Aumento da quota de pesca da sardinha aceite

A Comissão Europeia comunicou ao Governo que aceitou a sua pretensão de aumento da quota de pesca de sardinha para 17 mil toneladas, disse a ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, à Agência Lusa.
Temos excelentes notícias. A Comissão comunicou-nos que compreendia, aceitava e acolhia os nossos argumentos para o aumento da quota para este ano”, disse a governante.
Ana Paula Vitorino recordou que o ano tinha começado de “uma forma muito negativa”, aludindo à recomendação do Conselho Internacional para a Exploração do Mar (ICES, na sigla em Inglês) para limitar as capturas desta espécie a 1.584 toneladas.
Na altura, acrescentou, conseguiu-se fixar um valor substancialmente mais elevado (14 mil toneladas), agora aumentado para 17 mil, a repartir por Portugal e Espanha, numa proporção de dois terços para portugueses e um terço para espanhóis.
A consagração da quantidade pretendida, dada a acentuada disparidade em relação à recomendação do ICES, foi atribuída aos argumentos científicos e à análise dos impactos socioeconómicos avançados.
A disparidade dos números foi justificada por Ana Paula Vitorino com a alteração dos dados científicos fornecidos por Portugal.
Esta alteração “resultou de um reforço efectivo da capacidade de investigação do IPMA” (Instituto Português do Mar e da Atmosfera).
As toneladas avançadas pelo ICES resultaram de uma análise feita “sem que Portugal fornecesse informação científica sobre o estado do ‘stock’ da sardinha”.
A ministra recordou que “este governo tomou a decisão de reforçar as verbas de investigação e fazer um cruzeiro científico em Dezembro, que foi repetido na primavera”, o que permitiu “recolher informação mais actualizada”, enviada para o ICES que a incluiu na sua informação.
Ao mesmo tempo, foi estabelecido “um plano de gestão relativamente ao ‘stock’, que fez com que este começasse a recuperar”.
Desta forma, continuou, “através de um acompanhamento mais efectivo, mais eficaz, de toda esta matéria, do ponto de vista científico e do das pescarias, conseguiu-se demonstrar que houve um aumento de 20% na biomassa e com isso justificar já este ano que uma recuperação em relação ao cenário pessimista do início do ano”.
Ana Paula Vitorino revelou também que “na próxima semana”, vai reunir “com a comissão de acompanhamento do sector, com todas as organizações, e fixar um plano de gestão para que as capturas possam ser mais elevadas, mas que simultaneamente possa haver pescaria até final de Outubro”.
Este aumento do prazo visa permitir também satisfazer a indústria conserveira: “É importante não só para nós todos, a nossa gastronomia, mas também este prolongar no tempo até Outubro (vai) prolongar significativamente no tempo os fornecimentos à indústria conserveira, que depende em muito desta espécie”, concluiu.
A ministra insistiu ainda na necessidade de conjugar o aumento as pescarias com a sustentabilidade da evolução da espécie.
O plano de sustentabilidade para as capturas de sardinha na Península Ibérica tinha sido apresentado à Comissão Europeia.
Na ocasião, a ministra realçara a preocupação com a sustentabilidade da espécie: “Procuramos, de facto, que haja um crescimento sustentável da biomassa da sardinha: fixámos um mínimo de 4% de perspectiva de crescimento da biomassa e, fixando 17 mil toneladas, permitir-nos-á ter esse aumento de 4% e termos uma rota sem grandes flutuações, que são muito prejudiciais em termos sociais e económicos”, disse.
O previsível aumento das capturas possíveis far-se-á sentir “já”, acrescentara, observando que o plano de gestão para este ano fixava um total possível de capturas, entre Portugal e Espanha, de 10 mil toneladas até final de Julho, que ainda não foi atingido (Portugal capturou menos de 7 mil toneladas, e Espanha “2 mil e tal”).
Se se confirmar este acréscimo, o que quer dizer é que podemos prolongar a pescaria até mais tarde, até Outubro, até Novembro, até esgotarmos esse novo limite”, dissera na altura.

