Portugal quer «marcar agenda internacional» nos assuntos do mar

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Assunção Cristas, em conferência nos EUA, explica que o país pode fazer a diferença na forma como o mundo aborda a relação com o oceano.

A ministra da Agricultura e do Mar garantiu em Washington, nos Estados Unidos, que «Portugal tem a ambição de marcar a agenda» nos assuntos do mar.

«Portugal é um país oceânico e acreditamos que podemos fazer a diferença na forma como o mundo aborda a sua relação com o oceano», explicou Assunção Cristas à agência Lusa na terça-feira à noite em Washington (quarta-feira de madrugada em Lisboa).

Assunção Cristas esteve nos Estados Unidos para participar na conferência «Our Ocean», organizada pela secretaria de Estado norte-americana em Washington, em que participaram também o presidente dos EUA, Barack Obama, e o ator Leonardo DiCaprio.

Assunção Cristas participou, terça-feira, num painel dedicado ao tema «Abordagem integrada à Pesca e Segurança Alimentar».

A ministra explicou que fez «um balanço da situação de Portugal, nomeadamente em relação às mudanças dos últimos anos, como a redução da frota pesqueira e as questões relacionadas com as zonas económicas exclusivas».

Num segundo momento, Assunção Cristas aproveitou para explicar «as oportunidades que existem hoje no país neste domínio [do mar], como na área da piscicultura, biotecnologia e energia».

No discurso, a ministra disse que «chegou o momento de trazer o mar de regresso ao coração da Europa e voltar a Europa para o mar».

«Sinto que Portugal tem um papel crucial. Portugal tem sido um membro relevante na construção da Estratégia Europeia para a Área do Atlântico e o seu plano de ação, que foi apresentado em Lisboa em 2011 e 2013», explicou.

A governante portuguesa lembrou ainda que, «no século XVI, Portugal tinha o conhecimento e a inovação que levou os nossos navegadores a descobrir o mundo. Hoje, com pesquisa e inovação, estamos de volta ao negócio dos oceanos».

A ministra aproveitou ainda para promover a Conferência Biomarinha, que acontece em outubro, e a «international Blue Week», em junho de 2015, em Lisboa.

«Acreditamos que os nossos objetivos globais para os oceanos precisam de uma aliança permanente entre economia, ambiente e liderança política», concluiu Assunção Cristas.

Durante a visita aos EUA, a ministra reuniu com o secretário de Estado John Kerry, que se mostrou «muito entusiasmado e disponível para colaborar com Portugal nestas matérias».

Fonte: TVI24

 

Mar Algarve Expo chega a Portimão em Outubro

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Foi apresentado a semana passada no Fórum do Mar que decorreu na Exponor e que contou com mais de duas centenas de profissionais ligados ao cluster do Mar, o Evento Mar Algarve Expo que se irá realizar entre os dias 9 e 11 de Outubro no Portimão Arena.

O evento Mar Algarve Expo é uma iniciativa da Maralgarve – Associação para a Dinamização do Conhecimento e da Economia do Mar no Algarve, e organizado pela L PRO, empresa sediada em Lagoa e especializada na organização de grandes eventos. O Evento conta desde já com o apoio da Universidade do Algarve e das principais entidades regionais e tem como parceiro, a Oceano XXI, associação dedicada ao cluster do mar a nível nacional.

A Mar Algarve Expo pretende posicionar-se como um evento de referência na região do Algarve e está a ser organizado numa vertente sobretudo promocional dos recursos e potencialidades económicas e empresariais da região Algarvia, no domínio do conhecimento e da economia do mar, enquanto espaço de apresentação e comercialização dos mais diversos produtos e serviços, quer de interesse vincadamente profissional, como também para os mais variados públicos, nacionais e estrangeiros. 

O evento pretende abranger todos os sectores do conhecimento e da economia do Mar, designadamente centros de investigação, associações e clubes, aquacultura, náutica de recreio, pesca e pesca desportiva, indústria conserveira, cruzeiros, marinas e portos, actividades marítimo-turísticas e de animação, mergulho, estaleiros e construção e reparação naval, energia e salicultura, entre outros, e contará com uma área de exposição, com espaço gastronómico, espaço para apresentações de projectos, seminários e espaços de lazer. Pretende ainda criar uma bolsa de negócios, para encontros empresariais entre empresas Algarvias e outras empresas nacionais e internacionais.

Neste momento decorrem os contactos com expositores, estando já garantida a presença de algumas empresas de referência deste sector ligado ao Mar como por exemplo a Docapesca, a Companhia de Pescarias do Algarve e a Subnauta.

