José Luís Pinto Basto, presidente do The Edge Group, quer fechar quatro a cinco negócios nesta área nos próximos meses. Outros planos passam pela internacionalização da Labrador e pela abertura de lojas da Majora.
É a partir do espaço de 10.000 metros quadrados em Lisboa que, há quase três anos, o The Egde Group (TEG) transformou em centro de negócios que José Luís Pinto Basto revela a estratégia de futuro do grupo que partilha com Miguel Pais do Amaral, mas também com os empresários Nicolas Berggruen e Pedro de Almeida. À medida que a crise se impunha, e fazia cair empresas como meros castelos de areia, o TEG foi-se transformando num microcosmos de investimentos, dos projectos imobiliários aos supermercados e ginásios. Dois dos mais recentes recuperaram marcas icónicas que estiveram no limiar da sobrevivência: a Labrador e a Majora. Para ambas, há planos ambiciosos. Mas o leme está apontado ao mar, onde Pinto Basto quer investir até 15 milhões de euros ainda este ano.
A crise que o país vive foi fatal para muitas empresas. Mas o The Edge Group (TEG) nunca parou de investir. O que explica este contraste?
A natureza do nosso negócio. Acreditamos em investir em contraciclo, porque é nestas alturas que se devem fazer investimentos. Acreditamos também que as empresas que nascem nos momentos mais difíceis têm uma maior probabilidade de sobreviver do que as que nascem nos tempos de facilidades e que depois estão mal preparadas para gerir as dificuldades. Vivemos algumas décadas de facilidades no nosso país, entre o despejar de milhões e milhões de fundos comunitários na economia e o acesso barato e pouco criterioso ao crédito. Mas aquilo que parecia fácil veio a revelar-se difícil para muitas empresas. Os próprios bancos acabaram por embarcar nesta bebedeira generalizada. De repente podíamos criar resorts no Bombarral, acreditando que algum dia iria haver procura para esse tipo de oferta. Fizemos uma aterragem difícil desses tempos. Também houve uma série de políticas erradas. Tornámo-nos excessivamente num país de serviços, ainda por cima totalmente votado para o mercado interno. Desistimos da agricultura e da economia do mar, vimos muitas indústrias serem transformadas em projectos imobiliários.
Agora que há alguns sinais de recuperação da actividade económica, retirou-se realmente alguma lição deste ciclo negativo ou há o risco de se cometer os mesmos erros?
Há lições importantes que vão mudar estruturalmente a nossa economia. A primeira é percebermos que não podemos depender exclusivamente do mercado interno. Os empresários tiveram de pegar na mala e ir à procura de outros mercados. Outra lição é a da excessiva dependência de capitais alheios, nomeadamente de crédito bancário. As empresas portuguesas são das mais endividadas da Europa, também porque recorremos pouco a outras alternativas de capital. Há alternativas que estão mais desenvolvidas noutros países, como as private equity ou o capital de risco e temos muito poucas empresas listadas na bolsa. Os empresários ainda não estão a tirar verdadeiramente partido do mercado de capitais, que é uma forma de capitalizar as empresas e de crescer, sem que seja através da dívida bancária que acarreta obrigações que asfixiam a tesouraria das empresas.
É uma questão cultural ou haverá ainda poucas alternativas à banca à disposição das empresas?
São as duas coisas. Tem de haver uma aprendizagem por parte dos empresários, que têm de ser mais sofisticados e de conhecer estes mecanismos. Por outro lado, há poucas private equity, poucas capitais de risco, faltam business angels. O empreendedorismo em Portugal está muito mais desenvolvido do que o capital de risco. Se olharmos para a cadeia de valor do capital de risco, a fase inicial de apoio aos empreendedores, o chamado triple f (family, friends & fools), vai existindo. E muitos daqueles que se intitulam business angels estão, na realidade, nesta camada e acabam por investir no negócio do filho, do sobrinho ou de um conhecido. A outra camada, que investe em negócios de desconhecidos mas que também faz um acompanhamento dos negócios, é a maior falha que existe em Portugal. Há muita gente com intenções e pouca concretização.
De alguma forma o TEG beneficiou dessa ausência, no sentido de conseguirem negócio porque simplesmente não há concorrência?
Sim. Muitas das boas oportunidades que surgem no mercado passam-nos pelas mãos porque, de facto, não há assim tantos investidores. Principalmente durante a crise, muitos não estiveram activos. Nós, pelo contrário, acreditamos que surgem das crises boas oportunidades.
Uma das vantagens que retiraram da crise foi a desvalorização dessas oportunidades, conseguindo bons negócios a preço de saldo?
Gosto de colocar essa questão ao contrário. Quando se vivem tempos de euforia económica e de facilidades, muitos dos activos estão inflacionados e o que as crises fazem é trazê-los para um valor próximo da realidade. Não nos aproveitamos da crise porque os preços estão a desconto. A maior parte dos investimentos que fizemos não foram a desconto, mas sim pelo valor justo, conservador obviamente para quem investe num momento destes.
Fonte: Público
