COSCO volta a atravessar Ormuz por corredor controlado pelo Irão.

Dois navios da chinesa COSCO Shipping começaram a atravessar o Estreito de Ormuz, numa retoma parcial da navegação numa das rotas mais sensíveis do comércio marítimo mundial. As embarcações, que estavam retidas na região, iniciaram a saída do Golfo Pérsico num contexto ainda marcado por forte instabilidade e por um controlo apertado sobre a circulação naquela passagem.

A travessia está a ser feita por um corredor alternativo, situado junto à costa iraniana, entre as ilhas de Larak e Qeshm, fora do modelo habitual de navegação na zona. A utilização desta passagem confirma que o tráfego comercial continua condicionado e dependente de autorização num estreito que permanece sob forte pressão geopolítica.

Numa primeira fase, a prioridade terá passado por retirar navios vazios da área, reduzindo a exposição ao risco numa travessia que continua longe da normalidade. Mantém-se, no entanto, a incerteza sobre as condições de passagem para embarcações com carga, num momento em que a circulação marítima continua sujeita a avaliação caso a caso.

O quadro operacional é especialmente delicado porque o uso deste corredor implica contacto prévio com as autoridades iranianas e o cumprimento de exigências específicas para garantir a passagem. Isso reforça a percepção de que Teerão está a transformar o controlo territorial e militar sobre Ormuz num instrumento directo de condicionamento do tráfego marítimo.

Apesar deste sinal de retoma parcial, a situação no estreito permanece instável. Qualquer perturbação numa rota com este peso estratégico tem impacto imediato nos custos logísticos, nos prémios de seguro, na confiança dos armadores e no mercado global da energia. Em Ormuz, a questão já não é apenas saber se a passagem está aberta, mas em que condições se navega e a que preço.

Irão quer cobrar portagem aos navios que atravessem Ormuz.

O parlamento iraniano está a preparar uma proposta para cobrar uma taxa aos navios que atravessem o Estreito de Ormuz, numa altura em que Teerão procura reforçar o controlo sobre uma das passagens marítimas mais sensíveis do mundo. A iniciativa surge num contexto de forte tensão regional e volta a colocar pressão sobre uma rota decisiva para o comércio energético internacional.

Mais do que uma medida administrativa, a proposta representa uma tentativa de transformar a posição estratégica do Irão numa ferramenta directa de condicionamento do tráfego marítimo. A avançar, a passagem por Ormuz deixará de estar apenas ligada ao risco militar e político, podendo passar também a enfrentar um novo encargo financeiro imposto por Teerão.

O impacto potencial é significativo. Pelo Estreito de Ormuz passa uma fatia relevante do petróleo transportado por via marítima à escala global, bem como volumes importantes de gás natural liquefeito. Qualquer entrave adicional naquela rota, seja operacional, político ou económico, tende a reflectir-se nos custos do transporte, nos prémios de seguro, nos mercados energéticos e na confiança dos armadores.

A eventual criação desta portagem reforça a incerteza em redor de uma artéria marítima que continua a ser central para o abastecimento mundial. Para o sector, a questão deixa de ser apenas saber se Ormuz está aberto ou fechado. Passa também a ser perceber em que condições se navega, quem pode passar e a que preço. É esse novo factor de instabilidade que volta a projectar o estreito para o centro da geopolítica marítima.

Porto da Figueira da Foz retoma dragagens para recuperar acesso marítimo

O porto da Figueira da Foz retomou os trabalhos de dragagem na barra e no canal de acesso, numa operação destinada a recuperar as condições de acessibilidade marítima após um período de forte assoreamento que condicionou a entrada e saída de navios.

A intervenção decorre numa fase de melhoria do estado do mar, aproveitando uma janela de condições favoráveis que permite executar os trabalhos com maior continuidade. Esse contexto é visto como decisivo para acelerar uma operação considerada essencial para devolver maior regularidade ao funcionamento da infra-estrutura portuária. Com a ondulação a baixar, foi possível melhorar os níveis de profundidade disponíveis na barra, num passo importante para restabelecer condições mínimas de navegabilidade.

A reposição do calado operacional é, neste caso, um factor central para garantir previsibilidade nas escalas e reduzir os constrangimentos sentidos pela actividade portuária. A situação volta a evidenciar a vulnerabilidade de alguns portos ao assoreamento e à evolução das condições marítimas. Na Figueira da Foz, as dragagens assumem assim um papel determinante não apenas na manutenção da operação corrente, mas também na preservação da competitividade e da fiabilidade do acesso marítimo.

Austrália: Sindicato ataca plano de automação da DP World nos terminais de contentores.

