CEGE pede cautelas na municipalização das áreas portuárias

A transferência para os municípios da gestão de áreas portuárias deve ser feita caso a caso, por um prazo limitado e acautelando futuros desenvolvimentos e necessidades dos portos, que hoje poderão não ser sequer previsíveis, avisa o CEGE – Centro de Estudos de Gestão do ISEC.


“Sem discordar do princípio” da gestão comum ou conjunta com os municípios das áreas urbanas junto aos portos, o CEGE  alerta para alguns riscos de uma aplicação “cega” desse processo de descentralização anunciado pelo Governo para ser implementado nos próximos anos. Desde logo, é lembrada a importância das receitas dos usos dominiais para o equilíbrio financeiro de alguns portos (ao cobrirem parte dos custos das actividades portuárias de interesse nacional). Mas também se sublinha o facto de, por exemplo, “grande parte das docas de recreio ou pesca integradas em portos [possuirem] de forma comum usos portuários diversos, albergando embarcações de combate à poluição, de autoridades, etc. e [beneficiarem]  de obras de manutenção, protecção marítima ou dragagens comuns”. No relativo ao tráfego fluvial, o CEGE  sustenta que “é um tema nacional, ou pelo menos intermunicipal, uma continuidade das estradas nacionais, não devendo ser licenciado por este ou aquele município, mas sim pelo IMT ou por um porto”. No texto divulgado, resultado da audição de “especialistas do sector portuário”, avisa-se ainda que “algumas praias são de potencial expansão portuária”, e que “as atcividades marítimo-turísticas, desenvolvidas dentro de portos, devem ser licenciadas obedecendo a limitações da atividade portuária, pelos portos e não pelos municípios”. “Nos outros países criaram-se regimes especiais de protecção do domínio portuário por ser de interesse nacional (Espanha, França, Itália, Holanda). Em Portugal avança-se em sentido contrário?”, questiona-se. Em defesa da prudência que acautele futuros desenvolvimentos portuários, mesmo que actualmente insuspeitados, o CEGE lembra o que está a acontecer com a necessidade de criar instalações de abastecimento de LNG a navios, ocupando-se para tal terrenos que se pensava não serem precisos para funções portuárias. “Como se faria se o modelo das áreas de jurisdição portuária não tivesse, no passado, sido previsto com espaço amplo o suficiente para estas iniciativas, até então imprevisíveis?”, questiona. Em conclusão, remata o CEGE, “considera-se indispensável a realização de estudo aprofundado dos impactos económicos e financeiros destas medidas para os portos e a economia”. O CEGE é presidido por José Augusto Felício e, entre muitas outras iniciativas, promove a pós-graduação em Shipping and Port  Management.

Fonte: T e N

Transporte marítimo de contentores perdeu menos que o esperado

Um quarto trimestre melhor que o inicialmente previsto terá permitido reduzir as perdas globais do transporte marítimo de contentores em 2016, considera a Dreery. A tendência de recuperação será para manter em 2017, mas com cautelas.

A previsão inicial da Drewry para o ano findo apontava para perdas operacionais do sector em torno dos cinco mil milhões de dólares (4,7 mil milhões de euros). Mas um desempenho no quarto trimestre acima do esperado terá reduzido os prejuízos conjuntos para 3,5 mil milhões de dólares (3,3 mil milhões de euros).
A Drewry acredita mesmo que o pior já passou para as companhias de transporte marítimo de contentores e que 2017 será já um ano de ligeira recuperação. A consultora avisa, ainda assim, que o mar não é de rosas para o sector.
Os preços médios dos fretes, tal como a procura, estão a manter, em 2017, a tendência de ligeiro crescimento. Mas a Drewry adverte que não é preciso muito para condenar as companhias de transporte marítimo de contentores a novo ano de prejuízos. Um súbito aumento dos custos dos combustíveis ou mais guerras de preços nas principais rotas seriam suficientes para um novo ano mau.
A consultora salienta que 2016 foi mau para os transportadores marítimos, mas que, “por mais doloroso que possa ter sido, deu à indústria o alerta necessário para corrigir algumas das suas opções”. A Drewry salienta que “os dias de sustentar as transportadoras em falência precisam ser uma coisa do passado”.
Numa perspectiva de mais longo prazo, os operadores poderão tirar vantagens da redução do número de concorrentes (graças à recente onda de fusões e aquisições) e da maior capacidade de gerir o equilíbrio entre oferta e procura (através de adiamentos de entregas de novos navios). “Se as companhias aproveitam isso ou não é outra questão”, avisa a Drewry.
Fonte: T e N