Golfinhos morrem nas redes de pesca

Dezassete golfinhos morreram, esta sexta-feira, cerca das 16 horas, depois de terem sido apanhados acidentalmente nas redes de pescadores de arte xávega, na praia de Mira.
Os pescadores da embarcação Alexandre Vieira aperceberam-se da situação no mar e tentaram libertar o grupo. “Eram cerca de 200, nunca tinha visto tantos na minha vida. Paramos várias vezes e tentamos que saíssem dos sacos das redes, mas não saíam”, contou o proprietário da embarcação, José Vieira. Assim que chegaram perto de terra, cortaram as redes com a ajuda de banhistas. Para além da tristeza da morte dos golfinhos e de perder o pescado do lanço, José Vieira ficou com um prejuízo nas redes de 8 mil euros.
Luciano Santos Oliveira, comandante da Polícia Marítima de Aveiro, disse que foram “contabilizados 17 golfinhos comuns mortos” no areal. Os corpos dos animais foram recolhidos por biólogos e técnicos do Centro de Reabilitação de Animais Marinhos de Quiaios (CRAM-Q), que agora irão proceder às necrópsias (autópsia feita a animais), fazer análises e guardar amostras para investigação.
Os golfinhos mortos pertenciam a “um grupo heterogéneo, com adultos e juvenis, que se aproximou muito da costa. Estavam atrás de alimento ou de passagem”, explicou Marisa Ferreira, bióloga do CRAM-Q, confirmando que estes cetáceos podem formar grupos de 200 elementos.
A captura acidental não é rara, mas tem diminuído devido à colocação de sensores nas redes, que emitem sinais sonoros de baixa intensidade para afastar os golfinhos. Raul Almeida, presidente da Câmara de Mira, diz que “foi confirmado que os sensores estavam a funcionar”, mas não foi o suficiente para impedir a tragédia.

Fonte: JN 

Gestores de topo da Web Summit vão surfar à Ericeira


A Ericeira vai receber o Surf Summit deste ano, de 5 a 6 de novembro. O evento que se realiza em antecipação ao Web Summit, vai reunir executivos mundiais em tecnologia nesta vila onde vão poder participar em actividades de aventura, networking e palestras ao longo de quatro quilómetros da costa portuguesa nos arredores desta vila do concelho de Mafra.
Em comunicado da organização, Paddy Cosgrave, CEO do Web Summit, refere que o Surf Summit deste ano será uma experiência incrível para todos os participantes, ao juntar o melhor da tecnologia e do desporto de aventura em dois dias de networking num local de nível mundial. É a preparação ideal para o próprio Web Summit”.
Nestes dois dias, os participantes terão oportunidade de surfar com alguns dos mais conhecidos surfistas do mundo. Outras actividades incluem mountain biking nas arribas do Lizandro, yoga na praia de Ribeira D’IIhas e standup paddle.
À noite, os participantes poderão jantar e assistir a palestras numa estrutura construída para o efeito, com vista para o Oceano Atlântico e uma after party na discoteca mais antiga de Portugal, o Ouriço.

Fonte: Expresso

Picada de medusa faz três mortes

Três pessoas morreram depois de serem picadas por medusas na costa de East Sussex, Inglaterra. Os animais foram empurrados para a costa pelas correntes quentes e acabaram por ferir mais três banhistas, segundo o The Sun. Há registo de um desaparecido e as equipas de resgate estão no local. As autoridades acreditam que as vítimas sofreram paragens cardíacas quando foram atacadas pelas medusas na água.


Canal do Panamá ultrapassa Suez

O renovado Canal do Panamá, inaugurado no final de Junho, já ultrapassou o Canal do Suez no volume de contentores transportados na rota Extremo Oriente-Costa Leste dos Estados Unidos, de acordo com a Alphaliner.