O plano de automação que a DP World pretende avançar nos terminais de Melbourne, Sydney e Brisbane abriu uma nova frente de tensão laboral na Austrália.

O Maritime Union of Australia contesta esta estratégia e acusa a operadora portuária de avançar para um investimento de grande escala em equipamento automatizado sem respeitar, segundo o sindicato, os deveres de consulta previstos. De acordo com a informação tornada pública, a DP World prevê aplicar mais de 600 milhões de dólares australianos em equipamento automatizado para a sua rede de terminais de contentores no país. Para o sindicato, esta aposta não representa apenas uma mudança tecnológica.

Na sua leitura, poderá também traduzir-se em perda de postos de trabalho, alteração profunda de funções operacionais e até em terminais menos produtivos, mais caros e menos seguros. A questão ultrapassa, por isso, a simples modernização de infraestruturas. Nos grandes portos de contentores, sujeitos a forte pressão sobre volumes, produtividade, custos e tempos de escala, a automação é muitas vezes apresentada pelas operadoras como resposta natural às exigências do mercado.

Mas do lado laboral mantém-se a resistência, sobretudo quando os trabalhadores entendem que a transição está a ser conduzida sem diálogo suficiente e sem garantias claras sobre o impacto no emprego e na segurança operacional.O caso australiano volta assim a mostrar que a automação portuária continua longe de reunir consenso. Mais do que uma disputa sobre máquinas e eficiência, está em causa a forma como o sector pretende reorganizar o trabalho, redistribuir funções e redefinir o equilíbrio entre competitividade, custos e estabilidade social dentro dos terminais.

Dois navios indianos de GPL atravessam Ormuz.

Dois navios de GPL de bandeira indiana atravessaram em segurança o Estreito de Ormuz com cerca de 93 mil toneladas de gás, numa operação acompanhada com atenção devido à tensão que continua a marcar aquela rota estratégica.

Os navios Jag Vasant e Pine Gas seguiram em direcção à Índia, com chegada prevista entre 26 e 28 de Março. A travessia ganhou importância por ocorrer num contexto de perturbação no Golfo, com vários navios sujeitos a atrasos, desvios e maior cautela operacional. Segundo a informação avançada, ambos navegaram junto à costa iraniana, entre as ilhas de Qeshm e Larak, afastando-se da rota mais habitual próxima de Omã.

A carga conjunta ascende a 92.612 toneladas de GPL, volume equivalente a cerca de um dia de consumo de gás de cozinha na Índia. O dado ajuda a perceber a relevância desta passagem, num país que importa cerca de 60% das suas necessidades de GPL e depende fortemente do Estreito de Ormuz para assegurar o abastecimento. A mesma informação refere que, no início da crise, chegaram a ficar retidos 28 navios de bandeira indiana na região. Embora parte tenha entretanto retomado viagem, continuavam ainda embarcações dos dois lados do estreito, com cerca de 600 marítimos a bordo.

Perante este cenário, a Índia reforçou contactos diplomáticos com o Irão, acelerou operações portuárias para descarga de GPL e aumentou a produção interna de gás, ao mesmo tempo que procurou cargas alternativas noutras origens. O episódio volta a mostrar que qualquer perturbação em Ormuz tem impacto directo no abastecimento energético, nos fretes e na estabilidade das cadeias marítimas globais.

Irão diz manter Ormuz aberto, mas fecha a navios inimigos.

O Irão afirma que o Estreito de Ormuz continua aberto à navegação internacional, mas deixou claro que essa abertura não será extensiva a navios associados a países considerados inimigos.

A posição iraniana reforça a ideia de que Teerão pretende manter controlo apertado sobre uma das passagens marítimas mais sensíveis do mundo, num momento em que a tensão militar na região continua a projectar incerteza sobre o tráfego comercial e sobre o mercado energético global. A mensagem foi transmitida no quadro das discussões em torno da segurança marítima na região, com o Irão a sustentar que os navios sem ligação aos seus adversários poderão continuar a atravessar Ormuz, desde que em coordenação com as autoridades iranianas.

Na prática, o que Teerão procura passar é que o estreito não está formalmente encerrado, mas também não funciona já sob uma lógica de liberdade de navegação plena e indiscriminada. Esta distinção tem peso real no sector marítimo. Mesmo sem um fecho total declarado, a simples ameaça de restrições selectivas basta para alimentar receios entre armadores, operadores, seguradoras e mercados. Ormuz continua a ser um ponto crítico para o escoamento de petróleo e gás natural liquefeito, pelo que qualquer sinal de condicionamento, mesmo parcial, tende a ter reflexos imediatos nos custos do transporte, nos prémios de risco e na confiança do comércio internacional. Num ambiente já marcado por ameaças, ataques e sucessivos alertas de segurança, a posição iraniana acrescenta uma nova camada de pressão. Ao admitir passagem para uns e ao excluir outros, Teerão tenta transformar a circulação marítima num instrumento político e estratégico, usando a localização de Ormuz como alavanca num confronto que vai muito além da dimensão regional.

