"Se puder, quero organizar campeonatos de surf para sempre"

Francisco Spínola. “Se puder, quero organizar campeonatos de surf para sempre”

Responsável pelo maior evento de surf combinado da Europa, Francisco quer acima de tudo que se fale de Portugal

Quem trabalha com ele critica-o por evitar conflitos a todo o custo. “Mas esse é o meu tipo de gestão e não sou de entrar em guerras se isso não for produzir nada”, explica. Por outro lado, a capacidade para criar consensos fê-lo incluir Portugal no mapa do surf mundial durante dois meses pela primeira vez, como acontece no Havai no fim da época. Se tivesse de fazer um elogio a si mesmo, sublinharia o facto de “trabalhar que nem um cão”, ao ponto de ter interrompido a lua-de-mel para se ir enfiar em reuniões na Califórnia. Patriota – e não diz isto “para ficar bem” -, acredita de facto no potencial do nosso país e, em vez de “ir fazer eventos de beach volley para mercados emergentes”, optou por ficar cá, a dedicar-se àquilo de que mais gosta – organizar campeonatos de surf.

Já tinhas um plano quando foste para a Austrália?
Não, não tinha. Fazia campeonatos de surf, nunca fui dos top mas ainda fiz Pro Juniores. Competi contra o Saca e outros da nossa geração e hoje em dia faço surf sempre que posso. Na altura já tinha acabado a universidade, feito um estágio, e não sabia bem o que fazer. Era novo, tinha para aí 23 anos, e decidi ir para a Austrália fazer um mestrado em Gestão. Primeiro fui para a Gold Coast, para teres ideia do ponto a que ia centrado no surf… Comecei na Central Queensland University, mas depois fui para Sydney. Sou de Lisboa, gosto de surfar, mas adoro a vida da cidade. A Gold Coast é muito gira, mas é uma vilazinha e a cidade mais próxima é Brisbane. Para ir ao cinema tinha de andar uma hora e meia de carro, o que para eles não é nada, vão lá jantar e vêm, mas para mim é o mesmo que ir jantar à Nazaré e voltar, é giro fazer uma vez ou outra mas por sistema não dá.

E como foi depois, em Sydney?
Em Sydney, passava a maior parte do tempo na Universidade de New South Wales, que fica atrás da zona de Bondai, onde são as praias urbanas e onde eu morava. Acabei o mestrado aí, depois voltei para cá e comecei a trabalhar numa marca de champôs (nada a ver!), mas nunca perdi o contacto com o mercado do surf, apesar de estar numa área completamente diferente. Entretanto surgiu a oportunidade de ir trabalhar para a Rip Curl – fui a uma entrevista através de uma agência de recrutamento -, porque era preciso criar um departamento de marketing cá.

E foi aí que tudo começou.
Sempre gostei de trabalhar em eventos e, no primeiro ano que lá estive a trabalhar, fizemos um Pro Júnior que correu muito bem, numa altura em que o Andy Higgins, que era o manager de eventos internacionais da Rip Curl, estava aflito porque não sabia onde iam fazer o campeonato Search porque tinham sido proibidos de surfar na onda onde queriam fazer o evento, na Austrália. Os locais não queriam e a filosofia do campeonato era não forçar. Por isso decidiram tentar cá, eu comecei a mexer-me, mas apercebi-me de que nesse ano, 2008, já não ia ser possível. Já estávamos muito em cima da data e decidiram ir para Bali porque era mais fácil para os australianos. Mas fiquei com as antenas no ar e comecei logo a trabalhar para o ano seguinte, porque queria juntar uma panóplia de patrocinadores, chegar à Rip Curl e dizer: “Aqui têm, preenchi todos os requisitos.” Levei tudo o que havia sobre a onda de Supertubos, os acessos, a flexibilidade da zona, e fiz o levantamento de quantas pessoas podíamos receber. Mostrei-lhes que já tinha financiamento e que não tinha de ser a Rip Curl a entrar com tudo, porque sabia que isso ia ser muito importante na decisão, ainda por cima com a crise a bater forte em 2009. A partir daí fizemos o Search, foi um grande sucesso, altas ondas, o povo é muito hospitaleiro e o nosso serviço é excelente, embora as pessoas achem que não, e essa é uma das razões que fazem os turistas voltar. Todos eles, os surfistas e a ASP, disseram “isto merece um público de massas”, “estes gajos têm de ficar com esta prova” e o evento passou a ser uma licença permanente, com renovação até ao ano passado, que foi quando se deu a transferência para a minha empresa porque entretanto a Rip Curl começou a não se querer atravessar. E eu, sabendo que no ano a seguir ia haver toda uma nova organização, que ia entrar com outros patrocínios e que portanto aí o risco já ia ser menor, disse “vou arriscar”, porque se este ano não tivesse havido evento, ia ser muito difícil recuperarmos o lugar. Olha Mundaka: decidiram parar um ano e nunca mais recuperaram o lugar, e isso era o que eu não queria. Por isso agarrei o comboio e mantive-o a andar.

