Está na hora de investir e financiar o Mar.

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Miguel Marques, partner da PwC, na área da Economia e Finanças do Mar, apresenta seu ponto de vista sobre o potencial deste sector crucial para o futuro do país. “Quem contempla a linha do horizonte no estuário do Tejo, não pode ficar indiferente à azáfama de entrada e saída de navios cruzeiros, de grande dimensão, que fazem escala no porto de Lisboa. Assim como quem observa o mar na foz do Douro, não pode ficar indiferente ao cruzar do seu olhar com inúmeros navios que formam um ‘comboio flutuante’ de importações e exportações. Ou quem teve o privilégio de festejar a passagem do ano na Madeira e se deparou com o maior número de sempre de navios cruzeiros que escolheu esta nossa ilha para entrar no novo ano.

Ou quem visita Sines, não pode ficar indiferente à cada vez maior dimensão e número de navios de nova geração, encarregues de abastecer portos-mãe de grande profundidade, cumprindo a sua missão na cadeia logística. Ou quem passeia na baixa das nossas cidades, não pode ficar indiferente, quando repetidamente encontra belas montras, de produtos gourmet, que expõem embalagens portuguesas de conservas de peixe, vestindo o nosso pescado com o mais sofisticado design português, que os turistas tanto têm apreciado.

Ou quem embarca nos nossos aeroportos ou utiliza caixas de multibanco, não fica indiferente ao exemplo de cooperação de competidores que se uniram para tornar mais conhecido “o melhor peixe do mundo”. Ou quem, na hora de ponta, parado em enormes filas de trânsito, não pode ficar indiferente à beleza do Atlântico nos Açores, repleto de imponentes cetáceos, atores principais de vários outdoors espalhados pelas nossas cidades, promovendo a excelência do turismo natural dos Açores.

Ou quem ruma ao Algarve, não pode ficar indiferente à quantidade de pessoas, de várias nacionalidades, que desfrutam das maravilhas das praias da costa sul de Portugal. E quem, navega pelas redes sociais ou se desloca a pontos conhecidos da nossa costa, não fica indiferente ao arrojo dos ‘novos lobos-do-mar’ que cavalgam ondas gigantes, atraindo milhares de turistas e praticantes ao nosso país.

Das inúmeras conferências que se têm realizado sobre o mar, não se pode ficar indiferente à diversidade de entidades e pessoas presentes, desde pescadores, trabalhadores portuários, militares, empresários, cientistas das mais diversas áreas, políticos de todos os quadrantes, associações de todos os sectores, estudantes e cidadãos comuns.

Todos estes factos da realidade actual de Portugal, se têm traduzido também em números, como por exemplo os fornecidos pelo LEME – Barómetro PwC da Economia do Mar, que indicam que, num contexto muito difícil da economia nacional, entre 2008 e 2012, os movimentos médios mensais de contentores no conjunto dos portos nacionais cresceram 28%, o valor das exportações dos produtos da pesca a preços constantes cresceu 39%, o movimento de passageiros de navios cruzeiros no conjunto dos principais portos nacionais cresceu 46% e a produção nacional de aquacultura cresceu 38%.

Infelizmente, em simultâneo com a excelente performance de diversos sectores da economia do mar e, apesar dos esforços de muitas pessoas e entidades em tentar reverter atrasos, existem ainda grandes fragilidades na formação e treino marítimo, na construção naval (que, apesar de todas as adversidades, em 2012 cresceu em termos de volume de negócios) e no transporte marítimo nacional, que aliadas à redução do orçamento da marinha, trazem uma forte preocupação à sustentabilidade futura da economia do mar em Portugal.

Esta dicotomia, entre sectores com excelente performance e sectores com dificuldades, faz com que os progressos que se têm alcançado em termos da criação de valor através do mar tenham a consistência da flor de sal, que, se por um lado com uma leve pressão pode quebrar, por outro lado tem o grande valor de existir e, acima de tudo, de resultar, em grande medida, de um esforço de centenas de pessoas e entidades que com a sua energia colocaram o mar numa trajectória crescente de importância.

Acredito que se fosse efectuada uma sondagem por todos os que, a partir da base, estão a construir a economia do mar do futuro, sobre qual deveria ser a estratégia de Portugal para o mar, a grande maioria substituiria grandes reflexões sobre o tema por verbos de acção, tais como, implementar, desburocratizar, formar, preservar, pescar, processar, investigar, prospectar, nadar, mergulhar, navegar … Se tivesse que escolher um ou dois verbos de acção que considero prioritários, nesta fase, não hesitaria em escolher financiar e investir.

Está na hora de potenciar a dinâmica que o mar está a criar nos portugueses, reforçando-a com financiamento e investimento nas actividades do mar.

Fonte: Nysse Arruda Sailing

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