Para o transporte marítimo, o problema está menos na formulação diplomática e mais nas consequências práticas. Sempre que a travessia deixa de assentar em regras previsíveis e universais, cresce o risco de desvios, atrasos, hesitação comercial e maior volatilidade nos preços da energia. E quando isso acontece em Ormuz, o impacto não fica confinado ao Golfo, propaga-se rapidamente às cadeias logísticas, ao bunkering e ao equilíbrio do comércio mundial.

Porque é que os EUA e Trump querem a ilha de Kharg?

A ilha de Kharg tornou-se uma das peças mais sensíveis da actual tensão no Golfo Pérsico, num momento em que os Estados Unidos mantêm em aberto a possibilidade de agir sobre um ponto considerado vital para a economia iraniana.

A razão é simples: Kharg é uma infraestrutura estratégica para as exportações de crude do Irão e um eventual controlo, bloqueio ou neutralização da ilha teria impacto directo sobre a principal fonte de receitas do país. Situada a cerca de 15 milhas náuticas da costa iraniana, a ilha concentra uma parte decisiva da capacidade exportadora de petróleo do Irão. Grande parte do crude sai através do terminal ali instalado, alimentado por oleodutos vindos do continente. A proximidade a águas profundas permite ainda a operação de grandes petroleiros, reforçando o seu peso na logística energética da região.É precisamente essa importância que faz de Kharg um alvo estratégico. Atingir a ilha significaria pressionar economicamente Teerão e, ao mesmo tempo, ganhar uma alavanca adicional num momento em que o Estreito de Ormuz continua no centro das preocupações internacionais.

Num cenário de escalada, Kharg representa muito mais do que uma ilha: representa a jugular energética do Irão.Ainda assim, um ataque directo às infraestruturas petrolíferas teria consequências pesadas à escala global. Além de atingir severamente a economia iraniana, poderia provocar uma nova escalada militar e fazer disparar ainda mais os preços do petróleo, com reflexos imediatos no transporte marítimo, nos combustíveis e nas cadeias logísticas internacionais.

Kharg surge, por isso, como um ponto onde se cruzam guerra, energia e navegação. E é precisamente por isso que continua a estar no centro das atenções.

Economia Global entra numa zona cinzenta com escalada de preços.

A economia mundial entrou numa fase de elevada incerteza, marcada por uma nova escalada nos preços da energia e por sinais crescentes de perturbação nas cadeias logísticas internacionais. O agravamento da crise em torno do Irão e o condicionamento do Estreito de Ormuz estão a empurrar o mercado para um território de forte instabilidade, num momento em que o receio já não se limita ao custo dos combustíveis, mas também à possibilidade de rupturas no abastecimento.

No sector marítimo, os efeitos começam a tornar-se evidentes. O preço do fueloil de baixo teor de enxofre (VLSFO) ultrapassou os 1.000 dólares, cerca do dobro do nível anterior ao conflito, enquanto o fueloil de alto teor de enxofre (HSFO) também atingiu máximos históricos. A pressão sobre o crude está a repercutir-se directamente no bunkering, nos custos operacionais dos navios e, por arrasto, no custo do transporte marítimo global. O problema, porém, não se resume ao encarecimento do combustível. O bloqueio de facto de Ormuz está a levantar dúvidas sérias sobre a regularidade do fornecimento energético, numa passagem estratégica para o petróleo e o gás natural liquefeito. Os dados apontam já para uma quebra significativa no carregamento de navios de GNL no Qatar, sinal de que a disrupção começou a reflectir-se no mercado físico, com impacto particularmente sensível sobre os mercados asiáticos.

Neste contexto, a navegação comercial enfrenta um cenário mais caro, mais lento e mais imprevisível. A perspectiva de combustíveis mais dispendiosos poderá levar vários armadores a reduzir velocidade para conter custos, ao mesmo tempo que aumenta a probabilidade de congestionamento nos centros de abastecimento considerados mais seguros. A consequência pode ser uma nova vaga de atrasos, menor oferta efectiva de tonelagem e pressão adicional sobre as cadeias logísticas.Ao mesmo tempo, a ausência de uma solução operacional robusta para proteger o tráfego marítimo na região reforça a sensação de impasse. Embora tenham sido admitidas hipóteses de escolta naval, os sinais recolhidos pelo sector apontam para uma capacidade limitada, insuficiente para restaurar o fluxo normal de navios através de Ormuz.

