional como área marinha protegida. Agora pretende duplicar essa área e chegar as 30% em apenas uma década. De acordo com o compromisso assinado pela ministra do Mar, “as redes de áreas protegidas são a pedra angular das políticas de conservação da biodiversidade, concentrando-se na protecção de ecossistemas, habitats, espécies e recursos genéticos, proporcionando assim uma ampla gama de benefícios para a sociedade e a economia”.

Foto: Paulo Pimenta

Índia lança primeira tecnologia biométrica para o sector marítimo

A Índia se tornou o primeiro país do mundo a emitir o Documento de Identidade Biométrica para transporte marítimo. A tecnologia captura os dados biométricos faciais das pessoas que trabalham no sector marítimo da Índia.

O ministro de Estado da União para o transporte marítimo, Mansukh Mandaviya, lançou o projecto e na altura entregou os novos cartões BSID para cinco empresas marítimas na Índia.
A nova tecnologia biométrica facial é uma melhoria acentuada em relação aos dados biométricos baseados em íris ou em dois dedos, com recursos de segurança modernos.
O novo documento fornecerá aos marítimos uma identificação infalível que facilitará sua movimentação, facilitará o emprego e ajudará a identificá-los de qualquer lugar do mundo.

“O sector marítimo está experimentando importantes desenvolvimentos nas áreas de transporte marítimo costeiro, vias navegáveis ​​interiores e outras actividades marítimas. Isso está gerando emprego no sector, o que é evidente no crescente número de marinheiros indianos no sector de transporte internacional.”, disse Mandaviya.
“O número total de pessoas que trabalham em navios de bandeira indiana ou estrangeira aumentou de 1,54.349 em 2017 para 2.08.799 este ano, o que mostra um aumento sem precedentes de 35%”, disse.

O BSID terá um chip biométrico embutido. A segurança dos cartões BSID é garantida em vários níveis e através de diferentes métodos.
No momento da captura de dados, a face ao vivo é atravessada pela foto do passaporte usando um software de comparação de faces.
O cartão possui dois recursos de segurança ótica: microimpressões ou micro textos e um padrão único de linhas que se cruzam.

O software foi desenvolvido para capturar biometria facial e sua autenticação através da infraestrutura de chave pública.
Um registo de cada SID emitido num banco de dados nacional será mantido e suas informações relacionadas estarão acessíveis internacionalmente.
Nove centros de colecta de dados foram estabelecidos em Mumbai, Calcutá, Chennai, Noida, Goa, Nova Mangalore, Kochi, Vizag e Kandla para a emissão do BSID.
Qualquer pessoa que trabalhe no sector marítimo da Índia e possua um Certificado de Descarga Contínua emitido pelo governo estará qualificado para a emissão de um BSID.

Portugal país marítimo? "Os indicadores económicos não mostram isso"