Sim, mas não só fizeste um evento como organizaste mais três…
Sim, mas isso foi para apresentar escala à Association of Surfing Professionals, a ASP. Sabemos que os espanhóis estão desejosos de ter um World Championship Tour e era a nossa força contra a deles que estava em questão. Eles facilmente faziam dois primes e depois diziam: “Atenção que nós queremos ter uma prova do circuito mundial.” E nós tínhamos um player que era a Câmara Municipal de Cascais, que depressa percebeu a importância do surf para o município e para Portugal e que queria juntar-se ao evento, criando condições para, não só mantermos o WCT cá, mas também para termos o maior evento de surf combinado da Europa. E eu, porque tenho uma visão disto a longo prazo – considero que os campeonatos devem ser feitos onde as ondas são melhores, porque é isso que os surfistas procuram, mas sabia que Cascais também tem altas ondas -, sentei-me com os presidentes das câmaras de Cascais e de Peniche, que deram o exemplo de como por vezes é importante pôr o interesse nacional à frente dos interesses locais, falámos, e surgiu esta oportunidade – também em conjunto com os Açores, que mais tarde se juntaram – de termos dois WQS primes, World Qualifying Series, e um WCT masculino. Quanto ao WCT feminino, já existia uma prova em Cascais do WQS, na altura podíamos fazer o upgrade desse evento para o último WCT da época e pensei “vamos agarrar nisto e coroar a campeã do mundo em Portugal”. Eles acreditaram, juntamente com a EDP, e a verdade é que o fizemos.

E este ano só nos circuitos masculinos da ASP Portugal representou 11% do prize-money total…
E na Europa 50%, porque, além de nós, só França organiza campeonatos. O regulamento da ASP só permite duas licenças por região, mas isso agora está a ser alterado e, à partida, para o ano vai dar para incluir Margaret River (Austrália). Isto foi uma forma de conseguirmos ganhar escala num ano de transição, em que tudo é incerto e está tudo a torcer o nariz às novas mudanças, e foi claramente um sinal nosso a dizer: “Estamos aqui para continuar e para mostrar que Portugal tem altas ondas e que os governantes acreditam que isto pode ser um motor de desenvolvimento económico para as regiões.” Durante este ano, a Região Oeste apercebeu-se disto e entrou com uma ajuda especial, todos os municípios participaram para conseguir ter a prova na região. Isto beneficia muito mais que a quintinha de cada um, se formos ver a quantidade de vídeos com as nossas ondas na internet… Este ano era a Nazaré que estava a bombar porque estava com altos fundos. Era o Kelly Slater na Nazaré, o Mick Fanning na Nazaré, os brasileiros na Nazaré, o John John Florence foi surfar ao Guincho e depois foi andar de skate para o Parque das Gerações, há vídeos? Podem dizer o que quiserem, Portugal não tem as melhores ondas do mundo, nem pouco mais ou menos, mas tem uma consistência muito grande, aqui há sempre ondas e as distâncias são pequenas. Repara na quantidade de ondas que há de Lisboa até à Nazaré – reef breaks, point breaks, funcionam com sul, oeste e é isso que nos diferencia. Aquela campanha do Turismo de Portugal “Our deal: no waves, come back for free”, é claramente uma aposta nisso. Penso que o Turismo, finalmente, começou a investir nos eventos e nas activações nos próprios eventos. Não é “ah, temos cá um evento” e pronto. Participaram, fizeram promoções, criaram um site (portuguesewaves.com), onde explicam as ondas todas, e estão a envolver-se não só do ponto de vista do paga o cheque mas a longo prazo.

