Canal do Panamá recupera tráfego, mas El Niño volta a ameaçar a operação.

O Canal do Panamá entrou na segunda metade de 2026 com uma recuperação sólida do tráfego, embora o aumento do risco de um episódio severo de El Niño esteja a criar novas incertezas para a navegação internacional.

Entre Outubro de 2025 e Junho de 2026, a via interoceânica registou 10.726 trânsitos, mais 5,2% do que no período homólogo. A tonelagem cresceu 7,2%, para cerca de 390 milhões de toneladas PC/UMS, impulsionada sobretudo pelos navios porta-contentores e pelos transportadores de gás de petróleo liquefeito. A melhoria segue-se à crise hídrica de 2023 e 2024, quando os baixos níveis do lago Gatún obrigaram a reduzir passagens e calados.

As chuvas de 2025 e uma época seca de 2026 mais húmida permitiram recuperar capacidade, mas a administração do Canal admite voltar a aplicar restrições caso o cenário climático se agrave. A probabilidade de ocorrência de um El Niño severo subiu de 25% em Abril para 81% em Julho. Como medida preventiva, o calado máximo nas eclusas Neopanamax foi ajustado para 49,5 pés, cerca de 15,09 metros. Para já, a alteração deverá afectar uma pequena percentagem dos navios e não reduz o número de trânsitos diários. O Canal depende de grandes volumes de água doce para movimentar os navios através das eclusas. Essa mesma água abastece também uma parte significativa da população panamiana, o que obriga a equilibrar as necessidades da navegação com o consumo urbano.

A administração tem aplicado medidas de poupança, incluindo o aproveitamento das bacias das eclusas Neopanamax, a passagem conjunta de embarcações mais pequenas e a redução do uso de água em determinadas operações. O maior risco poderá surgir em 2027, caso os efeitos do El Niño se prolonguem. Uma nova redução das passagens afectaria sobretudo os serviços entre a Ásia e a costa leste dos Estados Unidos, bem como os tráfegos de GNL, GPL e contentores.Restrições prolongadas poderiam elevar os custos das reservas, aumentar os atrasos e incentivar desvios pelo Canal do Suez, pelo Cabo da Boa Esperança ou por corredores intermodais terrestres.

A principal resposta estrutural passa pelo projecto do reservatório do Río Indio, destinado a aumentar a capacidade de armazenamento de água e reduzir a vulnerabilidade do Canal às secas. A recuperação do tráfego mostra que a operação voltou a ganhar estabilidade. Ainda assim, a evolução do clima continuará a determinar se o crescimento poderá manter-se ou se uma das rotas mais importantes do comércio mundial voltará a enfrentar limitações.

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