
Ricardo Diniz é um navegador solitário e pode gabar-se de perseguir um sonho de criança, surgido aos oito anos.
Mal nota as primeiras rajadas de vento, Ricardo Diniz começa a puxar vários cabos e, em alguns minutos, a vela “que faz lembrar a cauda de um avião” é desembainhada à nossa frente. “Tiveram sorte, com este vento posso mostrar-vos a vela mais pequena”, diz. Para a maior, seriam precisos uns 40 minutos. É indisfarçável a ansiedade no rosto de Ricardo. A partir de hoje e durante os próximos 45 dias, a rotina deste navegador solitário será um autêntico “jogo de xadrez” entre ele, o vento e o mar, rumo a Salvador da Bahia (Brasil). O objectivo é fazer chegar à selecção portuguesa uma mensagem de apoio para que se supere durante o Campeonato do Mundo.
“Das coisas mais difíceis, é chegar à linha de partida”, confessa Ricardo Diniz, em conversa com a Revista 2, algumas semanas antes. Não é novo nestas andanças, mas antecipa o momento tal como uma criança aguarda a manhã de Natal, mesmo não sendo novidade para ele aquilo que vai encontrar. “Quando partir e passar ali à frente do Padrão dos Descobrimentos, é uma vitória brutal. A partir daí, só tenho de velejar.” Este “só” transporta mais do que aquilo que imaginamos.
A bordo do seu veleiro, Ricardo terá de assumir várias funções: “Meteorologista, navegador, costureiro, carpinteiro, enfermeiro.” Pelo meio, há ainda uma gata, sem nome, que irá ser a sua única companhia e vai exigir escovadelas periódicas.
As “saudades” de Portugal e a promoção dos produtos nacionais, a par da paixão pelo mar, são os grandes motores daquilo que foi o percurso de Ricardo Diniz. Na viagem que inicia hoje, junta tudo isso. A ideia surgiu enquanto ouvia o relato do jogo entre a selecção portuguesa e a Suécia, de apuramento para o Mundial. Os escandinavos tinham marcado e a qualificação portuguesa estava em risco. “Estava um bocadinho tenso, comecei a imaginar um país que não vai ao Mundial”, lembra. Previu quatro anos de auto-estima baixa de uma nação inteira. “Senti-me impotente, não podia fazer nada para ajudar a selecção e então disse: ‘Ganhem isto que eu até vou à vela sozinho para o Brasil.’” A partir daí, não teve dúvidas. Portugal iria conseguir vencer os suecos e ele próprio iria fazer a viagem.
Em campo, a equipa das “quinas” não desiludiu e, logo após o jogo, já Ricardo se mexia para pôr em marcha o seu plano. “Fiz uma coisa muito arriscada, que foi anunciar o que quero fazer sem ter nada ainda confirmado”, observa. Mas a confiança neste “alinhamento” — um termo crucial para o navegador que o irá usar várias vezes durante a conversa — era inabalável e Ricardo conseguiu reunir os patrocínios necessários, remodelar o veleiro e estar na melhor forma para uma façanha de grande exigência. Enquanto estiver a navegar, Ricardo tem de estar quase sempre em alerta para qualquer alteração meteorológica. Não vai dormir mais de 15 minutos de seguida, diz-nos. E todo o barco foi remodelado para as suas funções de navegador solitário. Por exemplo, o local onde vai repousar, mesmo em frente ao GPS e ao rádio, está construído para que Ricardo se deite com uma omoplata de fora, nunca ficando totalmente confortável, “senão, ia até à Índia sem acordar”.
Apesar do grande desafio em mar, “a parte em terra é monstruosa”, admite Ricardo. Entre as reuniões com patrocinadores, entrevistas e preparações de última hora, o navegador tem de apontar na sua agenda horas para comer. Mas tudo vale a pena para Ricardo voltar ao seu elemento e fazer aquilo de que gosta, a bordo da sua “embaixada flutuante de ‘portugalidade’”.
Ricardo recebe a Revista 2 no interior do FlyTap, um veleiro totalmente reconstruído que tem sido seu companheiro de aventuras nos últimos anos. Mas foi outra embarcação que o cativou para esta vida ainda em criança. Estamos no Museu Marítimo de Greenwich, em Londres, e Ricardo, de oito anos, descobre com o pai a grandiosa história naval britânica. A atracção é o navio Cutty Sark, que passou pela coroa portuguesa no início do século XX, mas é um pequeno veleiro que chama a atenção de Ricardo. Trata-se do Gipsy Moth, no qual sir Francis Chichester deu a volta ao mundo entre 1966 e 1967.