Fonte: AlgarveNoticias.com

Neto de Cousteau tenta bater recorde no fundo do mar

Neto do lendário oceanógrafo Jacques Cousteau, o francês Fabien Cousteau iniciou nesta semana uma nova missão com objectivo de quebrar o recorde de seu avô – que em 1963 passou trinta dias submerso, numa estação no Mar Vermelho.
O objectivo de Fabien agora é ficar 31 dias na estação Aquarius, a cerca de 20 metros de profundidade, distante 14,5 Km da costa da Flórida, nos Estados Unidos.
A experiência – que será registada num documentário – servirá para estudar os efeitos no corpo humano da temporada prolongada sob a água.
Além disso, a equipa de investigadores que participa da expedição vai analisar os impactos da poluição e das mudanças climáticas nos corais.
A base conta com ligação de internet e estará constantemente ligada ao mundo exterior e às redes sociais. É possível acompanhar ao vivo a rotina da equipe no site
Clique http://mission-31.com/watch-live/.

Assunção Cristas quer estrangeiros no mar português

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A ministra da Agricultura e Mar, Assunção Cristas, quer captar investimento estrangeiro para a aquacultura e exploração submarina de minerais e vai promover um roteiro internacional que começa hoje na Noruega.

«Começamos pela Noruega porque é uma referência mundial em termos da economia do mar. Depois seguir-se-à o Japão e a Coreia do Sul. Vamos reunir com investidores e ir ao encontro das empresas que trabalham na área do mar», explicou a ministra à agência Lusa.

Assunção Cristas vai encontrar-se, entre outros, com responsáveis da multinacional norueguesa Marine Harvest, «talvez a maior referência da aquacultura a nível mundial», e espera convencê-los a «desenvolver o potencial na economia do mar».

Na Noruega, a aquacultura é fundamentalmente de salmão e de truta, mas a ministra que tutela a pasta do Mar acredita que as empresas norueguesas também estão interessadas em diversificar as espécies com que trabalham e deu como exemplo a corvina.

Segundo Assunção Cristas, o Instituto Português do Mar e Atmosfera (IPMA) está a desenvolver um projecto de aquacultura de corvina que «pode passar para uma fase comercial» e serão necessárias empresas, nacionais ou estrangeiras, para desenvolver esse projecto.

«A corvina é conhecida como o salmão do Sul, naturalmente que faz sentido irmos ao encontro de uma grande empresa que faz salmão do Norte e perguntar-lhes se não estarão interessados em vir para o nosso pais, seja fazer bivalves, seja fazer corvina ou outras espécies de peixe», salientou.

Para atrair os investidores, a ministra leva na pasta o que considera ser um enquadramento legislativo «amigo do investidor», incluindo uma nova Lei de Bases do Ordenamento do Espaço Marítimo, cuja legislação complementar está a ser finalizada, e um concurso internacional para a exploração de 72 áreas de aquacultura “offshore” (em mar aberto), entre o Algarve e Aveiro, que deverá ser lançado em meados de Junho.

As áreas estão pré-licenciadas para aquacultura “offshore” de bivalves, mas podem ser posteriormente licenciadas para outras culturas, seja de algas seja de peixes, adiantou, garantindo que já houve «sinalização de interesse» por parte de empresas nacionais e estrangeiras.

Assunção Cristas reforçou que a preocupação é assegurar a sustentabilidade.

«Por isso, começamos com aquacultura “offshore”, 100% biológica», disse, não afastando a hipótese de avançar para outros sistemas no futuro.

Após a Noruega, Assunção Cristas vai deslocar-se à Coreia do Sul, ao Japão, aos Estados Unidos e ao Canadá, com o objectivo de apresentar aos investidores, não só oportunidades no domínio da aquacultura, mas também a nível dos recursos minerais do oceano, sendo acompanhada nas visitas por um especialista em geologia do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC).

Fonte: TVI24

 

Mar profundo da Europa está cheio de lixo humano

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Garrafas, sacos de plástico e redes de pesca foram alguns dos tipos de lixo humano encontrados no mar profundo da Europa, segundo um estudo que destaca a necessidade de acções para impedir o aumento do lixo nos ambientes marinhos.

“O lixo foi encontrado ao longo de todo o Mediterrâneo e costas da Europa, estendendo-se até à crista dorsal mesoatlântica, a 2.000 quilómetros de terra”, lê-se no recente trabalho de investigação a que a Lusa teve acesso, que envolveu 15 organizações de toda a Europa e foi liderado pelo centro IMAR da Universidade dos Açores, sediado no Departamento de Oceanografia e Pescas.

