Assunção Cristas acredita que Portugal tem todas as condições para se afirmar como uma grande potência na área do desenvolvimento e proteção da economia sustentável do oceano. A ex-ministra revela ainda detalhes sobre a “Ocean”, uma licenciatura pioneira a nível mundial, nesta entrevista ao Ensino Magazine.
Coordena o mestrado em Direito e Economia do Mar da Nova School of Law (NSL), recentemente distinguido pela Eduniversal como o melhor do mundo neste domínio, na categoria de Maritime Management. Para além do natural orgulho na distinção, significa isto que Portugal está na vanguarda neste campo?
O nosso país apresenta, neste campo, uma marca distintiva e temos a possibilidade de irmos mais além em termos internacionais. Este mestrado funciona há sete anos, e de há dois anos a esta parte sofreu algumas transformações, nomeadamente na língua de ensino que passou a ser o inglês e a mudança nalgumas disciplinas, em que de 14 obrigatórias passámos a ter oito e um leque muito alargado de disciplinas facultativas. Há não muito tempo, tínhamos à nossa frente universidades tão relevantes como as de Roterdão, Sydney, Copenhaga e Singapura e este ano obtivemos o primeiro lugar. Isto é o corolário de um trabalho de qualidade que se tem vindo a desenvolver nas universidades portuguesas, mas este mestrado destacou-se pela natureza diferenciada, assente numa visão ampla e integrada. O foco na sustentabilidade, mais visível em determinadas disciplinas, e possuirmos professores de grande qualidade e mérito que fomos agregando a este mestrado, creio que também foram fatores que pesaram na nossa subida no “ranking”. Fazer melhor do que no ano anterior é uma preocupação permanente. Este ano a grande novidade foi o lecionar da cadeira de Maritime Security, a cargo da Marinha Portuguesa, mais concretamente pelo almirante Gouveia e Melo.
Também está ligada à Nova Ocean Knowledge Centre, focado na área do Direito, mas com uma vocação interdisciplinar. Trata-se de mais um contributo para colocar o tema do oceano na agenda?
A marca de água da NSL é olhar sempre para o Direito em contexto e em diálogo com as outras ciências e no caso do Mar isto é especialmente relevante. Não é possível compreender o Mar se tivermos uma abordagem muito setorial. Este Centro, que está a dar os primeiros passos, procura também envolver os estudantes de mestrado em trabalhos de investigação, para além, naturalmente, dos estudantes de doutoramento. Para além disso, já temos alguns estudantes de licenciatura interessados em envolver-se nestas áreas.
Qual é o ponto de situação do pedido de acreditação da “Ocean” (Mar), a licenciatura pioneira a nível mundial da NSL?
Esta candidatura foi preparada ao longo dos últimos dois anos, assente numa preocupação de transversalidade. Para além do mestrado e do Centro, achámos que era da maior importância agregar as diferentes perspetivas e o diferente conhecimento que existe sobre o Mar. Temos na nossa universidade e também na universidade portuguesa, em geral, muito boas formações de licenciaturas e mestrados ligados ao Mar, mas sentimos que faltava algo de muito transversal. Desafiámos outras faculdades a fazer um projeto de raiz, de nível licenciatura (3 anos), que pudesse abarcar o Direito, a Economia, a Gestão, os fundamentos da área da Biologia e da Geologia, também, a História e as Relações Internacionais, tendo o Mar e o oceano como ponto agregador. Escolhemos a designação “Ocean”, em inglês, porque o tema é global e também porque ambicionamos trabalhar para o mundo, criando impacto além-fronteiras.
Que outras instituições para além da NSL estão envolvidas?
O dossiê já está aprovado, apesar deste processo ter arrancado devagar, por ter sido em plena pandemia. É um projeto nunca antes visto no nosso país porque envolve oito entidades diferentes, cinco das quais da Universidade Nova e as outras três das universidades do Algarve e de Évora. Pelas valências envolvidas, prometemos um curso inovador, nomeadamente com o contacto direto com os ecossistemas marinhos. Está previsto arrancar no Algarve com uma semana de campo em princípios de oceanografia. Posteriormente, esta investigação será complementada em Lisboa com o Instituto Oceanográfico pertencente à Marinha. Também está prevista uma semana de campo no final do primeiro ano, mais concretamente em Sines, com a experiência e os desafios de uma cidade costeira. O resto do curso funcionará, essencialmente, em Lisboa, mas há a possibilidade de os estudantes escolherem fazer o último semestre da licenciatura em Sines ou no Algarve, ou em alternativa, nalguma instituição internacional. Uma coisa posso garantir: é um curso absolutamente apaixonante, inovador e multidisciplinar, com várias disciplinas a serem lecionadas por mais do que uma faculdade.
Quais são as saídas profissionais que perspetiva para esta licenciatura pioneira?
Para além de poderem prosseguir mestrados e doutoramentos, podem profissionalmente entrar no mercado de trabalho, seja no âmbito público ou privado, em Portugal ou no estrangeiro. A ligação a organizações não governamentais é outra alternativa a considerar. No setor privado gostaria que alguns dos licenciados pudessem lançar algumas empresas na área do Mar, porque a economia deste setor precisa de inovação e de jovens talentosos. Para além disso, também poderão ajudar as empresas da economia sustentável do Mar a posicionarem-se melhor ou apoiarem investimentos diretos estrangeiros que, não tenho dúvidas, vão acontecer, cada vez mais, em Portugal. É muito importante transformar as boas ideias em negócio.
Refere que Portugal se tem destacado na investigação científica ligada ao Mar, mas precisa de transformar o conhecimento em negócio. Falta uma cultura de empreendedorismo e, em simultâneo, uma maior ligação entre as empresas e as universidades?
Penso que se tem feito um grande caminho, mas é preciso ambicionar mais. Precisamente na licenciatura “Ocean” vamos ter uma disciplina optativa ligada ao empreendedorismo, para reforçar a preparação dos estudantes neste domínio. Desta licenciatura sairão pessoas com a capacidade de dialogar com os cientistas que lidam com diversas áreas. O foco será sempre em proteger, recuperar, restaurar e desenvolver as áreas de atividade económica associadas ao Mar, tendo sempre como foco a sustentabilidade.