A consultora indica que a quota do Canal do Panamá naquela rota era de 48% no início do ano e que, após as novas eclusas entrarem em funcionamento, ascende a 57%.
E a tendência de crescimento da quota de mercado do “novo” canal será para continuar, prevê a consultora, já que mais companhias deverão trocar o Suez pelo Panamá. Além disso, sublinha, nem todas as companhias alinharam já nos seus serviços que passam pelo Canal do Panamá navios neo-Panamax.
Ao longo dos últimos anos, várias companhias optaram pelo Suez em detrimento do Panamá, pois no canal egípcio podiam navegar com navios entre 5 500 e 10 000 TEU enquanto no centro-americano se ficavam, até ao mês passado, pelos 4 000 a 5 000 TEU dos navios Panamax (os neo-Panamax rondam os 10 000 TEU). Era, de resto, a enorme diferença de capacidade que justificava a opção pelo Suez na rota Extremo Oriente-Costa Leste, já que a distância percorrida é bastante maior.
Fonte: T e N


Estes skates ajudam a proteger os oceanos

Skates são extremamente convenientes: eles ocupam pouco espaço, são facilmente (e barato) mantidos, e eles são um óptimo método de transporte. A Bureo skates traz todas as expectativas do skate, mas também ajuda a salvar os oceanos. A empresa lançou uma nova linha de skates dedicada a salvar a vida marinha, transformaram redes de pesca recicladas em skates.
As redes de pesca dispensadas ou abandonadas no mar oferecem um grande risco aos animais marinhos de todos os tipos. Ao prender-se ao animal, elas podem cansa-lo até a morte, quando não o matam de fome, por não conseguir caçar e alimentar-se.
Um estudo conjunto realizado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e do Programa Ambiental da ONU (UNEP) indica que equipamentos de pesca descartados respondem a 10 por cento de todos os resíduos marinhos. Isso é um total de 640 000 toneladas de lixo por ano. Algumas das redes perdidas no mar podem chegar a até 10.000 metros de comprimento, muito o suficiente para prender e matar milhares de animais marinhos.
Fonte: Ideagrid

Barreira de cem metros para limpar oceanos

O projecto Ocean Cleanup descreve uma barreira de borracha que flutua e que ajuda a limpar os oceanos. O protótipo mede cem metros, mas o plano final inclui uma barreira de quase cem quilómetros.

O Protótipo vai ser colocado no Mar do Norte e, se tiver sucesso nas condições adversas, o Ocean Cleanup poderá chegar a outros locais, como o Pacífico, para ajudar a reduzir o lixo que aí se encontra. Os mentores do projeto pretendem reduzir aí o lixo para metade, ao longo dos próximos dez anos, ou seja, recolher cerca de 60 milhões de quilos, noticia o Engadget.
Jeffrey Drazen, da Universidade do Hawai, alerta que esta barreira flutuante, de dois metros de altura, pode ter um impacto ainda desconhecido na vida animal e pode até funcionar como um bloqueio à expansão dos animais.
Allard van Hoeken, da organização não governamental holandesa que lançou este projecto, explica que «fizemos anos e anos de modelação por computador e simulações com sucesso. Agora, estamos prontos a testar a nossa tecnologia em condições reais».



Serão os oceanos a economia do futuro?


Serão os Oceanos a economia do futuro? Num momento em que tanto se ouve falar do mar e dos Oceanos, no fim de contas, no que é que isto se traduz? Qual é o impacto presente e futuro? Que vantagens económicas poderão advir? O que é que está ser feito? Enfim, as questões são muitas, mas nada melhor que começar pelos factos: mais de 2/3 das fronteiras da União Europeia (UE) são costas e espaços marítimos; 23 dos (ainda) 28 Estados membros da UE têm zonas costeiras, representando mais de 70% das fronteiras externas da União. O reflexo em termos económicos é enorme, sendo que cerca de 40% do PIB da UE é gerado nas regiões costeiras e 75% do volume do comércio externo da UE é efectuado via marítima. É inquestionável: Os mares e Oceanos têm assim o potencial de se tornarem num dos principais factores de desenvolvimento económico de países costeiros como Portugal. Através dos seus recursos biológicos, geológicos, minerais, biotecnológicos e dos recursos energéticos renováveis, estes países podem posicionar-se em sectores e nichos de actividade que, directa ou indirectamente, se relacionam com o mar e com o Oceano e há uma janela de oportunidade que, se aproveitada, terá reflexos significativos para os diversos sectores económicos.