Já existe um umbrela sponsor para o WCT e se já existe vai aliviar os produtores locais?
Vamos trabalhar todos em conjunto e a figura da licença vai deixar de existir, portanto nós, os produtores, já não temos a obrigação de a adquirir e passamos a fazer parte da família ASP. Vamos trabalhar todos em parceria e já não é aquela coisa do paga-me uma licença, paga-me os prize-money e agora safa-te. Estamos todos muito mais unidos e, por exemplo, nessa questão dos patrocínios, vamos passar a fazer reuniões com todas as células locais, com o Michael Lynch, que é o director de Marketing e Business Development da ASP, e ninguém toma decisões de forma unilateral. E isso faz todo o sentido, vamos poder promover a prova de Portugal em França, que fica a oito horas de carro e acontece antes da nossa, e assim criamos uma coerência do próprio circuito. Por exemplo, neste momento existem três ou quatro heat analizer diferentes, vais ao site da Quiksilver, eles têm um, a Rip Curl tinha outro, e não fazia sentido. Há pormenores importantes do ponto de vista do utilizador de que as marcas têm de abrir mão. As pessoas gostam de coisas standard. Depois, claro, há alguns críticos que dizem “ah, vai ser tudo igual e vai-se perder a essência do surf”, mas eu não acredito.

E qual vai ser o peso das marcas de surf no meio de tudo isto?
Creio que as marcas, na maioria das etapas, vão continuar a ser o naming sponsor das provas. Mas isso ainda está a ser definido. Houve uma entrada de capital forte, como toda a gente sabe, e por isso é que as coisas estão a ser bem feitas. Os produtores locais estão preocupados com ter dinheiro para fazer o seu evento, e eles com acrescentar valor para a audiência. Fizeram agora acordos com a ESPN, com o YouTube e com o Facebook. Aqui em Portugal, ao contrário do que achamos, temos estado muito à frente, aquilo que já fazemos com a PT, que é o nosso main sponsor, é o que eles estão a tentar fazer agora. Com a PT fechámos acordos de media commedia partners grandes, para que, ao patrocinar a prova, a PT ganhasse automaticamente exposição dentro dos próprios meios de comunicação social. É isso que eles estão a fazer. Primeiro estão a fechar grandes acordos de media para depois chegarem ao pé das grandes marcas e lhes dizerem: “Olha, nós conseguimos falar para todas estas pessoas.” E são poucos os desportos que conseguem fazer isso, ter uma liga global. Por exemplo, o futebol está dividido entre a FIFA, a UEFA…

Quais vão ser as tuas obrigações para o ano?
Vão ser as mesmas, mas antigamente ficávamos com a corda no pescoço e hoje não. A ASP é só uma e, se não houver dinheiro para se fazer em Portugal, tem de se fazer noutro lado. Agora claro que vou fazer os possíveis e os impossíveis para conseguir aguentar o evento aqui. No dia em que tudo estiver estruturado e entrarem players internacionais, talvez aí comecem a aliviar os organizadores locais. Mas não sei, sabemos que os prize-money vão aumentar, a ideia é fazer crescer o desporto e não “ah, fazemos com 1,5 e arranjamos 1,6”, “amanhã conseguimos 2 milhões, vamos ganhar mais dinheiro”… A ideia, e é disso que eu gosto neste projecto, é nós, todos juntos, fazermos crescer o desporto. Obviamente que os parceiros locais são remunerados por isso, têm a sua quota- -parte, porque isto é uma empresa que passa a ter uma organização global e eles vêm aqui e, em vez de terem de montar um escritório, chegaram e tinham tudo. Quando há dois anos me disseram que ia entrar um grupo americano grande, disse “estes gajos vêm com uma visão global de negócio, portanto vão-se estar nas tintas para organizar o evento de Portugal, como é óbvio”. Mal deles, coitados, morriam! Eles querem que a prova se mantenha cá, para sempre se for possível – gostam da onda, do país, do sol, da comida, as pessoas são simpáticas, isto tem tudo para dar certo. Só quem não quiser ver é que não vê.