“A grande quantidade de lixo que chega ao mar profundo é um assunto de importância mundial. Os resultados do estudo destacam a extensão do problema e a necessidade de acções para prevenir a crescente acumulação de lixo nos ambientes marinhos”, sublinham os investigadores.

De acordo com o estudo, que beneficiou de uma colaboração entre dois projectos de investigação – o projecto HERMIONE, financiado pela União Europeia e coordenado pelo Centro Nacional de Oceanografia em Southampton, e o projeto “Mapping the Deep”, liderado pela Universidade de Plymouth -, “o lixo é um problema no ambiente marinho ao ser confundido com alimento por alguns animais, podendo enlear corais e peixes — um processo conhecido como ‘pesca fantasma'”.

Cerca de 600 amostras foram recolhidas pelos cientistas ao longo do oceano Árctico e do oceano Atlântico, incluindo o mar Mediterrâneo, entre os 35 e os 4.500 metros de profundidade, indica o relatório.

“Concluímos que o plástico foi o item de lixo mais comum no fundo marinho, enquanto o lixo associado às actividades da pesca (redes e linhas presas no fundo) são particularmente comuns em montes submarinos, bancos e cristas oceânicas”, precisou Christopher Pham, investigador da Universidade dos Açores.

“Esta pesquisa demonstrou que o lixo humano está presente em todos os habitats marinhos, das praias às zonas mais profundas e remotas dos oceanos”, observou.

“A maior parte do mar profundo continua inexplorada pelos humanos e esta é a nossa primeira visita a muitos destes locais, pelo que ficámos chocados ao descobrir que o lixo chegara lá primeiro que nós”, acrescentou o cientista.

Segundo o estudo, foi encontrado lixo “em praticamente todos os locais investigados, com o plástico a contribuir globalmente com cerca de 41 por cento e aparelhos de pesca abandonados com cerca de 34 por cento do total”, tendo também sido descoberto “vidro, metal, madeira, papel/cartão, roupa, cerâmica e outros materiais não identificados”.

Uma das descobertas mais interessantes, de acordo com a investigadora Kerry Howell, professora associada no Instituto Marinho da Universidade de Plymouth, foi “terem-se encontrado depósitos de carvão queimado no fundo marinho, largados no mar por navios a vapor desde o final do século XVIII”.

“Já se conheciam alguns depósitos no leito marinho, mas conseguimos perceber que a sua acumulação está associada às rotas marítimas modernas, o que indica que os principais corredores de navegação não foram alterados nos últimos dois séculos”, frisou.

O cientista Christopher Pham sublinhou que “no geral, as acumulações mais densas [de lixo] foram encontradas nos desfiladeiros submarinos profundos” e a investigadora Veerle Huvenne, do Centro do Oceanografia de Southampton, explica que “os desfiladeiros submarinos formam a principal ligação entre as águas costeiras e o mar profundo” e que “os desfiladeiros localizados perto de grandes cidades costeiras, como o desfiladeiro de Lisboa ou o de Blanes, em Barcelona, podem transportar o lixo marinho até profundidades superiores a 4.500 metros”.

O artigo científico, intitulado “Marine litter distribution and density in European Seas, from the shelves to deep basins”, está publicado no jornal de acesso livre PLOS ONE (http://dx.plos.org/10.1371/journal.pone.0095839).

Fonte: Lusa/SOL

Por um Portugal de Mar

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Ricardo Diniz é um navegador solitário e pode gabar-se de perseguir um sonho de criança, surgido aos oito anos.

Mal nota as primeiras rajadas de vento, Ricardo Diniz começa a puxar vários cabos e, em alguns minutos, a vela “que faz lembrar a cauda de um avião” é desembainhada à nossa frente. “Tiveram sorte, com este vento posso mostrar-vos a vela mais pequena”, diz. Para a maior, seriam precisos uns 40 minutos. É indisfarçável a ansiedade no rosto de Ricardo. A partir de hoje e durante os próximos 45 dias, a rotina deste navegador solitário será um autêntico “jogo de xadrez” entre ele, o vento e o mar, rumo a Salvador da Bahia (Brasil). O objectivo é fazer chegar à selecção portuguesa uma mensagem de apoio para que se supere durante o Campeonato do Mundo.