O Oceano é, claramente, a nova fronteira da economia e um factor essencial na diferenciação do nível de desenvolvimento dos países. Mas a concretização de todo o potencial proporcionado pelo Oceano exige abordagens pragmáticas, responsáveis e sustentáveis relativamente ao seu conhecimento, desenvolvimento económico e à preservação ambiental. No que se refere a Portugal, há já algum trabalho feito, mas é preciso acelerarmos o ritmo. Temos capital humano com bons conhecimentos técnicos e formação, temos a ciência ávida por oportunidades, temos a indústria a necessitar de desafios, temos incentivos financeiros disponíveis para fomentar a “Economia Azul”, e dispomos do activo Oceano. Portugal tem uma Zona Económica Exclusiva (ZEE) com uma importante localização estratégica em razão da proximidade com África e com a América e temos que criar condições que nos capacitem para a gestão e exploração desta nossa condição relevante. Uma actividade marítima próspera para Portugal e para a Europa passa pelo aproveitamento do potencial existente ao nível da biodiversidade oceânica, dos centros de investigação e desenvolvimento tecnológico, dos transportes marítimos e portos, dos recursos pesqueiros, do turismo, da reparação naval, entre outros novos usos que o mar tem e que promete ter no futuro.

Por parte do Estado, o reforço da iniciativa política a nível internacional para projectar uma liderança de Portugal neste capítulo é indispensável. As mais recentes políticas europeias revelam já o enorme esforço feito na valorização dos mares, em que é prioritário o aproveitamento do potencial dos oceanos, dos mares e das zonas costeiras da Europa, para a criação de emprego, valor e sustentabilidade. Iniciativas de fomento do conhecimento do meio marítimo, facilitando o acesso dos profissionais aos dados do meio marinho, mas também aos cidadãos em geral para que possam participar nas decisões sobre as zonas costeiras e os mares são indispensáveis. A vida de milhões de pessoas está directamente dependente dos oceanos e mares, enquanto fonte de alimentos e de energia, via de comércio e de comunicação e elemento de atracção recreativa e paisagística para o turismo das regiões costeiras e o seu contributo para a prosperidade económica das gerações presentes e vindouras não pode, nem deve ser subestimado.

Advogada e sócia da PBBR – Sociedade de Advogados, RL no Expresso

Até quando vamos ter peixe?

Há um apetite voraz por peixe. O seu consumo duplicou, a nível mundial, nos últimos 60 anos, e a tendência é continuar a crescer. Não é para menos: é riquíssimo em nutrientes essenciais. Mas a poluição, as alterações climáticas e a sobrepesca põem em risco a sobrevivência de algumas espécies. E quem está disposto a abdicar do bacalhau e da sardinha?

