"Enquanto não nos reencontrarmos com o mar ,não vamos dar certo"

Numa época em que o mar aparece como uma tábua de salvação para o naufrágio da economia portuguesa, e com um Roteiro do Mar desenhado pelo Governo, uma voz tem afirmado, há mais de dez anos, quase em solilóquio, a importância do grande azul: Tiago Pitta e Cunha. Jurista de formação, é especialista em políticas do oceano e assuntos marítimos, tendo sido representante de Portugal à Assembleia Geral da Convenção do Direito do Mar das Nações Unidas. E não tem dúvidas: só nos podemos afogar economicamente se ficarmos em terra 
A crise pode ser irremediável para a continuidade de projectos de investigação pública de recursos marinhos?
Acho que não, tem sido ao contrário. Talvez as pessoas que não estejam a seguir a economia do mar sector a sector, mês a mês, não tenham essa percepção. Mas a crise tem ajudado alguns sectores a desenvolverem-se, contra a corrente da economia nacional. Isso é curioso.
Quais?
Os portos, por exemplo, por causa do aumento das exportações nacionais. Leixões tem beneficiado muito com isso. Sines também, mas por outras razões, por começar a ser agora uma plataforma giratória de trânsito que não nos diz respeito, da Ásia para a Europa. Um outro sector que tem crescido muito, não sei bem por que razão, é a transformação de pescado, quer as conservas, quer o próprio bacalhau, que se tem aguentado, quer os congelados, que têm aumentado. Temos pouca matéria-prima, não temos grandes recursos pesqueiros. Esse é um dos aspectos que gosto de frisar.
É surpreendente.
A maior parte das pessoas acha que Portugal é um país de pesca. Não temos peixe.
E a plataforma continental que temos, não tem recursos pesqueiros?
Uma coisa não tem a ver com a outra. A plataforma continental é muito profunda e os grandes stocks de pescado existem em plataformas superficiais. A prova de que não somos um país de pesca é que desde o século XIV tivemos de ir para os bancos da Terra Nova procurar uma proteína de origem marinha, o bacalhau, que não temos nas nossas águas. Temos peixe costeiro, que adoramos e quando conseguimos, comemos nos restaurantes – os robalos, os sargos, as douradas, e alguns que vêem dos Açores, os gorazes, as garoupas… 
Não podemos vir a ter uma indústria pesqueira?
Costumávamos ter, mas já não temos. Pescávamos na Namíbia, em Marrocos, na Mauritânia, no Senegal, na Noruega, na Islândia, no Canadá. Hoje em dia não pescamos nessas áreas, por muitas razões. Fiquei muito contente porque, com a Comissão Estratégica dos Oceanos, que foi um grupo de trabalho de alto nível, que fez o primeiro relatório com os elementos de uma estratégia nacional para o mar – saiu em 2004 -, fomos os primeiros a dizer que temos uma Zona Económica Exclusiva (ZEE) que é a maior da UE, que é 18 vezes o território terrestre. Mas os outros estados costeiros também, deixámos de ter autorizações para pescar naquilo que hoje são ZEE desses países. Até ao final dos anos 70, eram alto-mar, mar internacional. 
Essa indústria é só para alimentação?
A nossa indústria de transformação de pescado está a crescer bastante. Diria que, por exemplo, na área que designamos por indústrias de bio-recursos marinhos – ligadas à biotecnologia marinha, ou seja, que utilizam a matéria viva do mar não para comer, mas para a nutracêutica, a farmacêutica, a cosmética, a alimentação, os têxteis, os biomateriais, os plásticos biodegradáveis – essas áreas têm ganho com a crise, porque têm forçado os investigadores a sair de dentro dos muros da universidade. E muitas vezes para empresas que eles próprios constituem. 
As chamadas spin-offs…
Em 2012, acabei um relatório que levou um ano a coligir, que se chamou Blue Growth for Portugal, sobre quanto a economia do mar em Portugal, no seu agregado, valia em termos de PIB nacional. Chegou-se à conclusão de que é diminuta, porque valia 2,5% do PIB, o que é muito menos que a média europeia, que é de 5%. Ou seja, um estado costeiro da Europa Ocidental, integrado na UE, em geral, faz 5%, sendo que há outros a fazer muito mais, como a Dinamarca ou a Noruega, ou ainda a Holanda. Esse estudo era feito com base em números de 2010 e 2011 e concluía também que não havia massa crítica. 
Normalmente, nesse caso, culpa-se o sector privado por alguma inacção.
O sector privado, seguramente, não tem estado à altura. Nunca acompanhou o investimento público, mesmo na área da ciência e da investigação. Mas o sector público é muito formalista. Acho que está a mudar por causa da crise, da falta de dinheiro público para a investigação científica e tecnológica, mas também por causa da forma como a Europa está a empurrar a investigação científica europeia, que quer cada vez mais aberta à sociedade e em cooperação com as empresas. Sozinhos, uns e outros, já não conseguem ganhar o acesso aos fundos. 
Por outro lado, a importância ecológica do mar é imensa.
As pessoas não compreendem que quando falamos de alterações climáticas e de insustentabilidade ambiental, estamos a falar essencialmente de mar. Estamos muito mais preocupados com as florestas e os recursos hídricos, por exemplo, do que com o mar. Mas o mar produz mais oxigénio que as florestas, retém quase tanto CO2 como as florestas e gera os recursos hídricos, porque é ele que desenvolve os ciclos hidrológicos. Ou seja, é da evaporação da água do mar que se formam depois os recursos hídricos de que nós acabamos por beneficiar. 
Há até aquele chavão, de que nós conhecemos melhor a superfície da lua do que o fundo dos oceanos.
