José Ferreira: “O Segredo foi começar a encarar o Surf mais a sério, como um trabalho”

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José Ferreira teve em 2013 um ano de afirmação, sobretudo a nível internacional, chegando-se ao pelotão da frente. O surfista da Linha conta-nos como fez a transição que distingue um jovem surfista de um profissional, sublinhado a vontade que tem em vingar num mundo tão competitivo.

Zé falou ainda dos primeiros meses da nova temporada, que estão resumidos em Basics, o vídeo que lançou recentemente, dos objetivos imediatos e futuros, assim como das motivações que tem para 2014, como, por exemplo, a de ser campeão nacional. Está tudo aqui, nesta entrevista com um surfista que só lhe faltam os títulos para confirmar todo o seu potencial.

 

SURFPortugal – Como classificas estes primeiros meses da temporada, onde te dividiste entre a competição e as viagens? A ida à Austrália e Indonésia foi produtiva?

 

José Ferreira – Foi um pouco aquilo que chamamos de “abre olhos”. Deu para conhecer um pouco uma realidade diferente daquela que temos aqui. Deu para ver a competição de outra maneira e começar a encarar a competição e o treino de outra maneira, como um atleta profissional de qualquer outro desporto.

 

Tenho exemplos na minha família de pessoas bem-sucedidas, que trabalham e lutam por aquilo que querem, e penso que em qualquer área da vida não há maneira de fugir a isso. O surf não é diferente e, com a ajuda de algumas pessoas e a minha próprio perceção, percebi que tinha de trabalhar no limite, pensar em surf o dia todo, estar horas dentro de água, pensar em estratégias e no que fazer em determinados momentos nos campeonatos.

SP – Sentes que é necessário ir para o estrangeiro para conseguir aumentar o nível e ter evolução?

 

JF – Sim, sempre. Para mim quanto mais tempo passar fora de Portugal é sempre um bom sinal para o meu surf. Normalmente, quanto mais tempo passo fora de Portugal melhor fico. Pelo menos no meu caso… Passamos muito tempo fora a competir e quando chegamos ocupamos o tempo com os amigos e a família, e há uma tendência para termos mais distrações. Às vezes não passamos tanto tempo dentro de água, em vez de irmos surfar logo às 7 horas vamos só às 8 porque na véspera fomos sair com os amigos. Já lá fora não há desculpas nem tempo para essas distrações. Acaba por ser uma rotina mais natural.

 

SP – Lançaste um vídeo novo [Basics]. Apesar de apostares forte na competição, achas que esta é uma área em que os surfistas têm de ter alguma preocupação, tentando ser multifacetados?

 

JF – Sim, concordo com isso. Hoje-em-dia as marcas avaliam-nos através de números e temos de nos preocupar com a nossa imagem. Campeões do Mundo só há quatro ou cinco, os outros não o vão ser e por isso têm de tentar arranjar outras maneiras de se equipararem a esses campeões. Por exemplo, o John John Florence está melhor em termos de patrocínio do que o Mineirinho porque tem uma imagem forte e talvez tenha trabalhado nela… A imagem é realmente importante.

 

SP – Onde te vamos poder ver nas próximas semanas e com que objetivos imediatos?

 

JF – Este fim-de-semana vou estar na etapa da Liga Moche na Ericeira e o objetivo é vencer. Depois vou ter algum tempo para me preparar para um dos campeonatos mais importantes do ano, que vai ser no México (6 estrelas). Este ano devido às mudanças na ASP há menos campeonatos no WQS e os que há vou ter de aproveitá-los. O campeonato do México vai ser importante e por isso vou-me preparar para lá chegar na melhor forma possível.

 

SP – Estiveste na Galiza onde a primeira prova europeia do ano foi cancelada. Restam agora quatro etapas do WQS na Europa. Não sentes que a nível do WQS europeu ainda há algumas lacunas?

 

JF – Sem dúvida. Mas é um processo que já esperávamos que acontecesse, pois a ASP apostou na reestruturação dos circuitos mundiais. Na minha opinião o surf é um desporto que está atingir uma escala tão grande como o ténis, o golfe, o futebol, por exemplo. O primeiro sinal disso é ter uma das principais marcas do Mundo, como a Samsung a patrocinar o World Tour. No futuro esta aposta irá chegar ao WQS e aos outros circuitos. Acho que era um pouco difícil mudarem já tudo em grande. Penso que no futuro tudo vai melhorar.