“Das coisas mais difíceis, é chegar à linha de partida”, confessa Ricardo Diniz, em conversa com a Revista 2, algumas semanas antes. Não é novo nestas andanças, mas antecipa o momento tal como uma criança aguarda a manhã de Natal, mesmo não sendo novidade para ele aquilo que vai encontrar. “Quando partir e passar ali à frente do Padrão dos Descobrimentos, é uma vitória brutal. A partir daí, só tenho de velejar.” Este “só” transporta mais do que aquilo que imaginamos. 

A bordo do seu veleiro, Ricardo terá de assumir várias funções: “Meteorologista, navegador, costureiro, carpinteiro, enfermeiro.” Pelo meio, há ainda uma gata, sem nome, que irá ser a sua única companhia e vai exigir escovadelas periódicas.

As “saudades” de Portugal e a promoção dos produtos nacionais, a par da paixão pelo mar, são os grandes motores daquilo que foi o percurso de Ricardo Diniz. Na viagem que inicia hoje, junta tudo isso. A ideia surgiu enquanto ouvia o relato do jogo entre a selecção portuguesa e a Suécia, de apuramento para o Mundial. Os escandinavos tinham marcado e a qualificação portuguesa estava em risco. “Estava um bocadinho tenso, comecei a imaginar um país que não vai ao Mundial”, lembra. Previu quatro anos de auto-estima baixa de uma nação inteira. “Senti-me impotente, não podia fazer nada para ajudar a selecção e então disse: ‘Ganhem isto que eu até vou à vela sozinho para o Brasil.’” A partir daí, não teve dúvidas. Portugal iria conseguir vencer os suecos e ele próprio iria fazer a viagem. 

Em campo, a equipa das “quinas” não desiludiu e, logo após o jogo, já Ricardo se mexia para pôr em marcha o seu plano. “Fiz uma coisa muito arriscada, que foi anunciar o que quero fazer sem ter nada ainda confirmado”, observa. Mas a confiança neste “alinhamento” — um termo crucial para o navegador que o irá usar várias vezes durante a conversa — era inabalável e Ricardo conseguiu reunir os patrocínios necessários, remodelar o veleiro e estar na melhor forma para uma façanha de grande exigência. Enquanto estiver a navegar, Ricardo tem de estar quase sempre em alerta para qualquer alteração meteorológica. Não vai dormir mais de 15 minutos de seguida, diz-nos. E todo o barco foi remodelado para as suas funções de navegador solitário. Por exemplo, o local onde vai repousar, mesmo em frente ao GPS e ao rádio, está construído para que Ricardo se deite com uma omoplata de fora, nunca ficando totalmente confortável, “senão, ia até à Índia sem acordar”.

Apesar do grande desafio em mar, “a parte em terra é monstruosa”, admite Ricardo. Entre as reuniões com patrocinadores, entrevistas e preparações de última hora, o navegador tem de apontar na sua agenda horas para comer. Mas tudo vale a pena para Ricardo voltar ao seu elemento e fazer aquilo de que gosta, a bordo da sua “embaixada flutuante de ‘portugalidade’”.

Ricardo recebe a Revista 2 no interior do FlyTap, um veleiro totalmente reconstruído que tem sido seu companheiro de aventuras nos últimos anos. Mas foi outra embarcação que o cativou para esta vida ainda em criança. Estamos no Museu Marítimo de Greenwich, em Londres, e Ricardo, de oito anos, descobre com o pai a grandiosa história naval britânica. A atracção é o navio Cutty Sark, que passou pela coroa portuguesa no início do século XX, mas é um pequeno veleiro que chama a atenção de Ricardo. Trata-se do Gipsy Moth, no qual sir Francis Chichester deu a volta ao mundo entre 1966 e 1967.

Na cabeça de Ricardo tudo se torna claro: “Decidi que queria fazer a volta ao mundo à vela sozinho.” Aos oito anos, estava longe de prever que esse sonho iria determinar quase toda a sua vida futura. “Só sabia que adorava o mar, tinha uma prancha de esferovite e estava doido para voltar a Portugal por causa da praia”, diz-nos, agora com 37 anos. A ideia nunca mais o abandonou. Aos 11 anos regressou a Portugal, depois de ter vivido seis anos em Inglaterra, onde raramente via o mar. Matou as saudades com uma juventude passada entre a doca de Alcântara, a ajudar estrangeiros que lá atracavam, e a Costa de Caparica, para vender bolos na praia. Apesar da tenra idade, muito daquilo que Ricardo é hoje já se podia vislumbrar. “Tudo o que me surgiu na vida foi assim, a identificar necessidades e ao identificar esses alinhamentos, trabalhar para eles.” 

