Uma nuvem de preocupação paira sobre a equipa que vigia os golfinhos do Sado. Passa pouco das nove da manhã na Doca do Comércio e o calor atinge os 29 graus. Raquel Gaspar e Marina Sequeira, biólogas da Reserva Natural do Estuário do Sado, entram no semi-rígido vermelho para mais uma acção de controlo da população de roazes (Tursiops truncatus). Comparam os números e concluem que desde o início do ano há seis que estão desaparecidos. “Alguns podem ter-se juntado aos que vivem na costa, outros, como o Asa e o Arpão, eram já muito velhotes?”, dizem, desvalorizando as ausências prolongadas. A população de golfinhos residentes em estuário é caso único em Portugal e raro na Europa.
Nos últimos anos o seu número estava até a aumentar. Em 2011, aliás, chegou quase às três dezenas, mas agora muitos são os que fogem. Hipóteses para explicar o mistério há algumas, mas nenhuma comprovada. Podem ter sido as análises para retirar as células dos golfinhos (biopsias) que os afugentaram? A possibilidade avançada pela empresa de observação de cetáceos Vertigem Azul é de imediato excluída pelas biólogas da reserva: “Foi de facto realizada uma biopsia ao Unicórnio, mas ele continua no grupo”, conta Marina Sequeira. Serão os barcos de recreio que aos fins-de-semana atravessam o rio? É preciso aprofundar ainda mais o estudo sobre as condições de vida destes animais para conseguir respostas, mas a inquietação da equipa acabou por ser minimizada com o nascimento de uma cria após o almoço.
Com a maré vazia e o rio esbranquiçado de alforrecas, o barco afasta-se na direcção da Lisnave, acabando por rumar ao novo cais dos ferries de Tróia. Após meia hora de viagem, duas barbatanas emergem junto à Caldeira. Quando Raquel avisa a tripulação já é tarde: “Estavam ali, pareceu-me ver dois. Estão a subir o estuário e não iam em grupo, devem andar à procura de comida.”
O barco segue na direcção indicada pela bióloga marinha, mas nem sinal dos golfinhos. Desta vez a experiência de vários anos falhou. Eles não estavam a subir o estuário, haviam ficado no sítio onde tinham sido avistados. É junto à Caldeira que, com a maré cada vez mais cheia, se começam a ver vários pares a emergir para respirar. Raquel identifica o primeiro: “Olha, lá está o Esquilo! É um macho que nasceu em 1996…” As repentinas aparições tornaram-se mais demoradas. Eram cada vez mais os golfinhos que rodeavam a embarcação. João Francisco, o vigilante que seguia ao leme com um chapéu branco da Santa Casa da Misericórdia e uns óculos de aviador, brinca: “Agora quase dá para apanhar à mão.”
A expressão fazia mais sentido no fim dos anos 80, quando a população de roazes residentes era de cerca de 40 elementos. “Agora é mais difícil avistá-los e a tendência é para serem cada vez menos. Os últimos quatro a desaparecer juntam-se ao Asa e ao Bocage, que estão fora do estuário desde o ano passado”, lamenta Pedro Narra, responsável pela Vertigem Azul, insistindo nas biopsias.
“No âmbito do plano para a salvaguarda e a monitorização da população residente de roazes do Instituto da Conservação da Natureza, estão a ser feitas biopsias para conhecer a genética e perceber o estado de saúde, mas não sabemos em que moldes isso está a ser feito”, diz Pedro Narra, adiantando que o desaparecimento dos últimos quatro coincide com “o início desta recolha de amostras”. Além da acção de biopsias, atribui as culpas ao aumento das embarcações que se deslocam para o Sado ao fim-de-semana “sem respeitar” o espaço dos roazes. Segundo este responsável, são cada vez mais as empresas não licenciadas que levam turistas a observar os golfinhos. Marina Sequeira garante que “neste momento não existem condições para uma fiscalização mais apertada” e alerta: “Se existem empresas ilegais, nós nunca as detectámos e por isso quem tiver conhecimento deve contactar–nos.”