Os portugueses dão muita importância ao mar, mas ficam-se pelo romantismo de uma linha azul no horizonte. A provocação da bióloga marinha Rita Sá deu o mote ao debate no programa “Da Capa à Contracapa”, registado no final de Julho na Renascença, no programa semanal em parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Emanuel Gonçalves, biólogo marinho e também administrador da Fundação Oceano Azul, proprietária do Oceanário de Lisboa, defendeu que os números não mostram Portugal como um país marítimo, que requer investimentos continuados e uma estratégia de longo prazo.
“Para sermos um país marítimo, temos que ter população de forma correspondente a fazer coisas no mar. Olhando para os indicadores de utilização de embarcações de recreio, perdemos para o norte da Europa onde o clima é muito pior. Falta acesso, cultura, para trazer as pessoas para o mar. Os indicadores sobre a bioeconomia ou economia dos recursos marítimos também não mostram investimento capaz de transformar a ciência em empresas produtivas para o sector”, constata Emanuel Gonçalves que no passado esteve envolvido no grupo que preparou a Estratégia Nacional do Mar.
O que se perdeu então? Para o perito em Áreas Marinhas Protegidas, a Expo’98 marcou uma diferença significativa, juntando um conjunto de elementos dificilmente conciliáveis no tempo como a liderança governativa política, a capacidade financeira para investir e uma resposta da sociedade. “Houve clara vontade de trazer o Ano Internacional dos Oceanos para Portugal. Houve investimentos públicos necessários para transformar essa realidade em algo concreto. E aí a sociedades responde”, argumenta Gonçalves na Renascença, que defende um alinhamento dos pontos de vista da governação, economia e social, sublinhando ainda assim a vantagem do tema não estar politizado.
Rita Sá concorda com o diagnóstico. “Falta estratégia, falta visão, falta vontade para que o mar seja algo que faça parte da vida de toda a gente de uma forma profunda. As estratégias ficam sobretudo no papel”.
Pescar os pescadores para a conservação e a ciência para a política
A discussão em torno da sustentabilidade dos recursos pesqueiros tem sido marcada por divergências entre Estados, cientistas e comunidades piscatórias. Rita Sá assegura que tem sido tentado envolvimento dos pescadores na tomada de decisão na gestão de recursos da pesca. ” É uma mudança de paradigma para que corresponsabiliza as pessoas pelas decisões”, completa a activista da Associação Natureza Portugal que será uma das oradoras do encontro “O Futuro do Planeta” em Lisboa.
A bióloga considera que há compatibilidade possível entre a protecção de determinadas Áreas Marinhas e algumas actividades económicas desde que sejam mais controladas e monitorizadas, com envolvimento de comunidades.
Já para Emanuel Gonçalves, não foi possível ainda passar a mensagem de que o peixe e os pescadores são duas faces da mesma moeda. ” Não vivem um sem o outro. Só consigo defender os pescadores se defender o peixe. Só consigo ter uma economia saudável baseada nos biorecursos se proteger o capital natural que existe no oceano”, afirma o biólogo marinho.
Confrontado com as divergências entre as diversas partes com base em estudos apresentados como científicos, Emanuel Gonçalves considera que o problema está na incapacidade de admitir que esses pareceres são para seguir.
“Temos uma falta de incorporação da informação científica na tomada de decisão. Se assumirmos que os pareceres científicos são para levar a sério, as pessoas têm que ser consequentes com esses pareceres. Não podemos depois fingir que não existem esses pareceres ou fingir que as políticas contrariam esses pareceres. É uma questão cultural por ultrapassar”, critica Emanuel Gonçalves que insiste na necessidade de criar conselhos científicos nas principais estruturas de decisão do país. ” E os políticos devem tomar decisões de acordo com o seu entendimento que não se substitua aos cientistas na aferição da situação”, insiste Gonçalves, ele próprio membro do Conselho Nacional de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.
Não ter medo do mar, outra vez
Emanuel Gonçalves argumenta que o mundo vive em simultâneo uma emergência climática e uma crise de biodiversidade que requer a necessidade de escolhas políticas decisivas.
” Estamos a perder espécies que se estão a extinguir a uma escala sem precedentes e estamos a modificar a atmosfera do ponto de vista químico. As políticas de um país onde o oceano tem soluções para cada uma dessas crises têm que ser ajustadas a essa realidade. Se Portugal decidir optar pela exploração de hidrocarbonetos ou minerais no mar profundo, isso tem consequências. Essa escolha política tem consequências que nos afastam das soluções para estas duas crises”, afirma Gonçalves que defende uma aposta num ” cluster fortíssimo de biotecnologia, onde podemos ser lideres na exploração das soluções que o oceano nos traz” a par da recuperação de habitats costeiros que absorvem carbono, de uma aposta do sistema científico nacional capacitado para trazer inovação à economia”.
O administrador da Fundação Oceano Azul afirma mesmo que ” não é uma inevitabilidade que as pescas tenham de continuar a diminuir, que tenhamos que ver o sofrimento das comunidades costeiras, que os pescadores desapareçam e com eles a sua cultura. Será certamente uma inevitabilidade se continuarmos a não atacar esse problema com soluções concretas”.
Emanuel Gonçalves reconhece que o mar português é grande, mas a sua dimensão não deve amedrontar políticos, empresas e cidadãos. Mas é preciso transferir a ciência para a economia do mar.
” As patentes que derivam da exploração dos recursos genéticos e outros marinhos têm retorno para um determinado país, empresa ou laboratório. É preciso mais formação mas também estratégia. Formámos um enorme número de doutorados em ciências do mar. O que estamos a fazer com esse capital humano que investimos? Não estamos a conseguir integrá-los no sistema produtivo e científico. Isto é trágico. Estamos a fornecer mão-de-obra qualificada para países concorrentes e outros com mais recursos por falta de capacidade e de estratégia para os integrar e transferir para sistema produtivo. Temos uma percentagem bastante significativa de artigos científicos em ciências do mar, mas temos uma das mais baixas taxas de patentes na OCDE”, remata o biólogo marinho no debate sobre a relação entre os portugueses e o mar. 