Voltou a Inglaterra, aos 17 anos, para estudar Ciência Ambiental Marítima, mas os bancos de faculdade não o seguraram. O sonho nascido no Museu Marítimo era mais forte e Ricardo acabou por abandonar o curso e prosseguir o seu projecto. “Dizer que se quer ser velejador é uma coisa esquisita”, admite. E confessa que foi difícil tomar a decisão de recusar o investimento feito na sua educação. Tirou a carta de comandante e tornou-se Yachtsman aos 19 anos. Estudou muito naqueles tempos, antes de se fazer ao mar. “Ia para oficinas de mecânica para aprender a desmontar os motores, trabalhei em velarias para aprender a manejar as velas do barco e os cabos e levava barcos de um lado para o outro para na costa Sul de Inglaterra como forma de ganhar dinheiro e aprender.”

No horizonte tinha uma meta bastante definida. Começou em 1996 a planear o início de uma volta ao mundo em veleiro, cuja partida deveria coincidir com o encerramento da Expo-98, em Lisboa. “Queria aproveitar aquele alinhamento do último dia da Expo, que era o evento cujo tema era os oceanos, no Ano Internacional dos Oceanos, e ainda os 500 anos dos Descobrimentos”, observa Ricardo. Desta vez, contudo, o tal “alinhamento” não deu frutos. “Dei o máximo, esforcei-me muito, fiz muitos contactos, falei com milhares de empresas”, recorda. Ricardo não conseguiu reunir patrocínios suficientes e viu gorado o seu projecto. 

Seguiu-se um período de revolta e incompreensão. “Se não foi agora, não vai ser nunca”, era o pensamento que mais vezes atravessava a sua mente. Queria criticar tudo e todos. Logo ele, que hoje em dia não se cansa  de combater a mentalidade da crítica fácil portuguesa. “Não percebia muito da vida ainda”, reconhece ao olhar para trás. Desistiu, temporariamente, de Portugal. Foi comandar barcos para as Caraíbas, juntou algum dinheiro e rumou a norte, para os Estados Unidos, um país onde “todos os sonhos são possíveis”, até aqueles que nascem aos oito anos. “Nos EUA, senti mais força, mais apoio e mais compreensão em relação aos meus sonhos do que senti em Portugal, o que me levou a perceber que estava um bocadinho a partir o gelo.” Desporto em Portugal era futebol, relembra. “Todas as modalidades reclamavam, muito em especial uma coisa que nem sequer é uma modalidade: É um gajo sozinho num barco a caminho não sei de onde para comunicar portugalidade.”

As pazes com o país foram feitas no alvor do novo milénio. “Aceitei, em 2001, que Portugal está na fase em que está em relação a outros países.” Deixou de fazer comparações, por exemplo, entre ele próprio e um velejador solitário de outro país que conseguia facilmente patrocínios multimilionários. Não desistiu de fazer a sua volta ao mundo, apenas percebeu que teria de ir por “um caminho diferente” do que planeava.

E aí entra uma mudança fundamental na relação entre Portugal e o mar, que Ricardo tem vindo a identificar. Um novo “alinhamento”. “Dezasseis anos depois da Expo-98, temos de facto um Portugal de mar, que tem noção do seu mar”, explica, notando, por exemplo, que “o termo ‘economia do mar’ já é muito comum”. Ele próprio tem contribuído para esta mudança. Uma das últimas viagens de Ricardo Diniz foi um percurso à volta da Zona Económica Exclusiva (ZEE) portuguesa, em 2012, “para mostrar que Portugal é mar”. 

Antes disso, fez Lisboa-Dakar durante duas semanas em que acompanhou o rali, em 2005. Recorda que tudo foi organizado em tempo recorde e que o veleiro tinha o piloto automático avariado. Nesta viagem até ao Brasil, vai atingir a marca das cem mil milhas, o equivalente a várias voltas ao globo. Experiência não lhe falta, mas não são os números ou recordes que lhe importam. Fala da sua relação com o mar como algo de místico ou espiritual. Diz haver uma dualidade dentro de si próprio, o “Ricardo-mar e o Ricardo-terra”.