Sem dúvida. Mas isso também se está a alterar. Se repararmos, hoje, 80% da indústria do petróleo e do gás natural está na exploração offshore e na exploração offshore de profundidade. Hoje em dia o capital de investimento de infra-estrutura não está em terra, está no mar. Para nós é fundamental alinharmos a nossa agenda com a agenda mundial, para onde sopram os ventos. 
E não temos conseguido alinhá-la?
Na Revolução Industrial, Portugal deixou de ser um país pertinente no sentido em que não tinha carvão. Logo passámos a ter uma economia secundária. A seguir vem o motor a explosão e não tínhamos também os combustíveis do século XX. Tivemos a revolução digital, que é a que domina as nossas vidas, e estamos profundamente mergulhados nela, mas não detínhamos aqui, na altura, um dos elementos fundamentais, que era técnicos informáticos especializados na língua inglesa. Se me perguntarem qual foi a razão de esta história portuguesa não ter dado certo, creio que o nosso problema não nasceu com a crise de 2007/2008. Vem de trás. Podemos dizer que coincide com a entrada no euro, com a falta de competitividade que o euro agravou… Mas vem ainda de trás, a falta de competitividade é algo que tem 50 anos. 
A falta de industrialização? 
Nós andámos desalinhados da agenda mundial desde, pelo menos, a Segunda Guerra. Passámos a segunda metade do século XX contra os ventos da história, a manter territórios ultramarinos quando a palavra de ordem era a autodeterminação dos povos, a manter monopólios e condicionamentos industriais quando a palavra era a abertura das economias e a criação de um mercado comum… Tardámos em ver a queda do Muro, a integração dos países de Leste na UE e principalmente tardámos a compreender que temos aqui uma mais-valia, uma vantagem comparativa, que é a nossa geografia, que é avassaladoramente marítima. Enquanto não nos reencontrarmos com esta geografia, o nosso país não vai dar certo. 
E qual é o caminho que o mar aponta?
Creio que vamos assistir, neste século XXI, a uma corrida aos oceanos. Da mesma maneira que essa corrida já está profundamente aí na área do petróleo e do gás natural. 
Mas não podemos acelerar ainda mais a degradação dos mares assim?
Se os começarmos a explorar com o business as usual, com o modelo do século XX. Não tenho dúvidas de que têm sido feitos progressos tecnológicos nas turbinas das eólicas offshore, que começam a ser cada vez maiores relativamente às terrestres. Estamos a falar já de oito megawatts no mar, mas temos a possibilidade de chegar já a máquinas de dez megawatts, e que essas máquinas se vão tornar competitivas, mesmo sem subsídios, num futuro já de médio prazo. E não tenho dúvidas nenhumas de que para essa tecnologia também vai ser fundamental o passo dado para a migração das eólicas submarinas que estão fixas ao subsolo e ao solo marítimo, para as flutuantes. No fundo, um pouco como aquele projecto que está a ser desenvolvido no Norte de Portugal, o Windfloat, uma eólica flutuante. Depois há um outro elemento fundamental na área da energia do mar, que é a segurança do fornecimento energético. 
No nosso caso, para o gás natural, não dependemos da Rússia…
Mas é o caso da maior parte da Europa, com os problemas que tem gerado no contexto geopolítico do continente europeu. No final do século XX, achámos que era um perigo para a segurança transportar petróleo por navio, depois dos desastres do Erika e do Prestige, e que tínhamos de passar a transportar a nossa energia por pipelines. Hoje compreendemos que não é nada assim. A questão do petróleo resolvemo-la com os navios de duplo casco até 2009, a data final que tinham para se adaptar os navios. Hoje compreendemos a importância dos terminais de gás natural liquefeito, como o que temos em Sines e outros que existem na Península Ibérica. Neste caso, foi uma aposta muito acertada de Portugal, porque deixámos de depender exclusivamente do gás da Argélia, e passámos também a diversificar desde logo essa fonte com o gás da Nigéria. É aí também que o mar tem importância, enquanto fonte de diversificação das rotas de transporte. 
O gás da Nigéria vem então de barco até Sines?
Vai para o terminal de gás natural liquefeito. É um transporte muito sofisticado, muito complexo, porque o gás é comprimido num terminal de exportação na Nigéria, transformado em líquido, transportado na forma líquida, e depois é novamente transformado em gás para poder correr nas nossas condutas e chegar às nossas casas. 
Podíamos exportar esse gás?
Claro. Se tivéssemos as estruturas adequadas, nós podíamos revender esse gás para outros países europeus. E diria até não só Portugal, mas numa estratégia comum entre Portugal e Espanha, porque é aí que encontramos a maior concentração de terminais de gás natural liquefeito de toda a Europa. Somos os países menos dependentes do gás da Rússia. Há outro aspecto muito interessante ligado ao gás e ao mar. Portugal poderia, uma vez que nós temos contratos a longo prazo com a Nigéria – que, julgo, vão até aos 20 anos de fornecimento – investir nos meios necessários para transportar esse gás natural, ficando esses meios de transporte de alguma forma sob interesses nacionais. Isso era importante pela mais-valia que se ganha nessa área – o transporte de gás natural vale 30% do produto. O seu manuseamento e o seu transporte são tão sofisticados que as tripulações têm de ser altamente especializadas. 
Seria multiplicar emprego qualificado…
… E desenvolver o mar, criar indústrias, engenheiros navais, tecnologia, e não só – é também segurança, soberania. Em tempos de escassez, o gás natural corre para quem pagar mais. Nós fizemos um erro, que para mim é o pecado original da decadência do nosso cluster do mar, quando achámos que podíamos viver sem marinha mercante. E essa decisão nunca foi tomada de uma forma voluntarista mas, por omissão, foi sendo tomada ao longo de décadas. 