Na cabeça de Ricardo tudo se torna claro: “Decidi que queria fazer a volta ao mundo à vela sozinho.” Aos oito anos, estava longe de prever que esse sonho iria determinar quase toda a sua vida futura. “Só sabia que adorava o mar, tinha uma prancha de esferovite e estava doido para voltar a Portugal por causa da praia”, diz-nos, agora com 37 anos. A ideia nunca mais o abandonou. Aos 11 anos regressou a Portugal, depois de ter vivido seis anos em Inglaterra, onde raramente via o mar. Matou as saudades com uma juventude passada entre a doca de Alcântara, a ajudar estrangeiros que lá atracavam, e a Costa de Caparica, para vender bolos na praia. Apesar da tenra idade, muito daquilo que Ricardo é hoje já se podia vislumbrar. “Tudo o que me surgiu na vida foi assim, a identificar necessidades e ao identificar esses alinhamentos, trabalhar para eles.”
Voltou a Inglaterra, aos 17 anos, para estudar Ciência Ambiental Marítima, mas os bancos de faculdade não o seguraram. O sonho nascido no Museu Marítimo era mais forte e Ricardo acabou por abandonar o curso e prosseguir o seu projecto. “Dizer que se quer ser velejador é uma coisa esquisita”, admite. E confessa que foi difícil tomar a decisão de recusar o investimento feito na sua educação. Tirou a carta de comandante e tornou-se Yachtsman aos 19 anos. Estudou muito naqueles tempos, antes de se fazer ao mar. “Ia para oficinas de mecânica para aprender a desmontar os motores, trabalhei em velarias para aprender a manejar as velas do barco e os cabos e levava barcos de um lado para o outro para na costa Sul de Inglaterra como forma de ganhar dinheiro e aprender.”
No horizonte tinha uma meta bastante definida. Começou em 1996 a planear o início de uma volta ao mundo em veleiro, cuja partida deveria coincidir com o encerramento da Expo-98, em Lisboa. “Queria aproveitar aquele alinhamento do último dia da Expo, que era o evento cujo tema era os oceanos, no Ano Internacional dos Oceanos, e ainda os 500 anos dos Descobrimentos”, observa Ricardo. Desta vez, contudo, o tal “alinhamento” não deu frutos. “Dei o máximo, esforcei-me muito, fiz muitos contactos, falei com milhares de empresas”, recorda. Ricardo não conseguiu reunir patrocínios suficientes e viu gorado o seu projecto.
Seguiu-se um período de revolta e incompreensão. “Se não foi agora, não vai ser nunca”, era o pensamento que mais vezes atravessava a sua mente. Queria criticar tudo e todos. Logo ele, que hoje em dia não se cansa de combater a mentalidade da crítica fácil portuguesa. “Não percebia muito da vida ainda”, reconhece ao olhar para trás. Desistiu, temporariamente, de Portugal. Foi comandar barcos para as Caraíbas, juntou algum dinheiro e rumou a norte, para os Estados Unidos, um país onde “todos os sonhos são possíveis”, até aqueles que nascem aos oito anos. “Nos EUA, senti mais força, mais apoio e mais compreensão em relação aos meus sonhos do que senti em Portugal, o que me levou a perceber que estava um bocadinho a partir o gelo.” Desporto em Portugal era futebol, relembra. “Todas as modalidades reclamavam, muito em especial uma coisa que nem sequer é uma modalidade: É um gajo sozinho num barco a caminho não sei de onde para comunicar portugalidade.”
As pazes com o país foram feitas no alvor do novo milénio. “Aceitei, em 2001, que Portugal está na fase em que está em relação a outros países.” Deixou de fazer comparações, por exemplo, entre ele próprio e um velejador solitário de outro país que conseguia facilmente patrocínios multimilionários. Não desistiu de fazer a sua volta ao mundo, apenas percebeu que teria de ir por “um caminho diferente” do que planeava.