“Em terra, não tenho bem a certeza de como é que o Ricardo-mar consegue fazer o que faz”, admite. Cada vez que navega, sente um “renascer para o mar” e nota que esse Ricardo-mar fica lá. “Quando chego a terra, tudo anda rápido, as pessoas andam tensas, os carros andam a uma velocidade irreal.” É no meio dos oceanos que volta a ser um “bicho da terra”, por oposição à espécie humana, “que passa meses sem tocar no mar”, num “triste divórcio com a Natureza”. Foi o “Ricardo-mar” que o tornou conhecido, mas é em terra que passa a maior parte do seu tempo. Faz palestras em vários pontos do mundo, gere empresas e lida constantemente com muitas pessoas. Um cenário bem longínquo da tranquilidade oceânica. É um comunicador por natureza, sempre pronto a contar alguma história e a dar muitos exemplos a propósito de qualquer tema. Diz estar permanentemente à procura de oportunidades para apoiar alguém ou algum projecto em que encontre potencial. Hoje tem negócios de mel, no têxtil, no vinho e no turismo.

Lançou recentemente a Papillon, uma empresa que “já varreu mundo” para promover Portugal como “shipyard country” [país de estaleiros navais]. “Já gastámos seis dígitos em promoção mundial do nosso país”, revela. Como comandante de super-iates, Ricardo Diniz conhece muita gente nesse mundo, junto de quem está a promover as marinas portuguesas. “O impacto económico de um barco destes numa marina na costa portuguesa é brutal, são dezenas de multimilionários que chegam, vão a restaurantes, alugam carros.”

Não consegue estar parado. Talvez apenas enquanto contempla o azul infinito de um oceano. Defende que no mundo existem pastores e ovelhas. “Há as pessoas que não sabem liderar as suas próprias vidas e são empregados, precisam de trabalhar para alguém, não fazem ideia de como se cria um negócio e de como se gere.” Trata-se das ovelhas: “São excelentes empregados de mesa, são excelentes taxistas, são excelentes costureiros.”

No entanto, é sempre necessário alguém “que paga as contas, consegue os financiamentos e que trata dos clientes”, ou seja, os pastores. Não tem qualquer dúvida em posicionar-se como um “pastor”, alguém que luta pela sua ideia e não se perde em críticas. Perguntamos-lhe se Portugal é um país para pastores, ao que responde, num inglês que lhe é recorrente: “If you really want something, you really go for it” [Se queres mesmo alguma coisa, tens de te esforçar.] Diz ficar doente ao ver “pessoas que até têm uma esfera de influência grande a utilizarem o seu pindérico palco de redes sociais para criticar constantemente o Governo”. “Isso gera o pânico, a histeria colectiva, a depressão, o descrédito.” 

No meio de tantos projectos, Ricardo não esquece o sonho dos oito anos, mas já não tem pressa. “Quando tiver de ser a volta ao mundo, vai ser bastante óbvio para mim que chegou o momento.” Um momento que pode estar próximo, talvez ainda nesta década, diz. De uma coisa tem a certeza: “A primeira volta ao mundo vai ter que ver com as comunidades portuguesas pelo mundo, os 5,5 milhões de portugueses que vivem fora do país, produtos portugueses, promover empresas e Portugal como um país fantástico e que precisa de investimento e pastores.”

Fonte: Público

 

O hábito que o Mar criou

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Ali ao fundo da Rua da Praia, nas Caxinas, um mar de calma brilha ao sol das três da tarde. À soleira da porta, vizinhos juntam-se para a saudável coscuvilhice sobre as peripécias da terra. Misturam-se os que caminham debaixo do calor ameno de um Domingo de Páscoa e os que todos os dias matam as horas lançando cartas à mesa ou combinando dominós. Misturam-se os que ainda se fazem ao mar para trazer sustento e os que já deixaram a faina, preenchendo conversas intermináveis das memórias das aventuras do mar. Histórias de coragem e de sorte.

Quantos daqueles homens de expressão enrugada e falar engraçado tiveram a vida por um fio? São eles a voz da experiência. São eles que, numa fracção de segundos, tantas vezes foram surpreendidos mas escaparam para contar a história. Outros não tiveram essa sorte.

Mas aqui toda a gente se conhece, e quando uma tragédia se abate sobre as Caxinas, a vila torna-se uma imensa família, solidária na dor e na memória de tantas outras histórias passadas sem final feliz. A igreja do Senhor dos Navegantes, ali mesmo à vista do mar, é sempre pequena demais para tanta gente. Se aquelas paredes falassem, contariam episódios de fervor religioso, de um entusiasmo tão próprio das gentes daquela terra, a contrastar com a impotência, o choque, o pranto imenso daqueles que, de um momento para o outro, vêm os seus partir.