 

SP – Olhando para o teu calendário internacional, há algum campeonato onde pensas que é possível surpreenderes e fazer um bom resultado, numa onda que se adeqúe ao teu surf?

 

JF – O México. Pela pouca experiência que já tive no WQS, penso que por melhor que seja a onda para nós, se não estamos a 100 por cento e se não estamos concentrados chegamos lá dentro e podemos perder para alguém que surfa pior, mas que apanha as melhores ondas. Independentemente da qualidade das ondas, penso que importante é termos boas estratégias e bons métodos de treino e aplicá-los na competição. No ano passado passei alguns heats no México, o que é um ponto a favor, mas não penso que seja isso que me vá fazer ganhar ou perder.

 

SP – Os resultados de destaque alcançados pelo Frederico Morais e pelo Vasco Ribeiro dão-te ainda mais confiança para chegar longe e, quem sabe, entrar no top 100 mundial?

 

JF – Sim, claro. Tenho estado bastante com o Vasco e temos surfado juntos. Puxamos bastante um pelo outro, o que é ótimo. Acho que os portugueses estão bastante bem, com boas expectativas, e isso dá-me mais confiança. Embora ainda não tenha tido grandes resultados internacionais, com exceção da final do 3 estrelas em Pantín, o momento atual deixa-me confiante para tentar entrar no top 100. Mas tudo tem os seus timmings e vou continuar a trabalhar.

 

SP – No ano passado foste uma das surpresas portuguesas a nível internacional, chegando mesmo ao top 150. Qual foi o segredo para esse passo em frente na carreira?

 

JF – O segredo foi ter começado a encarar o surf mais a sério. Passei aquela fase dos 18 anos. Dantes passava imensas horas a surfar mas talvez não encarasse isto como um trabalho. Agora saio de casa às 7 da manhã e chego às 21 e passo o dia todo a fazer coisas relacionadas com o surf. Dantes não era bem assim. Isso fez-me tirar bons resultados e fez passar para fora a mensagem de que as coisas são sérias e mais tarde ou mais cedo boas coisas hão-de vir.

 

“Hoje-em-dia ganhar uma etapa em Portugal talvez seja equivalente a ganhar um WQS de 4 ou 5 estrelas, pois o nível é igual”

 

SP – Em relação à Liga Moche, começaste o ano com um 3.º lugar. O título é um objetivo para este ano?

 

JF – Sim. Felizmente vou poder estar cá presente em todas as etapas, pois nenhuma delas coincide com campeonatos internacionais. Um dos meus principais objetivos é ser campeão nacional, pois o nível e o impacto mediático da Liga Moche são muito grandes. Hoje-em-dia ganhar uma etapa em Portugal talvez seja equivalente a ganhar um WQS de 4 ou 5 estrelas, pois o nível é igual.

 

SP – Do que viste na Caparica, quem pensas que são os principais candidatos ao título?

 

JF – Penso que com o nível que há não se pode falar em candidatos, nem fazer antecipações. Acho que o que se pode dizer é que o top 10 da Liga está fortíssimo e acho que qualquer um tem hipótese de conquistar o título.

 

SP – A Seleção Nacional este ano vai participar no Mundal ISA no Peru, sendo que o seleccionador David Raimundo já afirmou que conta com todos os surfistas, incluindo Tiago Pires. Estar entre os convocados é um desejo teu? Como vês estas mudanças na Seleção Nacional?

 

JF – Para mim é uma honra representar Portugal. O maior prazer que posso ter é ser embaixador do meu país e representar a minha pátria. Não podia estar mais contente com o trabalho que tenho visto por parte da Federação. Tenho de dar os meus parabéns ao presidente, João Aranha, pois está a fazer um enorme trabalho.

 

Há muita gente a fazer um excelente trabalho no surf em Portugal, como o Francisco Rodrigues [Presidente da ANS], o Rui Costa e outros. O David Raimundo, por exemplo, no campeonato de estreia, esteve muito bem no Equador. Acho que há um grupo de pessoas no meio do surf que realmente quer levar as coisas para a frente. As coisas têm mesmo de ser levadas para a frente, pois está a haver um investimento grande no surf em Portugal e as pessoas certas acabam por ser atraídas para os sítios certos. Acho que as perspectivas são óptimas.

Fonte: Surf Portugal

Foto: Ricardo Bravo