A frota foi desaparecendo?
Foi desaparecendo, porque temos uma enorme incapacidade de ter uma análise prospectiva dos nossos interesses. Sobre as águas sob jurisdição nacional passam 60% da frota de marinha mercante da UE. E ganhamos alguma coisa com isso? Nada. Pelo contrário, pagamos, porque somos responsáveis pela busca e salvamento e podemos ser vítimas dos acidentes ambientais que essa utilização de risco ocasione. E quem fala dos transportes marítimos e da tecnologia também fala de toda a área da alimentação e da segurança alimentar. Vamos ter de apostar muito mais do que hoje na aquacultura. E também por aí o mar vai ser importante, não só pela produção de proteínas, mas também pela produção de medicamentos, pela medicina, pelo bem-estar, pelos suplementos alimentares, pela nutracêutica. 80% das formas de vida estão no mar. 
E não teremos uma dificuldade, a do custo exacerbado da extracção?
Depende do produto de que estamos a falar. Se forem minérios, sem dúvida. Neste momento, apesar de sabermos que existem minérios com ligas metálicas muito ricas no fundo mar, e materiais escassos hoje em dia em terra, não conseguimos ainda desenvolver a tecnologia em termos de preço que justifique a sua exploração. Mas não tenho dúvidas nenhumas de que estamos a caminhar para isso. As tecnologias de comunicação e informação recorrem a determinadas ligas metálicas que cada vez aumentam mais de preço. Por que há, hoje em dia, roubos de cobre? Há 15, 20 anos, nunca ouvíamos falar disso. É porque o cobre hoje vale mais que a prata, porque é um material cada vez mais escasso. Os fundos do mar têm essas ligas e isso, realmente, coaduna-se com a ideia do preço da exploração. 
Temos tentado fazer essa exploração?
Não é a componente da recolha que é determinante, principalmente se um país tiver uma visão de longo prazo para ter, por exemplo, uma política industrial para a biotecnologia que leve a facilitar a recolha de amostras. O que aliás tem vindo a ser feito, um bocadinho com o levantamento da delimitação da plataforma continental, com a aquisição do robô ROV Luso, que vai a seis mil metros de profundidade – é um veículo operado remotamente a partir de um navio e que tem uma série de capacidades de recolher amostras, de filmar, de manipular materiais submarinos a grandes profundidades, sejam materiais vivos, sejam inertes. Começámos a aumentar muitíssimo as nossas colecções de amostras. Tanto que o programa M@rBis, que é o programa nacional da biodiversidade marinha, aumentou muitíssimo e todos os anos há cruzeiros científicos. É uma questão de nos organizarmos. Sei que neste momento o Governo está a desenvolver legislação para regular a propriedade e o licenciamento dessas amostras. 
E é necessário ter laboratórios em terra para transformar essas amostras.
Não vou esconder que não seja necessário ter alguns recursos financeiros, mas é preciso ter massa cinzenta. E depois é preciso ter visão do mercado, internacionalizar e cooperar com empresas de fora. Na área da biotecnologia não há uma empresa que possa fazer sozinha um produto de A a Z. Precisa de componentes de outras empresas, de laboratórios. É uma área em que é preciso cooperar e não apenas competir. 
Que outras aplicações podem ter os recursos marinhos? 
Esta economia do mar permite utilizar os resíduos ou os subprodutos da indústria transformadora. Por exemplo, tudo aquilo que não é o filete do peixe – as cabeças, as vísceras, os ácidos gordos, a pele, as espinhas – pode servir para os produtos de biotecnologia. É algo que hoje em dia já é feito na Europa e mesmo nalgumas empresas em Portugal. Com isso estamos hoje a transformar aquilo que era um problema – resíduos que tinham de ter um tratamento para evitar a deterioração ambiental – em matéria-prima para áreas de menor valor acrescentado (como a farinha de peixe, por exemplo), e hoje queremos aplicar na cosmética, na farmacêutica ou até na nutracêutica. E onde o valor que era calculado à tonelada passa a ser calculado ao quilo ou à grama. Portanto, multiplicamos muitas vezes o valor desses subprodutos. A questão da economia circular anda de braço dado com a questão da economia azul. 
Outras áreas, como a exploração petrolífera offshore, não representam um grande perigo ambiental, como se viu no desastre da BP no Golfo do México?
Não posso concordar com a afirmação que está subjacente à pergunta. Por um lado, tem havido enormes progressos na investigação científica do mar, mesmo na área da modelação das correntes, das marés, das ondas. Portugal até é um país muito avançado nessa matéria. Depois tem havido muitos progressos na área do desenvolvimento de sistemas offshore, das estruturas, da sua flutuabilidade e resiliência. A Noruega, por exemplo, é um país absolutamente especializado no domínio dessas estruturas, onde as explorações de gás e petróleo já nem são, sequer, feitas através de plataformas. São feitas só através de instalações submarinas, que estão no solo, no leito marinho. E não conhecemos nenhum desastre ocorrido na Noruega. Há quem diga que o desastre da BP no Golfo do México surgiu por se ter passado por cima de muitas regras de boas práticas que existem.
Há também a questão dos biomateriais…