Célia Rodrigues tem as mãos todas estragadas. Arranhões, cicatrizes, manchas vermelhas. São o seu instrumento e usa-as nuas, sem proteção, para puxar os sacos de ostras, arrancar algas, eliminar um caranguejo intrometido. Filha mais velha de um armador de Peniche, começou a andar embarcada quando ainda mal sabia nadar. Apanhou sustos de morte, esteve dias inteiros a vomitar, fez juras de não voltar. Mas não conseguiu fugir ao destino. “A minha mãe nunca quis que eu estivesse ligada a esta vida, mas …” conta, enquanto nos mostra a sua produção de ostras, em Setúbal. Primeiro quis ser “varredora de mares”, depois bióloga marinha. Acabou na produção animal e passou muitos anos em aquacultura. “Eu é que fazia tudo, mas trabalhava para outros.” Há quatro anos, decidiu montar a sua própria empresa, a Neptune Pearl, dedicada à criação de ostras, camarão e erva salicórnia, que vai muito bem a acompanhar.
A produção acontece em salinas abandonadas, no estuário do rio Sado. Ao todo, há 500 mil ostras a crescer, e os 200 quilos que apanha por semana quase não chegam para as encomendas. Vende para França e para a Galiza, onde fica o mercado de Vigo, líder europeu em descargas de peixe fresco, e ainda para alguns chefs nacionais. A sua ostra tem fama, porque apresenta uma boa proporção entre a quantidade de ‘carne’ e a de água e casca. Célia consegue uma taxa de 25% no chamado “índice de condição”. Sendo que a partir de 15% as ostras já são “consideradas especiais”, sublinha. Há o clima da Península de Setúbal, as águas favoráveis do estuário e, claro, os ‘mimos de mãe’ com que a produtora revira e agita os sacos ou as gaiolas com ostras mergulhadas na água, retira as algas, verifica se alguma está estragada e elimina os caranguejos invasores. Neptuno, o rafeiro alentejano que às duas da tarde se esconde do sol na casa de apoio, ajuda a afastar os ladrões.
A situação ainda não é a ideal. A produtora sonha com uma aquacultura integrada, em que no mesmo espaço se consiga produzir toda a cadeia alimentar. Com ostras, macroalgas, peixes herbívoros e peixes carnívoros. Mais fácil de dizer do que de fazer. “Demora 30 anos até percebermos como funciona uma espécie num sistema de aquacultura”, nota. Mas o caminho terá de ser esse – porque, para alimentarmos o nosso apetite, não há outro.

O ALIMENTO DA MODA

O consumo de peixe tem vindo a subir constantemente. No último relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), revelado na semana passada, aponta-se para um consumo anual per capita a ultrapassar os 20 quilos – o dobro do valor nos anos 60 do século passado. Ou seja, o crescimento na procura de peixe ultrapassa muito o aumento demográfico. O primeiro tem vindo a crescer a uma taxa de 3,2% ao ano, desde 1961, enquanto a população segue a um ritmo de 1,6% ao ano.
Vários fenómenos concorrem para isto. O peixe é um animal rico em vitamina A, D e B, minerais, proteínas e, no caso dos peixes de profundidade como o salmão e o atum, uma excelente fonte de ácidos gordos essenciais, como o ómega 3, que o nosso organismo não consegue sintetizar. É, por isso, obrigatório numa dieta equilibrada. Com o crescimento da classe média no continente asiático, há cada vez mais gente a procurar esta proteína de qualidade, que já representa 17% da consumida a nível mundial. A ajudar, há a má fama que vem agarrada à carne vermelha e aos enchidos, que tem desviado os consumidores. Mas como é que vamos conseguir dar de comer aos dez mil milhões de pessoas que deverão habitar na Terra em 2050?
Um estudo feito ao longo de 15 anos sobre a evolução das pescas a nível mundial, entre 1950 e 2010, revela dados “alarmantes”, classifica um grupo de cientistas num artigo publicado na revista Nature, no mês passado. No documento The Sea Around Us (“o mar à nossa volta”) diz-se que a captura de peixe tem vindo a decrescer à razão de 1,22 milhões de toneladas por ano, desde 1996 – o ano recorde no que toca às pescas. Esta avaliação é bastante mais drástica do que a feita pela FAO, que para o mesmo período aponta uma diminuição de 0,38 milhões de toneladas ao ano. Só a aquacultura tem permitido sustentar os níveis de consumo.
Quanto aos culpados, nisto estão todos de acordo: a degradação do habitat marinho devido a práticas de pesca destrutivas, a poluição industrial, alterações climáticas e urbanização das zonas costeiras. Como de costume, uns vão sofrer mais que outros. Os países mais em risco estão nas latitudes mais baixas, onde a alimentação depende muito da pesca selvagem. Curiosamente, os problemas com as reservas de peixe começaram nas regiões de latitudes mais altas, no Atlântico Noroeste, com a industrialização das pescas. A preocupação com a gestão de recursos e a introdução da aquacultura vieram permitir alguma recuperação. “Só assim temos conseguido manter o aumento da produção”, sublinha o biólogo marinho David Abecasis, do Grupo de Investigação Pesqueira da Universidade do Algarve.
Quando o assunto é peixe, os portugueses põem-se em sentido. Estamos no topo da lista de consumidores, a nível mundial (aparecemos em terceiro, quarto ou quinto lugar, consoante o organismo que faz a avaliação e a metodologia usada), mas estamos quase totalmente dependentes. “Se contássemos só com a produção própria – pescas e aquacultura –, ficaríamos todos os anos sem peixe por volta do dia 30 de março”, diz David Abecasis.