Com a crise a obrigar as marcas de surf a fazerem cortes drásticos nos custos e no pessoal e a fecharem lojas, isto é mesmo um bom negócio?
Acho que é fundamental as pessoas perceberem que isto é um bom negócio para Portugal, além do impacto mediático, de que toda a gente sabe, embora os media não paguem contas. Imagina que desses 8 milhões (segundo um estudo realizado pelo Instituto Politécnico de Leiria a etapa de 2012 gerou 7,9 milhões de euros em receitas) que entraram em IVA e IRC, impostos directos, 30% vinham de investimentos de turistas estrangeiros. Se fores fazer as contas, com o dinheiro que é investido, é um retorno enorme. Como muitas vezes só recebemos esses apoios depois dos eventos, no limite, estamos a ser pagos com dinheiro que gerámos para os cofres do Estado, portanto isto é um negócio que se paga a ele mesmo. O investimento público global nestes eventos não chegou a 25% do total e queremos que assim continue, que seja uma parceria saudável, sem estarmos dependentes só de um ou de outro patrocinador. Durante o campeonato os estrangeiros vêm fazer surf, comem nos restaurantes, alugam material… Já está no PENT, o Plano Estratégico Nacional do Turismo, a aposta no surfing e penso que é uma coisa que está para ficar e para crescer.
Esta ideia do Triple Crown é para manter para o ano?
Sim, nós gostávamos de manter, no entanto estamos a ver como podemos criar isto a um nível mais…
Menos disperso em distâncias e datas?
Isso sim. O que fazia sentido, e já discutimos isso com a ASP, era fazer Triple Crowns por regiões com prémios adicionais. Por exemplo, nós este ano, o intervalo que houve entre Bells Beach e o Brasil foi gigante, o tour parece que morreu. Então para nós, portugueses, que temos as etapas australianas em directo à noite e ficamos todos contentes a ver aquilo entre as nove e a meia-noite, que é quando as provas lá estão on se começarem bem cedo… Outra coisa que acho que pode ser melhorada é a questão da própria comunicação da Triple Crown, não passou tão facilmente como queríamos, mas é normal, é o primeiro ano. A data dos Açores deve ser mais colada à das outras duas provas e depois há um milhão de coisas que para o ano, se fizer, vou ter de fazer diferente. Foi o primeiro ano, é fácil haver erros, para o ano também vai haver mas já vão ser menos, e assim será, se Deus quiser, por muitos anos. A aposta de Cascais foi muito boa, já tínhamos Peniche completamente posicionado, e a ideia é que os estrangeiros comecem a perguntar: “E Peniche? E Cascais? E a Nazaré? E a Ericeira…” Que se fale de Portugal. Somos demasiado pequenos para entrar em lutas de bairro.

Achas que a eventual saída do Tiago Pires do WCT pode vir a afectar-vos?
Penso que a eventual saída do Saca do WCT tira um bocado o interesse. Não há dúvida que o Tiago é importantíssimo para nós. Aliás, não sei até que ponto é que esta prova estaria cá em Portugal se ele não existisse. O Tiago é o nosso embaixador e falei mais com ele este ano que nos anos anteriores, sempre a pedir-lhe conselhos para saber a opinião dele. Acho que ele é uma peça fundamental, já o disse várias vezes e, apesar de saber que a decisão da atribuição dos injury wildcards é meramente técnica e não financeira, já o transmiti à própria ASP. O problema é que existem quatro surfistas que se lesionaram, os quatro casos são graves e apenas dois wildcards. Não faço parte do painel que vai decidir isso, agora na parte do business, que é o que me toca, já disse que é muito importante termos o Tiago Pires, depois do investimento que fizemos.

Os campeonatos do Havai (que começaram ontem) não têm nem um décimo das estruturas que vemos em Portugal e em França. O que achas disso?
O que acontece ali é que eles já estão noutra fase, mais avançada que nós, em que os patrocinadores já dão muito mais importância àquilo que se passa nos media do que ao que se passa no evento em si. Perceberam que a activação no local é importante, sim, mas mais importante ainda é a activação para o mundo. Aquela gente toda em Peniche não é só malta que gosta de surf, há muitos que não sabem bem para o que vão, vão lá passear. Agora, no Havai, também acho que podiam melhorar um bocadinho a apresentação [risos]. O que é aquilo? Não é estrutura, não é nada, são umas cabanas. Devia e vai ter de ser alterado agora, com estas transformações todas. Agora o Havai é o Havai e ninguém se pode comparar com o Havai. Por isso talvez tenham de ceder em certas coisas. Se tivesse de decidir, e eu gosto de tomar de decisões, claramente optava por ceder em duas ou três coisas para ter o Havai. E quem disser que não, das duas uma: ou não entende nada de surf ou é burro. Há coisas lá que não se deviam passar e tem de haver uma melhor regulamentação, mas é uma paragem importantíssima. Houve um ano em que entraram em choque e o campeonato do mundo acabou a ser decidido numas marrecas em Narrabeen, na Austrália, com onshore. Fiquei chateado por não ter coroado cá o campeão do mundo, isto do ponto de vista micro, mais uma vez, olhando para a minha quinta, mas, agora tirando a minha camisola e do ponto de vista do surfista sentado a ver o espectáculo, há melhor que ter o campeão na última etapa em Pipeline? Há coisas que só os surfistas percebem e, felizmente, nesta nova organização, apesar de haver muitos que não são do surf, a maioria dos produtores são surfistas, como eu.