Estamos a começar a viver uma revolução biotecnológica. Neste momento, menos de 20% dos produtos manufacturados que consumimos têm componentes biotecnológicas. Mas todas as indicações vão no sentido de que, até 2030, esses menos de 20% passem para 50%. Vamos passar a vestir-nos com roupas com essas componentes, vamos usar sacos de plástico produzidos pela biotecnologia, de matérias naturais, orgânicas, não dependentes dos hidrocarbonetos. Todos os biomateriais vão reflectir-se pela biotecnologia. Poderemos dizer que chegámos finalmente a uma revolução em que pela primeira vez temos a matéria-prima sob o nosso domínio. Outro aspecto é que a biotecnologia precisa muito de massa cerebral, porque exige grande conhecimento. Ora, Portugal investiu muitíssimo, desde a Expo 98 e do Programa Dinamizador de Ciência e Tecnologia do Mar, nas ciências do mar. E hoje temos pólos de investigação e tecnologia do mar nas principais universidades portuguesas, com grande valia e com muitos recursos humanos. 
Mas com a perspectiva da crise e, sobretudo, de a recuperação ser muito lenta, que conselhos se pode dar a uma pessoa que vai entrar hoje para o ensino superior? Que áreas deve seguir para ir para o mar?
É uma pergunta que lança uma enorme responsabilidade sobre os ombros de quem responde [risos]. Primeiro, queria ter uma palavra de cautela. Hoje em dia, por se falar bastante de mar, já se começa a assistir, nalgumas áreas do conhecimento, a uma procura bastante mais elevada por parte dos candidatos a alunos. É importante compreender que neste momento não existe ainda um desígnio nacional para o mar. Todo o desenvolvimento que a biotecnologia teve, teve-a muitas vezes porque as pessoas foram empurradas pela crise para fundarem as suas empresas, criarem os seus trabalhos, os seus negócios. Eu diria aos leitores que tenham uma grande cautela antes de pensarem que vão para o mar e que vão arranjar um emprego, porque o mar continua a valer menos de 3% do PNB. 
E se partirmos do princípio que o desígnio virá aos poucos?
Partindo desse princípio, não teria dúvidas nenhumas. Se me perguntarem quais são as áreas que se vão desenvolver, não tenho dúvidas nenhumas que é a da biotecnologia do mar, da biologia aplicada, através de métodos tecnológicos ao desenvolvimento de aplicações na área da farmacêutica, da nutracêutica, da cosmética, dos biomateriais, das indústrias limpas, da bio-remediação e das energias renováveis, dos biocombustíveis. 
E nas pescas?
Também não tenho dúvidas de que a área da fileira do pescado em Portugal vai ser cada vez mais forte. Está a haver uma grande aposta do Governo na aquacultura, principalmente na de bivalves offshore. Portugal tem condições únicas para poder vir a ser um grande fornecedor de bivalves para a Europa – mexilhão, ostras, e até amêijoas ou vieiras no futuro. Acho que isso vai aumentar a capacidade da indústria transformadora. Basta dizer que nós, em 2004, vendíamos 200 milhões em exportações de pescado. Hoje em dia estamos a vender 900 milhões, quase mil milhões. Isto são 18% das exportações agro-alimentares portuguesas. É praticamente o que o vinho vende. Ninguém sabe isto.
De facto…
E há outros sectores que se vão desenvolver, como o sector portuário e outros, que com as políticas públicas adequadas, vão poder também desenvolver-se. Espero, por exemplo, que os transportes marítimos não continuem nesta decadência paulatina para sempre. Começámos a falar de mar em Portugal mais intensamente nos últimos quatro/cinco anos, mas pelo menos desde o relatório da Comissão Estratégica dos Oceanos – ou seja, desde finais de 2004/2005 – que o mar voltou à agenda nacional. Mas tem voltado de uma forma lenta. 
Como se interessou por esta área?
Tive formação em direito, sou jurista e entrei nesta área pelo direito do mar, da forma mais fortuita que se pode imaginar. Sou filho deste país e portanto cresci sem ter a mínima noção da importância do mar, como qualquer português da minha geração. Tenho 47 anos, cresci nos anos 70 e 80, sou um filho do PREC, como se costuma dizer. Toda a vida os políticos do meu país disseram que o país era pequenino, pobre e periférico, que não arrisca. E isso, de facto, é uma carga negativa com a qual os portugueses convivem diariamente, que nos corta muitíssimo a auto-estima e a ambição de querer chegar mais longe. 
Mas quando teve o clique?
Quando fui fazer um mestrado na London School of Economics em 1993. Entrei na aula de Direito do Mar e no fim pensava que ia só ver o que era, estava à procura das cadeiras que queria fazer, era um curso interuniversitário. E eu tinha cinco cadeiras para escolher, de um total de 85. Andava angustiadíssimo [risos]. Já tinha uma visão do que ia fazer, mas… E foi esse professor que me disse que Portugal tinha a maior ZEE da UE, que desconhecia em absoluto esse facto, que não tinha uma escola desenvolvida de direito do mar, e com isso não estávamos a acautelar os nossos interesses estratégicos. E como eu vinha de um país ‘pequeno’… No meu tempo nós perdíamos até no futebol. 
Eram as vitórias morais…
Sim, mesmo nas grandes goleadas. A partir daí, não consegui mais trabalhar sem ser em função de uma agenda do mar. Trabalhei na ONU, fui membro do Conselho da Autoridade dos Fundos Marinhos, fui o representante de Portugal à assembleia geral da Convenção do Direito do Mar das Nações Unidas, e principalmente compreendi logo ali que há uma percepção externa altamente positiva que liga Portugal ao mar que nós, cá dentro, desconhecemos em absoluto. Ou seja, percebi que Portugal tinha capacidade de liderar processos internacionais. Ao invés de sermos um pequeno país terrestre passámos a ser uma grande nação oceânica, se nos quisermos ver dessa maneira. Deixamos de ser o país em que a terra acaba para ser o país em que o mar começa. 
Fonte: Sol