DOIS ANOS PARA ‘FAZER’ UMA DOURADA

O pequeno trator aproxima-se do tanque de uma antiga salina e vai largando uma nuvem de poeira. Milhares de bocas vêm à superfície. Os peixes reconhecem o barulho e estão habituados à rotina. Todos os dias, de manhã e ao final do dia, são alimentados com ração. A máquina anda à volta do tanque, obrigando douradas e robalos a ir à caça da comida. Por cima dos reservatórios, uma rede protege-os do ataque de corvos marinhos – chegam a devorar 30% da produção. Ou até a dizimar todos os peixes, quando os que escapam ao ataque entram em stresse, fogem e acabam por morrer de asfixia.
Como o Sol já vai alto, só aparecem douradas, um bicho que está sempre pronto a comer. É omnívoro e tudo lhe serve. Já o robalo, carnívoro, prefere a noite para se alimentar. Edo Alexandre, dono e gestor da exploração, obriga os peixes a andar de um lado para o outro para “ganharem músculo”. Gasta mais dinheiro em gasolina, mas a sua aposta é na qualidade. E quem lhe compra valoriza. Vende a dourada a sete euros o quilo e o robalo a mais meio euro (o preço é definido em função do valor da dourada). Mantém um regime semi-intensivo, o mais comum em Portugal, onde os animais são alimentados a ração, mas também beneficiam dos bivalves e outros animais pequenos misturados na água do Sado que enche os 27 tanques. Ao todo, vivem ali 320 mil peixes. Chegam com 10 gramas, vindos das maternidades, e saem com 400 – o chamado ‘tamanho dose’ – ao fim de um ano e meio, dois anos. Às vezes, deixa-os ficar até ao quilo e meio, e aí são quatro anos de estadia. “As pessoas costumam pensar que isto aqui é como nos aviários. Que se faz um frango em meia dúzia de meses”, desabafa o presidente da Associação Portuguesa de Aquacultura, Fernando Gonçalves. Outra ideia feita que se esforça por destruir é a de que vai tudo corrido a antibióticos. “Agora o que se faz é prevenção. Reduzem-se as densidades, o stresse a que os animais estão sujeitos, e vacinam-se. Quando aqui chegam estão protegidos contra as doenças da infância”, conta Edo Alexandre. Mesmo assim, admite, “ainda vai demorar muito até os consumidores deixarem de associar os antibióticos à aquacultura”.
Em Portugal, só há duas explorações a funcionar em regime intensivo: uma em Sines e outra na Madeira. Neste tipo de explorações, em jaulas, há uma grande concentração de peixes, e em alguns casos aumenta-se a temperatura da água para acelerar o crescimento (abaixo dos 12ºC, douradas e robalos deixam de comer e perdem peso). Na Europa, o campeão da produção intensiva é a Grécia. Vem daqui boa parte do que se encontra à venda nos hipermercados. O outro grande fornecedor é a Turquia. Mas a aquacultura não pode ser a única solução, até porque as rações são feitas à base de outros peixes. Para produzir um quilo de dourada, gasta-se um quilo e meio de ração seca, o que pode equivaler a quase cinco quilos de peixe húmido. “Se estivermos a pensar só em peixes carnívoros, não resolve. O objetivo deverá ser encontrar uma espécie herbívora com um sabor que agrade aos consumidores”, defende o investigador do Centro de Ciências do Mar, Adelino Canário.
“Com uma gestão adequada, conseguiríamos os 160 milhões de toneladas que consumimos anualmente só com peixe selvagem”, garante o biólogo David Abecasis. A Europa começa a dar alguns passos importantes neste sentido. A par da definição dos tamanhos mínimos de captura, para assegurar que o animal chega à fase adulta e se reproduz (conseguindo fazer o dito recrutamento), há as interdições à pesca quando os stocks estão mais fragilizados e ainda a definição de quotas de pesca. Para breve está a proibição de atirar peixe fora. “Na pescaria do camarão, 80% do que é apanhado é lançado à água”, exemplifica David Abecasis.
O professor da Universidade do Algarve, Jorge Gonçalves, admite a dificuldade em controlar o processo. “Portugal até está bem organizado. Todo o peixe vai parar à Docapesca, que contabiliza tudo o que é pescado. Atingido o limite da quota, deixa de ser possível vender. Mas noutros países, mesmo europeus, não é bem assim.” E depois de termos posto em risco os grandes carnívoros, como o atum e o bacalhau, de estarmos e dar cabo dos robalos, poderemos estar a comprometer a nossa cultura gastronómica – e abdicar dos nutrientes essenciais que o peixe nos dá. “A própria indústria da pesca vai ter de se autorregular, ou perdemos todos.”
Fonte: Sara Sá – Visão