Foto:DR

Alterações nas regras de combustíveis no sector marítimo levam a subida de preços

O custo do transporte marítimo de mercadorias atingiu os níveis mais altos em quase nove anos, devido ao facto de muitos armadores terem começado a retirar navios do mercado para fazer as alterações necessárias para enfrentar as novas regras para os combustíveis.
O Baltic Dry Index, um index que analisa fretes de quase tudo, desde carvão a minério de ferro a cereais, atingiu os 2.378 pontos na primeira semana de Setembro, a maior subida desde Novembro de 2010, segundo dados da Bolsa do Báltico, com sede em Londres. Os navios da classe Capesize estão estão neste momento a ser fretados por quase 35.000 dólares por dia, o valor mais alto desde há 5 anos e meio.
O sector marítimo está a preparar-se para algumas das mudanças mais significativas da sua história recente – um corte obrigatório nas emissões de óxido de enxofre que será imposto em pouco mais de três meses. Para atingir estas metas, milhares de navios estão a ser retirados do mercado para instalar equipamentos designados de scrubbers que vão permitir que estes possam continuar a queimar o combustível mais barato que hoje é utilizado. Os navios que não se adaptarem passarão a pagar taxas mais altas.
A paragem de navios para serem feitas as alterações está a causar uma falta de de oferta no mercado numa altura em que por várias razões a procura tem aumentado. Este aumento deve-se desde ao retomar das exportações de minério de ferro do Brasil (após a recuperação dos danos causados pelo colapso de uma barragem ), ao aumento das exportações dirigidas ao retalho no EUA, em antecipação ao aumento de taxas alfandegárias, na guerra comercial entre os EUA e a China. Outro factor foi que muitos navios foram abatidos. Todos estes factos alteraram o equilíbrio entre a oferta e a procura.
Assim, neste momento os valores dos fretes estão a subir em todas as classes de navios que são monitorizados pela Baltic Exchange. Os navios da classe Panamax, classe abaixo dos Capesizes, estão a cobrar 18.000 dólares por dia, o máximo desde 2010. A classe Handysize, com 9.700 dólares por dia, está num máximo desde 2011.
Segundo previsões dos especialistas a oferta total no mercado de transporte marítimo deve crescer quase 3% este ano. Enquanto na década passada, por vezes a capacidade expandiu-se em mais de 10%. Ainda assim, este aumento de preços recente pode não durar. As importações de minério de ferro por parte da China caíram 5% nos primeiros sete meses do ano – algo que é uma má notícia para um mercado que depende do país asiático para impulsionar o fluxo de cargas. Assim, muitos não prevêem que esta alta de preços seja estável apostando mais na volatilidade do mercado.

Os ouriços-do-mar têm uma boca cheia de dentes (e são afiados)

Desengane-se quem pensa que o tubarão é a criatura com os dentes mais assustadores a viver nas profundezas do oceano. Pode parecer estranho à primeira vista, mas estamos a falar do humilde ouriço-do-mar.
É certo que não temos muito a temer enquanto seres humanos. Embora as picadas dos seus espinhos sejam desagradáveis (e às vezes venenosas), a verdade é que estes animais não usam os dentes afiados para nos morder — as principais presas são as algas e os pepinos-do-mar.
De acordo com o Science Alert, uma nova investigação realizada pelo engenheiro mecânico e estrutural Horacio Espinosa, da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, usou técnicas de microscopia eletrónica para investigar como os dentes do ouriço-do-mar, localizados na parte inferior do seu corpo, se desgastam durante os processos de abrasão.
Os resultados agora obtidos confirmam uma hipótese já colocada anteriormente: os dentes afiam-se através da abrasão — tal como uma lâmina pode ser afiada com um afiador de facas, à medida que o material é removido da aresta de corte.
“O material na camada externa do dente exibe um comportamento complexo de plasticidade e dano que regula a lascagem ‘controlada’ do dente para manter a sua agudeza”, explica o engenheiro, cujo estudo foi publicado na revista científica Matter.
Quando o esmalte dos nossos dentes começa a desaparecer, desaparece definitivamente. No caso deste animal, os cinco dentes que tem são um bocadinho mais sortudos. Quando a camada fibrosa externa (chamada de “pedra”) lasca, é substituída por novos materiais que crescem de forma contínua. Com o tempo, esta nova camada volta a ficar quebradiça e é então que o ciclo se repete.
De acordo com os investigadores, este é um mecanismo biológico que pode levar a ciência a conseguir um dia fabricar materiais capazes de imitar este processo e talvez até levar ao desenvolvimento de “novos dentes artificiais para humanos com melhores propriedades”.
Via Zap