Como se movem as correntes marítimas [ Com Vídeo ]

Fomos ensinados a temer as correntes marítimas, que podem ter um poder incontrolável quando surpreendem alguém no mar. Mas e se pudéssemos aproveitá-las?
O cineasta Julie Gautier realizou uma curta-metragem, onde mostra o mergulhador Guillaume Néry a deixar-se levar pelas fortes correntes do estreito de Tiputa, em Rangiroa, na Polinésia Francesa.
No documentário “Ocean Gravity”, Guillaume Néry mergulha a vários metros de profundidade.
A película foi filmada no final de 2014 e serve para mostrar como são e como se movem as misteriosas correntes marítimas.

Surf. A melhor app da Europa é de quatro portugueses

Joana, Francisco, Nuno e João venceram na categoria de melhor app europeia no Mobile World Congress, em Barcelona
Joana Matos, Francisco Brito, João Rodrigues e Nuno Ferro brilharam em Barcelona. Os quatro jovens portugueses levaram até ao Mobile World Congress a sua aplicação para telemóveis destinada aos praticantes do surf e saíram de lá com a melhor app europeia. Em Barcelona estavam seis projectos a concorrer pela distinção: portugueses, espanhóis, franceses e holandeses. E foi a Surfstoke que mais deu nas vistas ao ser apresentada como a primeira rede global dos amantes de desportos de ondas. Fazer um check-in quando se chega à praia, criar um relatório com informação do Instituto Hidrográfico sobre o estado do mar, fotografias e avaliações pessoais das condições do local são só algumas das possibilidades que esta tecnologia made in Portugal oferece.

O surfista fica com uma ficha completa da praia, que pode partilhar com todos os membros ou só com um ou dois amigos no caso de querer salvaguardar os chamados secret spots (lugares secretos). Os check-in da Surfstoke parecem mais uma burocracia tipicamente portuguesa, mas estão longe disso. A ferramenta permite saber onde estão a surfar os amigos e em que praias estão as melhores condições no momento da consulta. Além disso, os utilizadores ganham pontos que dão acesso a ofertas em lojas parceiras, como a PAEZ, a ORG ou a Bana Surf Shop.

A app está disponível gratuitamente para iOS e Android, tendo sido lançada em Novembro pelos quatro empreendedores e com o selo MIT-Portugal. “O nosso objectivo está bem patente no nome: Stoke significa o êxtase de apanhar uma onda. E é este feeling que queremos levar a todas as praias do mundo onde existam surfistas prontos a dominar as ondas”, diz Joana num comunicado divulgado pela empresa.

Tudo isso começou com Joana Matos, que foi quem teve essa ideia quando fazia o mestrado em Gestão na Universidade Católica, em Lisboa. Os outros três juntaram-se logo a seguir. João Rodrigues, que também é de Gestão, Francisco, especializado em comunicação online e Nuno, que é programador, trabalharam mais de um ano nesta aplicação.

Por quatro dias, Barcelona foi o palco mundial da economia digital e mobile, onde contou com a presença de mais de 85 mil pessoas que assistiram a palestras e talks de CEO de empresas líderes nestas indústrias.

Mark Zuckerberg (fundador do Facebook) foi a atracção principal, mas os quatro portugueses também tiveram o seu momento de fama.

Fonte: Kátia Caculo / Ionline
Foto: Rodrigo Cabrita

Há 230.000 espécies da vida marinha

A comunidade científica internacional está prestes a concluir o registo da vida marinha após contabilizar aproximadamente 230.000 espécies, equivalente a 40% do total existente nos oceanos.