Perante este quadro, a libertação de crude das reservas estratégicas surge como tentativa de amortecer o choque e ganhar tempo. Ainda assim, o sentimento dominante no mercado é o de que a economia global entrou numa verdadeira zona cinzenta, uma fase em que os preços podem continuar a subir, a oferta pode tornar-se mais desigual entre regiões e a incerteza pode pesar quase tanto como o próprio combustível.

Ormuz: Quando Portugal já dominou um dos pontos sensíveis do comércio mundial.

Muito antes de o Estreito de Ormuz se tornar sinónimo de tensão energética, ameaça à navegação e risco geopolítico global, já Portugal conhecia bem o peso estratégico daquela passagem.

No início do século XVI, os portugueses chegaram a Ormuz e perceberam rapidamente aquilo que o mundo continua a confirmar em 2026: quem controla aquele estreito toca num dos nervos centrais do comércio marítimo internacional. A presença portuguesa ganhou expressão militar com a conquista de Ormuz por Afonso de Albuquerque em 1507, consolidada depois em 1515, num esforço para afirmar influência sobre a entrada do Golfo Pérsico e sobre as rotas comerciais entre a Ásia, o Médio Oriente e a Europa. A importância de Ormuz não era apenas regional. Era, já nessa época, uma chave de circulação marítima, fiscal e militar.

Portugal percebeu isso cedo e tentou transformar essa posição em poder efectivo, inclusive com a construção da fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, símbolo da presença lusa naquela ilha estratégica. O domínio português terminaria em 1622, quando forças persas, apoiadas pelos ingleses, puseram fim a esse ciclo. Cinco séculos depois, a lógica de fundo mantém-se quase intacta. O Estreito de Ormuz continua a ser um dos mais decisivos estrangulamentos marítimos do planeta e é descrito pela U.S. Energy Information Administration como o mais importante ponto de trânsito petrolífero do mundo. Em 2024, passaram por ali cerca de 20 milhões de barris por dia, e a própria EIA sublinha que uma parte muito relevante do petróleo mundial e uma fatia significativa do comércio global de gás natural liquefeito dependem dessa passagem.

É por isso que qualquer ameaça, incidente militar, bloqueio parcial ou simples escalada verbal em Ormuz provoca imediatamente impacto nos mercados, nos fretes, nos seguros marítimos e na percepção de risco global. A actualidade confirma, assim, aquilo que a história portuguesa já tinha demonstrado há mais de 500 anos: Ormuz não é apenas um estreito. É um ponto onde geografia, poder naval e economia mundial se cruzam de forma brutal.

Aplicação de corrida expôs localização de porta-aviões francês no Mediterrâneo.

Um registo de actividade física numa aplicação de corrida acabou por expor a localização quase em tempo real do porta-aviões francês Charles de Gaulle, num caso que voltou a levantar sérias questões sobre segurança operacional no actual contexto militar.

A divulgação de dados associados a um treino efectuado a bordo terá permitido identificar a posição do navio no Mediterrâneo oriental, revelando de forma clara como o uso descuidado de ferramentas digitais pode comprometer meios militares de elevada importância estratégica. O episódio ganhou notoriedade depois de ter sido noticiado que um militar francês utilizava uma aplicação desportiva durante uma corrida realizada no próprio porta-aviões. A informação partilhada publicamente terá permitido reconstruir o trajecto e associá-lo ao convés do navio, tornando possível localizar o Charles de Gaulle com um grau de precisão que, em circunstâncias normais, deveria estar longe do alcance público. Num teatro regional sensível, onde a presença de grandes unidades navais tem peso político, militar e simbólico, uma falha deste tipo não pode ser tratada como um simples lapso individual. O caso mostra que, no actual ambiente tecnológico, a exposição de posições no mar já não depende apenas de satélites, radares ou meios clássicos de vigilância. Um relógio inteligente, um telemóvel ou uma aplicação aparentemente banal podem transformar-se em fontes involuntárias de informação sensível.

Mais do que um incidente isolado, este episódio serve de aviso para as marinhas e forças armadas em geral. A disciplina digital passou a fazer parte da própria segurança militar. Num tempo em que quase tudo pode ser registado, partilhado e cruzado com outras fontes abertas, basta um gesto rotineiro e aparentemente inofensivo para criar uma vulnerabilidade com alcance estratégico. No mar, onde a posição é poder, revelar demasiado pode ser um erro com consequências bem mais sérias do que parece à primeira vista.