O naufrágio do Mar Nosso, na passada quinta-feira ao largo das Astúrias, trouxe de volta essa tristeza às ruas das casas baixinhas. É a sina de uma vida onde a escolha é pôr a vida em perigo para ganhar o pão ou não ter o que comer à mesa. É a vida de quem sabe que parte, mas nunca sabe se regressa.

À porta da capela mortuária, no centro paroquial das Caxinas, há tantos homens e mulheres que se cobrem de negro da cabeça aos pés. Há tanta gente que enxuga as lágrimas, tentando – uma vez mais – encontrar explicação para mais um acidente que tira a vida aos filhos da terra, que priva os pais dos filhos, que rouba os maridos às mulheres. Que engrossa a lista dos que no mar procuravam sustento e no mar perderam a vida. E já são perto de uma centena. Pelo menos desde que o padre Domingos Araújo é pároco das Caxinas, há quase 40 anos.

O dicionário da língua portuguesa diz que o hábito é um “comportamento que determinada pessoa aprende e repete frequentemente, sem pensar como deve executá-lo”.

Infelizmente para esta gente, as mortes no mar tornaram-se uma constante. Toda a gente gostaria que cada perda fosse sempre a última. Por outro lado, ninguém duvida que, mais cedo ou mais tarde, a freguesia voltará a juntar-se em mais uma onda de comoção que, apesar de tudo, não põe em causa a fé desta comunidade.

Este ano, a Páscoa foi diferente para os caxineiros. A experiência da morte e a crença numa vida que se prolonga para lá da existência terrena é um desafio para quem fica e terá de se habituar a viver o resto da vida na ausência física dos seus mais próximos.

E os crucifixos dourados que sobressaem do traje negro não são meros amuletos. São a certeza daquilo em que sentem necessidade de acreditar para enfrentar os perigos e as dificuldades do dia-a-dia.

Os caxineiros orgulham-se de ser a maior comunidade piscatória do país. Gostam de dizer que o mar é deles. Mas, quantas vezes, o mar não quer nada com eles.

Fonte: RR

Troncos de árvores atirados para o fundo do mar ganham vida a 3200 metros de profundidade

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A 3200 metros de profundidade, no fundo do oceano, a escuridão é total. Não há luz do Sol para ocorrer fotossíntese, por isso não há fitoplâncton ou algas, a base das cadeias alimentares que existem à superfície. Ainda assim, nestes desertos inóspitos há oásis. As fontes hidrotermais são um desses oásis, que lançam do interior da Terra um sortido de minerais que alimenta microrganismos e atraem crustáceos e moluscos. Outro oásis são os peixes ou baleias que vão morrendo e se afundam e cuja carne e ossos permitem o aparecimento de ecossistemas transitórios.

Mas há ainda um festim nutricional inesperado: a madeira. Todos os anos, os rios levam milhões de toneladas de madeira das florestas para os oceanos. Ao encher de água salgada, a madeira afunda-se. E o que acontece de seguida a esta matéria vegetal e que comunidade de animais alberga ainda não está completamente compreendido.

Por isso, em 2006, dois investigadores norte-americanos atiraram 36 troncos de acácias para o oceano Pacífico, a 3200 metros de profundidade. Cinco anos depois, foram buscar metade dos troncos e analisaram os animais que tinham colonizado a madeira. O que aconteceu aos troncos variou muito. Houve alguns que se mantiveram intocados, mas os troncos maiores tinham, em média, comunidades mais complexas de seres vivos, revela um artigo publicado na revista Biology Letters.

Na introdução do artigo, há uma referência ao tufão Morakot, que assolou o Leste asiático em Agosto de 2009. Na altura, um milhão de chineses foi obrigado a deslocar-se das suas casas. O tufão acabou por matar centenas de pessoas e fez estragos na ordem dos milhares de milhões de euros. Um efeito colateral foram as árvores arrancadas pelos ventos e que foram parar ao mar.

“Um total de 8,4 milhões de toneladas de detritos de madeira foram transportados para a costa oceânica asiática”, lê-se no artigo assinado por Craig McClain, do Centro Nacional de Síntese Evolutiva, em Durham, na Carolina do Norte, e James Barry, do Instituto de Investigação do Aquário da Baía de Monterey, na Califórnia. Uma quantidade de madeira equivalente ao peso de 23.900 aviões Boeing 747.