E aí entra uma mudança fundamental na relação entre Portugal e o mar, que Ricardo tem vindo a identificar. Um novo “alinhamento”. “Dezasseis anos depois da Expo-98, temos de facto um Portugal de mar, que tem noção do seu mar”, explica, notando, por exemplo, que “o termo ‘economia do mar’ já é muito comum”. Ele próprio tem contribuído para esta mudança. Uma das últimas viagens de Ricardo Diniz foi um percurso à volta da Zona Económica Exclusiva (ZEE) portuguesa, em 2012, “para mostrar que Portugal é mar”.
Antes disso, fez Lisboa-Dakar durante duas semanas em que acompanhou o rali, em 2005. Recorda que tudo foi organizado em tempo recorde e que o veleiro tinha o piloto automático avariado. Nesta viagem até ao Brasil, vai atingir a marca das cem mil milhas, o equivalente a várias voltas ao globo. Experiência não lhe falta, mas não são os números ou recordes que lhe importam. Fala da sua relação com o mar como algo de místico ou espiritual. Diz haver uma dualidade dentro de si próprio, o “Ricardo-mar e o Ricardo-terra”.
“Em terra, não tenho bem a certeza de como é que o Ricardo-mar consegue fazer o que faz”, admite. Cada vez que navega, sente um “renascer para o mar” e nota que esse Ricardo-mar fica lá. “Quando chego a terra, tudo anda rápido, as pessoas andam tensas, os carros andam a uma velocidade irreal.” É no meio dos oceanos que volta a ser um “bicho da terra”, por oposição à espécie humana, “que passa meses sem tocar no mar”, num “triste divórcio com a Natureza”. Foi o “Ricardo-mar” que o tornou conhecido, mas é em terra que passa a maior parte do seu tempo. Faz palestras em vários pontos do mundo, gere empresas e lida constantemente com muitas pessoas. Um cenário bem longínquo da tranquilidade oceânica. É um comunicador por natureza, sempre pronto a contar alguma história e a dar muitos exemplos a propósito de qualquer tema. Diz estar permanentemente à procura de oportunidades para apoiar alguém ou algum projecto em que encontre potencial. Hoje tem negócios de mel, no têxtil, no vinho e no turismo.
Lançou recentemente a Papillon, uma empresa que “já varreu mundo” para promover Portugal como “shipyard country” [país de estaleiros navais]. “Já gastámos seis dígitos em promoção mundial do nosso país”, revela. Como comandante de super-iates, Ricardo Diniz conhece muita gente nesse mundo, junto de quem está a promover as marinas portuguesas. “O impacto económico de um barco destes numa marina na costa portuguesa é brutal, são dezenas de multimilionários que chegam, vão a restaurantes, alugam carros.”
Não consegue estar parado. Talvez apenas enquanto contempla o azul infinito de um oceano. Defende que no mundo existem pastores e ovelhas. “Há as pessoas que não sabem liderar as suas próprias vidas e são empregados, precisam de trabalhar para alguém, não fazem ideia de como se cria um negócio e de como se gere.” Trata-se das ovelhas: “São excelentes empregados de mesa, são excelentes taxistas, são excelentes costureiros.”
No entanto, é sempre necessário alguém “que paga as contas, consegue os financiamentos e que trata dos clientes”, ou seja, os pastores. Não tem qualquer dúvida em posicionar-se como um “pastor”, alguém que luta pela sua ideia e não se perde em críticas. Perguntamos-lhe se Portugal é um país para pastores, ao que responde, num inglês que lhe é recorrente: “If you really want something, you really go for it” [Se queres mesmo alguma coisa, tens de te esforçar.] Diz ficar doente ao ver “pessoas que até têm uma esfera de influência grande a utilizarem o seu pindérico palco de redes sociais para criticar constantemente o Governo”. “Isso gera o pânico, a histeria colectiva, a depressão, o descrédito.”
No meio de tantos projectos, Ricardo não esquece o sonho dos oito anos, mas já não tem pressa. “Quando tiver de ser a volta ao mundo, vai ser bastante óbvio para mim que chegou o momento.” Um momento que pode estar próximo, talvez ainda nesta década, diz. De uma coisa tem a certeza: “A primeira volta ao mundo vai ter que ver com as comunidades portuguesas pelo mundo, os 5,5 milhões de portugueses que vivem fora do país, produtos portugueses, promover empresas e Portugal como um país fantástico e que precisa de investimento e pastores.”
Fonte: Público