DOS HOLOFOTES AO DESAPARECIMENTO
Há 14 anos, o Asa protagonizou um dos mais impressionantes momentos televisivos até hoje ao sobrevoar em directo o estuário do Sado içado por um helicóptero da Força Aérea Portuguesa. Hoje – com alguma idade e sem dentes – ninguém sabe dele há mais de um ano. Raquel Gaspar, a bióloga que na altura interrompeu o descanso de uma gravidez de risco para ajudar o golfinho que estava preso num esteiro, admite agora que pode ter chegado a sua vez: “Não nos podemos esquecer de que também morrem…”
“Olha o Escuro ali. Ele é que pode saber onde está o Asa, eram grandes amigos, andavam sempre juntos”, brinca, aligeirando aquilo que o responsável da Vertigem Azul diz ser uma anormalidade. “É normal haver casos de golfinhos que saem, vão ter com os costeiros e aparecem um ou dois anos depois, mas não me recordo de alguma vez terem desaparecido tantos em tão pouco tempo”, remata.
Às onze horas, o barco continua parado e as biólogas já identificaram outras 14 barbatanas. Variando no formato e nas marcas, são elas que permitem distinguir Ligeiro, Mr. Hook, Raiz, Cavalito, Serrote, Topo Cortado, Azul, Vitória, Batalha, Pirata, Moisés, Ácala, Tripé e Bisnau. É nesta altura que João Francisco se lembra de transmitir um recado às biólogas: “Disseram-me que têm andado três golfinhos perto da praia do Meco, será que…” Raquel aproveita a deixa para repetir que o desaparecimento de golfinhos não é nada tão negativo como diz o responsável da empresa Vertigem Azul.
Enquanto Raquel vai registando mais presenças, Marina Sequeira confirma que existem cada vez mais barcos de recreio no estuário aos fins-de-semana: “Da última vez que cá estive fiquei aflita só de pensar como é que os golfinhos poderiam vir à superfície respirar… Não havia espaço.” Para estes casos defende que tem de se apostar na sensibilização, algo que a reserva tem feito. “As pessoas acham piada, por exemplo, quando os golfinhos batem com a cauda na água porque estão habituadas a vê-los fazer isso nos delfinários, mas é um sinal de que querem ficar sozinhos”, diz, esclarecendo que “as pessoas devem respeitar isso e afastar-se”.
ESPERANÇA NO SADO Pouco antes da hora de almoço, os golfinhos reúnem-se todos e começam a saltar fora de água. “Há duas explicações: ou é uma brincadeira ou estão a chamar os outros por algum motivo”, explica Raquel Gaspar, que já os conhece desde 1994. A julgar pelas suas palavras, a resposta para esta felicidade pode muito bem ter sido a nova cria, que se apresentou aos turistas logo após o almoço – o Sapal. O golfinho representa a esperança para um estuário com cada vez menos residentes.
Quando o barco regressou à Doca do Comércio, cerca das 12h30, não se avistava qualquer sinal de golfinhos, o costume. “Às vezes até brincamos entre nós, dizemos que eles também têm hora de almoço”, diz Raquel.
Ao certo não se sabe há quantos anos vivem roazes no Sado, mas o registo mais antigo data de 1863 e dá conta de dois golfinhos. Na época foi o naturalista José Vicente Barboza du Bocage que presenciou o momento. Mais tarde, em 1890, foi capturado um roaz adulto no estuário, cujo esqueleto se encontra no Museu Zoológico da Universidade de Coimbra.” As razões que actualmente estão a conduzir à diminuição do número de roazes no Sado poderão vir a ser conhecidas quando, no âmbito do plano de acção do Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade, forem feitas análises à água e um estudo mais aprofundado sobre a evolução das condições de vida no Estuário. Até que isso aconteça esperam-se notícias do Asa, da Esperança – e da sua cria Nortada -, do Guilhas, do Arpão e do Bocage.
Fonte: IOnline