Kelly disse ao i que gostava de ver o campeonato estender-se até à Nazaré. Qual é a tua opinião?
Isso do ponto de vista do surfista é fácil de dizer. Para nós o ideal era conseguirmos estar móveis por todo o lado, mas a estrutura é gigante, tem fibra por todo o lado, era giro, era óptimo, era brutal conseguirmos fazer isso, agora do ponto de vista logístico e prático não sei até que ponto seria possível. Que faz sentido faz, lá está, numa lógica das grandes quintas, o ideal é que a prova de Portugal seja sempre a melhor, com as melhores ondas. Mas o Kelly pode pedir o que quiser, é o Kelly!

Mas este ano estiveram mesmo quase a passar a prova para Cascais…
Estivemos. A partir do momento em que afirmámos no início do ano que a prova era móvel, a prova podia ser móvel, mas as razões que me fizeram não mudar de sítio foram as mesmas que me fizeram sempre querer a prova em Supertubos, isto é, as melhores ondas. Enquanto for eu a mandar, não cedemos a pressões monetárias. Se tivermos condições para fazer nas melhores ondas, vamos fazê-lo, sempre. Foi isso que tentámos durante a espera, arranjar as melhores condições. É verdade que no Guincho até estavam umas ondas, mas não estava nada de especial. É aquele tipo de bocas que ouves quando chegas ao pico e perguntas: “Como é que está?” E respondem-te: “Há meia hora estava óptimo.” Fomos a todo o lado à procura das melhores ondas, este ano o WCT foi dos mais complicados que tivemos porque a previsão era muito difícil. A verdade é que o Kelly chegou dez minutos antes do heat, agarrou na lycra e foi para dentro de água. Se nos tivesse dito “não vou surfar, acho que não dá”, parávamos. Não houve reclamações antes, mas também não houve depois. Azar, perdeu, sorte a dele que os outros perderam também.

Houve muita gente a dizer que as suas declarações eram polémicas…
Não achei nada. O mar estava mau? Estava. E então? Mas ninguém quis meter os surfistas num mar mau, aliás o Mick foi no heat anterior. Ninguém quis beneficiar um e prejudicar o outro. Uma coisa era o Mick estar na terceira ronda e o Slater na segunda, aí podia ser mais polémico, mas também podia ter sido o Mick a perder para o Xico [Alves].

És um homem do surf um bocado sui generis porque também apareces em revistas cor-de-rosa (Francisco é casado com Pimpinha Jardim). Até que ponto isso te afectou no início?
Acho que é só aquela coisa das pessoas olharem para mim e dizerem “conheço a tua cara de algum lado”. Não sou nenhuma figura pública, quem é é a minha mulher. Nós, nos nossos eventos, também trazemos muito essa componente, aliás ela até trabalha comigo para criar uma componente de lifestyle, trazer actores e actrizes para os eventos se tornarem mais mainstream. Ninguém lê essas revistas mas toda a gente as lê. Portanto, desde que não seja em exagero, acho que é bom termos essa componente cor-de-rosa. Agora em relação a mim, pessoalmente acho que me ajuda pouco, talvez me ajude no sentido em que acabo por ser convidado para outros eventos onde conheço outras pessoas, agora do ponto de vista “olha, vou-lhe dar um patrocínio porque ele é casado com uma figura pública”, isso não. Ainda outro dia uma revista qualquer dessas veio dizer que me estava quase a separar porque ia na rua a discutir uma coisa qualquer com a minha mulher. Quantos gajos é que aparecem nas revistas cor-de–rosa e estão aí sem fazer nada?

Até quando te vês a fazer a organizar campeonatos de surf?
Se puder, quero organizar campeonatos de surf para sempre. Claro que vou fazendo outras coisas em paralelo, mas, se puder estar envolvido no surf o resto da minha vida, melhor. Neste momento Portugal só precisa de mais dinheiro, mais liquidez no mercado, porque de resto, em termos de pessoas, nisto dos hotéis e do empreendedorismo, ninguém tenha dúvidas que somos um país espectacular. Mesmo. Não estou a dizer isto para ficar bem. Acredito mesmo no nosso país, não sou dos que desistem e se vão embora. Se calhar podia ir e pôr-me a organizar eventos nos mercados emergentes, beach volley… É importante que estes eventos grandes se mantenham cá.


Fonte: Ionline

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