As espécies vegetais com porte arbóreo apareceram na Terra há quase 400 milhões de anos, por isso há uma longa história de madeira a afundar-se nos oceanos. Ao longo desse tempo, alguns moluscos acabaram por se adaptar e fizeram desta madeira a sua refeição.

No fundo do Pacífico, quem coloniza primeiro a madeira é o molusco bivalveXylophaga zierenbergi. Tem uma concha na zona da cabeça, o resto do corpo é tubular e sem carapaça. Na região da concha, tem dentes serrilhados capazes de roer a madeira, produzindo buracos onde depois se esconde. Tal como as térmitas, o Xylophaga zierenbergi tem uma relação simbiótica com bactérias que o ajudam a digerir a celulose da madeira.

É esta actividade, no fundo do mar, que disponibiliza a matéria orgânica a uma comunidade de seres. Ao roer a madeira e ao alimentar-se dela, o Xylophaga zierenbergi lança lascas de madeira e dejectos para o chão marinho, que são utilizados por bactérias que degradam esta matéria e produzem enxofre. Em seguida, o enxofre é usado por microrganismos que produzem energia e matéria orgânica, tal como fazem as plantas com a luz solar. Esses microrganismos são quimiossintéticos.

As bactérias servem ainda de alimento para os gastrópodes, que por sua vez atraem predadores e necrófagos. E depois de morrer, os buracos que oXylophaga zierenbergi faz na madeira tornam-se um habitat protegido para outras espécies.

Xylophaga zierenbergi é um “criador de ecossistemas”, diz Craig McClain. “Como as ostras, os castores e as térmitas, estes [bivalves] alteram a paisagem e proporcionam um novo habitat para outras espécies”, compara o investigador, citado num comunicado do Instituto de Investigação do Aquário da Baía de Monterey. “Sem estes bivalves, a energia do carbono que existe na madeira não ficaria disponível para outras espécies.”

Segundo os autores do artigo, muitos estudos sobre estas comunidades centravam-se na descrição das espécies que as compunham, ou na forma como a matéria orgânica acabava por estar disponível para os microrganismos que fazem a quimiossíntese. Mas pouco se sabe como a comunidade é construída.

 
Seis vacas ao largo de Portugal

“Não se conhecem as diferentes proporções das espécies ou a forma como os indivíduos estão distribuídos”, explica por sua vez ao PÚBLICO Luciana Génio, que trabalha no grupo de Ecologia Marinha e Estuarina do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (Cesam) da Universidade de Aveiro. A investigadora esteve envolvida no projecto europeu Chemeco, que analisou o aparecimento de comunidades marinhas a diferentes profundidades a partir de madeira, da erva alfalfa (também conhecida por luzerna) e de um substrato inorgânico de carbonato. “Diferentes tipos de madeira vão influenciar a diversidade da comunidade”, resume a cientista portuguesa.

Fonte: Público

Projecto de transformação de algas vence Concurso para a Economia do Mar

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O projeto vencedor, denominado LUSALGAE, é promovido por Joana Valente, Loic de Carvalho e Tiago Morais, biólogos oriundos de Coimbra e Leiria, e aposta na extracção e transformação de macro-algas para produção de produtos cosméticos 100 por cento naturais

A criação de uma empresa de extracção e transformação de algas da ilha da Morraceira, Figueira da Foz, venceu hoje o Concurso de Ideias de Negócio para a Economia do Mar promovido pela autarquia local.

O projecto vencedor, denominado LUSALGAE, é promovido por Joana Valente, Loic de Carvalho e Tiago Morais, biólogos oriundos de Coimbra e Leiria, e aposta na extracção e transformação de macro-algas para produção de produtos cosméticos 100 por cento naturais.

Os promotores, premiados com 2.500 euros no concurso organizado pela autarquia da Figueira da Foz e Instituto Politécnico de Coimbra, poderão receber mais 2.500 euros caso a empresa venha a ser criada no concelho até finais de 2014.

Na cerimónia de anúncio do vencedor, hoje realizada no Centro de Artes e Espectáculos, o presidente da Câmara da Figueira da Foz, João Ataíde, frisou que o concurso pretendeu “criar grandes incentivos à criatividade”.

Já sobre a área de negócio escolhida pelos vencedores, o autarca considerou que “ainda há muito para fazer no domínio da aquacultura”.

O Concurso de Ideias de Negócio para a Economia do Mar lançou como desafio a apresentação de uma ideia de negócio original relacionada com o sector, com aplicabilidade no município da Figueira da Foz, tendo sido submetidos à análise do júri mais de três dezenas de projectos.

Fonte: Ionline