A comunidade científica internacional está prestes a concluir o registo da vida marinha após contabilizar aproximadamente 230.000 espécies, equivalente a 40% do total existente nos oceanos, anunciou hoje o Worms, entidade que faz Registo Mundial de Espécies Marinhas.
De acordo com a instituição de pesquisa, o número de espécies reconhecidas por aquele que é considerado o maior banco de dados das espécies marinhas foi reduzido para 228.450, depois de encontrar duplicações de 190.400 animais e plantas na literatura científica.
O “rei” de redundância é um caracol cujo nome científico é ‘Littorina saxatilis’, que tem até 113 denominações científicas.
A iniciativa do Worms “é um esforço global para criar um inventário de todos os animais e plantas nos oceanos que foram descritos na história” e “temos esse esforço quase concluído “, assegurou o diretor do Registo Mundial de Espécies Marinhas, Jan Mees, citado hoje pela agência espanhola EFE.
O cientista acrescentou que existem espécies descobertas em todas as áreas marinhas, mas especialmente “nas áreas menos exploradas dos oceanos: o fundo do mar, o Oceano Índico e áreas tropicais”, onde existem “sistemas de corais (que) são muito ricos e (onde) novas espécies são descobertas a cada dia”.
“Além disso, existem grupos de animais que não atraem muito interesse (dos cientistas), por serem muito pequenos, e há muitas espécies desconhecidas”, pelo que os cientistas preveem que, no final do trabalho, possam contabilizar entre 500.000 e um milhão de espécies marinhas, acrescentou.
“Nós acreditamos que quase 40% das espécies nos oceanos já foram descritas até agora. O resto ainda está para ser visto, descoberto e descrito”, disse Jan Mees, admitindo: “sabemos muito pouco sobre os oceanos”.
“Ainda há uma época de descoberta e exploração que nos espera. Houve grandes esforços nas últimas décadas, mas quanto mais estudamos, é evidente que sabemos muito pouco”, insistiu.
Desde 2008, a comunidade científica internacional descobriu cerca de 1.000 novas espécies marinhas, o equivalente 10 espécies por mês, incluindo 122 novos tubarões e raias, barracuda, bem como 131 novos membros de peixe da família Góbio.
Das 228.450 espécies descritas até agora pelos cientistas, 86% – 195.000- são animais-marinhos, alguns dos quais – 18.000 – são espécies de peixes descritas desde meados do século XVIII.
Além disso, existem mais de 1.800 estrelas náuticas, 816 lulas, 93 baleias e golfinhos e 8.900 moluscos e outros bivalves, concluiu o cientista.
 Fonte : Observador

Embarcação eléctrica flutua na água [ Com Vídeo ]

A embarcação eléctrica “Quadrofoil” é capaz de flutuar na água, não polui e atinge velocidades da ordem dos quarenta quilómetros hora.
O protótipo foi desenvolvido na Eslovénia.
“Ao atingir os dez quilómetros hora, a embarcação
eleva-se e flutua, o que permite uma condução confortável sem vibrações, mesmo em ondas de meio metro. Trata-se de um produto amigo do ambiente porque não produz ruído nem CO2. O motor não verte gasolina na água”, explicou Marjan Rozman, presidente da empresa Quadrofoil.
A bateria tem uma autonomia de cem quilómetros. A direcção possui um ecrã táctil. O produto foi concebido para ser ergonómico e fácil de usar.
“O sistema de direcção foi patenteado e permite uma condução muita específica, similar à condução de um kart.
Mas, como os passageiros viajam no ar, a sensação é parecida à de voar num avião”, acrescentou o mesmo responsável.
O modelo de base custa quinze mil euros, o mais caro ronda os 22 mil euros. No futuro, a empresa eslovena espera desenvolver uma embarcação similar capaz de transportar vários passageiros.
Fonte: Euronews

Sepios: Um robô aquático em forma de choco [ Com Vídeo ]

Sepios é um robô omnidirecional construído por estudantes de Zurique que pode vir a inspirar uma nova geração de androides, aquáticos e amigos do ambiente.
Inspirado num choco do oceano, tem quatro barbatanas para nadar que se movem num ângulo de 270 graus. O dispositivo tem vários comandos para controlar a distância e a profundidade.
Os dois estudantes dizem que o ponto forte do Sepios não é a velocidade, de até quatro metros por segundo, mas sim a sua agilidade.
Fonte: Euronews

Documentários para mergulhar nas profundezas do Surf Português

My Road Series segue a carreira de Nicolau von Rupp e da geração de ouro da modalidade. O primeiro segmento pode ser seguido online.

É um retrato do surf, de Portugal para o mundo e do resto do mundo de volta a Portugal. O protagonista, o fio condutor desta viagem, é Nicolau von Rupp. Ou Nicolas. Ou “Nic”, simplesmente “Nic”, para saltar a barreira linguística. Aos 24 anos, o surfista português atravessa um dos melhores momentos da carreira e o bloco de documentários My Road Series também serve para o atestar. O primeiro segmento, One City, já está disponível online.

Pai alemão, mãe suíça, não é uma tarefa fácil para Nicolau von Rupp rotular-se a si mesmo. Nasceu em Lisboa, é certo, mas as ondas da vida já o conduziram a diferentes paragens. “Diria que me sinto 70% português e 30% alemão. O meu irmão nasceu nos EUA, o meu pai viveu lá durante muito tempo. É difícil descrever o que sinto. É uma mistura”, expõe no primeiro documentário, assinado por Gustavo Imigrante e Dinis Sottomayor.

“Nic” é apenas um dos nomes da geração dourada do surf português, da geração que agarrou pela primeira vez a palavra profissionalismo e que tem conquistado adeptos mesmo em praias longínquas. E esse tributo também perpassa por One City, mais concretamente pelos testemunhos e pelo talento de Tiago Pires, Frederico Morais ou Vasco Ribeiro.