"Caçadores" do tsunami de 1755 encontram sinais da onda em praias do Algarve

Investigadores procuraram e encontraram vestígios da maior catástrofe natural a afectar Portugal. Nas zonas baixas, a água chegou a mais de um quilómetro da costa.

Pedro Costa é investigador do Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e costuma identificar-se a si próprio como “caçador de tsunamis”.
Ele e uma equipa internacional de 11 investigadores de várias áreas andaram nos últimos anos à procura dos efeitos do tsunami de 1755 (a que também se pode chamar maremoto) na costa algarvia.
Um trabalho que pode parecer uma curiosidade, mas que tem utilidade prática pois ajuda a prever os efeitos de um evento semelhante no futuro e a perceber de quanto em quanto tempo é que Portugal costuma ser atingido por um tsunami tão grande.
No limite, espera-se que no futuro este tipo de estudos também resolva um mistério cuja resposta não reúne consenso entre os especialistas: qual foi o epicentro do terramoto que gerou o tsunami do século XVIII.
O investigador explica que o trabalho que já fizeram através de análises das areias em várias zonas do Algarve ou fotografias aéreas de radar permitem perceber que o tsunami de 1755 foi o único em três mil anos na costa portuguesa.
O último estudo, publicado há dias na revista científica Geomorphology, faz exactamente o retrato dos efeitos desse maremoto histórico nos cordões dunares do Algarve, nomeadamente na zona de Alcantarilha e Salgados, entre Armação de Pera e Galé.
Como encontrar sinais do tsunami
Pedro Costa admite que não é algo óbvio, mas é possível a qualquer pessoa menos experimentada, com algum esforço, encontrar em várias praias do Algarve sinais do tsunami que ‘varreu’ a costa em 1755.
O geólogo dá alguns exemplos e explica que na praia dos Salgados ou da Boca do Rio basta escavar menos de um metro para encontrar camadas arenosas relacionadas com o tsunami.
Além das areias, também há praias onde se encontram blocos de pedra diferentes do habitual, com conchas típicas de zonas mais profundas, trazidos para terra pelo evento de 1755.
Esses sinais que podem ser do tamanho “de uma melancia ou de um carro” são visíveis em algumas zonas do Algarve, mas também em Cascais, nomeadamente na Boca do Inferno ou no Cabo Raso, onde existem blocos que chegam a ter 50 toneladas e que foram “chutados” durante vários metros para terra pelas ondas do tsunami.
Fonte: TSF