Neste documentário inaugural, viajamos de Lisboa até Los Angeles numa reflexão sobre o crescimento do surf em Portugal e sobre a forma como os europeus têm conseguido afirmar-se além-fronteiras. Como cartão-de-vista, “Nic” deixa uma sugestão a quem quiser aventurar-se nas praias lusitanas: “Se vierem por um mês, terão pelo menos uma semana de grandes ondas em Supertubos”.

O “senhor que se segue” em My Road Series é o segmento Two Islands, que antecede Three Deserts e Four Cliffs. O propósito é sempre o mesmo: mergulhar nas profundezas do surf e descodificá-lo tanto quanto possível.

Fonte: Público


Ílhavo: Ecomare vai ajudar a testar tecnologias para melhorar aquacultura

A área envolvente ao novo equipamento junto à Ria será utilizada para aperfeiçoar a produção piscícola.

O Ecomare, em fase de conclusão, está localizado junto à lota, na Gafanha da Nazaré, representando um investimento de 4,5 milhões de euros (comparticipado em 80%, sendo os restantes 20%, respeitantes à contrapartida nacional angariada pela UA e município de Ílhavo).

É um dos Projectos âncora do Cluster do Conhecimento e da Economia do Mar, envolvendo ainda o Porto de Aveiro. 

Segundo o reitor da UA, Manuel Assunção, o futuro centro de investigação e transferência de tecnologia dedicado ao mar vai dar uma atenção “particular” no domínio da aquacultura.

Está prevista “a instalação de equipamento na área envolvente para demonstração e transferência de tecnologia para desenvolver aquela actividade piscícola. Espera-se, assim, aplicar as melhores práticas internacionais para “aumentar o respectivo impacto e alargá-lo a toda a cadeia de valorização do conhecimento”. 

O reitor aproveitou a presença da ministra para dar a conhecer, entre outras acções, a “Plataforma Tecnológica do Mar” que a UA dinamiza com académicos, empresas e outras entidades, “uma das apostas estratégicas do futuro Parque de Ciência e Inovação”. 

Fora de portas, a UA tem uma ligação ao “campus do Mar”, projecto liderado pela Universidade de Vigo e uma “continuada cooperação” com Cabo Verde nas temáticas marítimas.

Fonte: Notícias de Aveiro

"Limousines" subaquáticas em busca de barcos naufragados [ Com vídeo ]

São veículos de luxo que submergem e proporcionam uma viagem única numa espécie de cápsula de vidro. Em 2010, a empresa U-Boat Worx especializou-se na produção de submarinos em versão luxuosa. A última novidade é uma embarcação longa que oferece uma aventura única: a exploração de restos de naufrágios.
O projecto está todo desenhado e deve começar a “navegar” no próximo verão.
U-Boat Worx aliou-se a outras duas empresas e decidiu criar um programa de entretenimento para os amantes de arqueologia e do mundo marítimo.
Trata-se de uma expedição arqueológica nas profundezas do mar feita com profissionais. Acompanhados por um skipper profissional e um arqueólogo, os passageiros “mergulham” nas águas ao largo da ilha vulcânica de Panarea, no norte da Sicília (Itália), a cerca de 150 metros de profundidade.
O exercício não será meramente visual. Não se trata apenas de ver, observar e contemplar. Os clientes deste serviço têm mesmo oportunidade de recolher peças de um barco que ali naufragou para depois as exibirem numa exposição. Para concretizar esta tarefa, a embarcação está equipada com um braço hidráulico.
A aventura não se limita a viajar a bordo do submarino U-Boat Worx. À “expedição” aquática juntam-se outras actividades como aulas de culinária.
O preço desta aventura submarina varia. O pacote mais barato custa 17.500 euros e inclui uma noite na ilha. Para os que quiserem pernoitar num luxuoso iate de 40 metros de comprimento, o preço sobre para 200 mil euros. Se tiver o seu próprio barco e nele quiser dormir o preço baixa para 100 mil euros.
A mais exclusiva e mais cara de todas as opções “salta” para outro patamar. Se gostar muito do projecto e quiser comprar um submarino de luxo da U-Boat Worx, o custo pode começar em um milhão de euros e acabar em dois milhões.
As “limousines” subaquáticas da U-Boat Worx foram desenhadas de modo a que os passageiros possam desfrutar de uma vista panorâmica de 360 graus. A cabine é produzida com uma resina acrílica que proporciona grande visibilidade e pode descer a uma profundidades de até 300 metros. As “limousines” atingem uma velocidade de três nós e tem uma autonomia de oito horas.
Fonte: TSF

Peixe de vida curta ajuda em pesquisas contra o envelhecimento

O peixe-anual (ou peixe-nuvem) turquesa vive num mundo passageiro: os lagos que aparecem apenas durante a estação chuvosa do oeste da África.
Quando novos lagos se formam, os ovos do peixe-anual enterrados na lama acordam da sua animação suspensa. Eclodem e, em apenas 40 dias, os peixes crescem até ao tamanho normal, cerca de 6,5 centímetros. Os peixes alimentam-se, cruzam-se e depositam ovos. Quando o lago seca, morrem.
Mesmo quando as pessoas os «mimam» em aquários, os peixes-anuais turquesa sobrevivem apenas alguns meses, colocando-os entre os vertebrados com menor tempo de vida. Por isso estes peixes não parecem os melhores animais para se estudar quando a ideia é descobrir os segredos de uma vida longa.
No entanto, investigadores estão a descobrir que estes peixinhos envelhecem de maneira parecida com a nossa, apenas muito mais rapidamente. «É um tempo de vida comprimido», explica Itamar Harel, pesquisador pós-graduado da Universidade Stanford. Recentemente, Harel e os seus colegas desenvolveram um conjunto de ferramentas para investigar a biologia do peixe-anual turquesa.
As pessoas mais velhas parecem um foco mais lógico para os cientistas que procuram descobrir os mecanismos do envelhecimento, mas o progresso pode ser lento.
«Quem é que tem 70 anos para estudar o processo de envelhecimento de alguém?», pergunta Sarah J. Mitchell, pesquisadora e pós-doutorada do Instituto Nacional de Envelhecimento.
Em vez disso, os cientistas procuraram os segredos do envelhecimento em vários modelos de animais. Mas nenhum imitava perfeitamente o que acontece com os humanos.
Sarah estuda ratos, que vivem de três a quatro anos. Usando os animais, aprendeu como os genes se tornam mais ou menos activos com a idade e conseguiu testar várias drogas que os fizeram viver mais. No ano passado, ela e os seus colegas mostraram que um composto chamado SRT1720 aumenta o tempo de vida dos ratos em 8,8% em média, ao mesmo tempo que melhora a saúde dos animais.
Mas, mesmo os ratos, que vivem pouco, podem atrasar a pesquisa sobre o envelhecimento. Assim, alguns investigadores focaram-se num pequeno verme nematoide chamado Carnorhabditis elegans, que alcança uma idade avançada em poucas semanas. Os cientistas descobriram que genes que influenciam o seu processo de envelhecimento também funcionam em humanos.
Em 2004, quando Anne Brunet chegou à Universidade Stanford como professora assistente de genética, começou a estudar ratos e vermes. Mas achou que alguma coisa estava a faltar. Apesar de os vermes crescerem rapidamente, não podiam responder a algumas das suas mais importantes perguntas sobre a idade. Uma delas, por exemplo, é que, como não têm esqueleto, não há como aprender por que é que os ossos ficam mais frágeis.
Então, um aluno da universidade falou-lhe sobre o peixe-anual turquesa. Depois de a espécie ter sido descoberta em 1968, os cientistas encontraram muitos paralelos entre a sua maneira de envelhecer e a dos humanos.
Peixes-anuais velhos perdem massa muscular, como nós. As fêmeas param de produzir ovos férteis. O sistema imunológico titubeia. A sua capacidade de aprender coisas novas também diminui no final da vida.
Em 2006, Anne começou a constituir uma equipa de pesquisadores de pós-doutoramento e alunos para estudar o peixe-anual turquesa em mais detalhe. Porém uma série de problemas atrasou a pesquisa por anos.
Uma infecção por parasitas matou todos os peixes que tinham, por exemplo; depois de uma limpeza completa do laboratório, os cientistas tiveram que começar do nada.
Assim que os pesquisadores descobriram como manter os animais felizes, a equipa de Anne focou-se no trabalho científico; sequenciaram todo o genoma do peixe-anual turquesa, identificando vários genes conhecidos por influenciar o processo de envelhecimento noutras espécies, incluindo ratos e humanos.
Então Harel construiu as ferramentas moleculares que a equipa utilizou para mexer com os genes dos peixes. Usando uma nova técnica chamada Crisps, criou tesouras moleculares que conseguem recortar qualquer pedaço do ADN do peixe-anual e trocar por outro.
Para testar essas ferramentas, Harel e os seus colegas estudaram um gene chamado TERT, que protege o ADN para que não se desgaste e rasgue. Este codifica uma proteína que ajuda a construir uma cobertura, chamada telómero, no final das moléculas de ADN.
Como pontas plásticas no final de cadarços, os telómeros não deixam que o ADN desfie. Quando as células se dividem, os seus telómeros ficam mais curtos, e essa mudança provavelmente tem um papel no processo de envelhecimento, mas como isso acontece ainda é um mistério.
Harel e os seus colegas tiveram sucesso em alterar o gene TERT para que o peixe não produzisse mais a proteína. Os animais transformados desenvolveram embriões normalmente, mas, quando adultos, sofreram com uma série de defeitos.
Os machos tornaram-se quase que totalmente inférteis, enquanto que as fêmeas produziram uma quantidade menor de ovos. As paredes dos seus intestinos atrofiaram, e eles fizeram menos tipos de células do sangue.
Esses resultados intrigaram os pesquisadores. De um lado, as mudanças observadas nos peixes eram parecidas com algumas que os humanos passam ao envelhecer. Mas os peixes não morreram mais rapidamente do que aqueles que tinham os genes TERT a funcionar.
Anne ficou entusiasmada por conseguir este tipo de resultado tão rapidamente. «É um daqueles momentos marcantes na ciência», afirma. No mês passado, Anne os e seus colegas publicaram as descobertas no jornal Cell.
Anne tem planos de fazer experiências com genes de peixe-anual turquesa envolvidos no envelhecimento de outras espécies e depois procurar por genes importantes no processo que podem ter sido ignorados em animais de vida mais longa.
Os pesquisadores também esperam testar tratamentos anti-envelhecimento nos peixes. Mesmo uma droga que proporciona duas semanas extra de vida pode mostrar o caminho para um composto que aumente a vida dos humanos em anos.
«Espero que abra as portas para o nosso laboratório e para outros», diz Anne.



Fonte: Diário Digital