SURFaddict levou Festa do Surf Adaptado ao Litoral Alentejano

Mais de duas dezenas de pessoas com deficiência, com a ajuda de 30 voluntários, tiveram a oportunidade de experimentar, no passado sábado, os benefícios do surf adaptado na praia de São Torpes, no litoral alentejano.
No evento inaugural da temporada 2017, a Fábrica dos Sorrisos da SURFaddict (Associação Portuguesa de Surf Adaptado) proporcionou a todos os que se deslocaram a São Torpes a oportunidade destes surfistas especiais desfrutaram da sensação única de deslizar nas ondas.
São Torpes, que se apresenta como uma das melhores praias do país no que diz respeito às condições para receber o surf adaptado, foi o palco de mais uma grande festa dos sorrisos.
A Federação Portuguesa de Surf, o Instituto Hidrográfico e o Município de Sines foram os parceiros institucionais deste evento, que contou ainda com o apoio local da ESLA – Escola de Surf do Litoral Alentejano, Dom Nuno Hotéis, Quinta da Cilha, Mercado à Mesa.
A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa é a parceira principal da SURFaddict. Os fornecedores oficiais para 2017 são a Ericeira Surf & Skate, o Lisbon Marriott Hotel, a JT – design& publicidade, Trinton Websites, Fonte Viva, Simplefruit, Marlin Fins, Sushi@Home, Tomtom Portugal e Boardculture Surfboards.

Fonte: SurfPortugal

Cepos de âncora romana “salvos” do fundo do mar em Lagos

Dois cepos de âncora em chumbo, romanos, com perto de 2000 anos, foram recuperados do fundo do mar na semana passada, por uma equipa de mergulhadores chefiada pela arqueóloga subaquática Joana Baço, da empresa Archaeofactory.
Um dos cepos romanos tinha sido encontrado durante um mergulho recreativo, por um dos membros do staff do Cipreia Dive Club.
O cepo (parte de uma âncora usada nos barcos romanos, feito em chumbo), acabou por ser recuperado por uma equipa de mergulhadores, que contou com a arqueóloga responsável, Joana Baço, e com o apoio logístico do Cipreia Dive Club e de mergulhadores voluntários locais, que já tinham participado no antigo projecto de investigação “Carta Arqueológica Subaquática da Baía de Lagos e Arredores”.
Durante a recuperação do primeiro cepo, um dos voluntários fez a descoberta do segundo, que foi também retirado do fundo do mar.
A empresa Archaeofactory, do arqueólogo Tiago Miguel Fraga, acrescenta que «os artefactos já se encontram em fase de limpeza e estudo, com o objectivo de apurar a sua identificação tipológica e uma aferição cronológica, de modo a conhecer-se melhor o passado da utilização da Baía de Lagos e a sua importância em época romana».
No passado, o projecto para elaborar a “Carta Arqueológica Subaquática da Baía de Lagos e Arredores”, da responsabilidade de Tiago Fraga, tinha já feito o levantamento do fundo do mar «de outros dois artefactos deste tipo, assim como de uma sonda náutica medieval». Além disso, «são conhecidas até ao momento cerca de 175 âncoras, de várias cronologias, submersas, na Baía de Lagos».
A Archaeofactory acrescenta que tentará ser «breve quanto aos resultados dos trabalhos de estudo e limpeza, que revelaremos assim que possível».
O cepo, habitualmente feito em chumbo, era a parte mais pesada da âncora, cujas restantes peças eram, na sua maioria, feitas em madeira (daí que, quando se encontram vestígios de âncoras romanas, o que chega aos nossos dias sejam os cepos). O cepo obrigava a âncora a ficar deitada no fundo do mar, orientando as unhas de forma a estas enterrarem-se na areia ou fixarem-se em algum rochedo.

Descoberta pode transformar água do mar em água potável

Criação de uma peneira de grafeno a custos reduzidos pode vir a ser uma revolução na indústria de dessalinização e levar água potável a milhões de pessoas.

Uma equipa de investigadores no Reino Unido criou uma peneira à base de grafeno que consegue filtrar o sal da água salgada. A inovação pode vir a permitir o acesso a água potável a milhões de pessoas em todo o mundo e ser uma mudança radical em países onde o acesso a água limpa é muito limitado. 
O grafeno, uma forma cristalina do carbono organizado numa rede hexagonal, foi identificado pela primeira vez na Universidade de Manchester em 2002. Desde então foi considerado um “material maravilha”. Os cientistas iniciaram então uma “corrida” ao desenvolvimento de uma peneira com custos reduzidos que permita a dessalinização a uma escala industrial. 
A equipa de investigadores do Reino Unido conseguiu utilizar um composto do grafeno, o óxido de grafeno, para criar uma peneira rígida que poderá filtrar sal usando menos energia. Até agora os cientistas tinham conseguido alguns sucessos, mas encontraram sempre entraves, nomeadamente, o facto dos poros da membrana incharem quando imersos na água, levando a que as partículas de sal continuassem a passar.

A descoberta, divulgada esta semana e feita em Manchester, alega que foi já possível conseguir controlar a expansão e tamanho dos poros.
Segundo o artigo publicado no Nature Nanotechnology journal, a equipa explica que conseguiu restringir o crescimento dos poros ao revestir o material com um composto de resina. A inovação permite evitar que os poros inchem e leva a que os cristais de sal continuem a ser filtrados deixando para trás água limpa e potável.
A descoberta é “um passo significativo e vai abrir novas possibilidades para melhorar a eficiência da tecnologia na dessalinização”, disse Rahul Nair, responsável pelo projecto, num comunicado da universidade.  
“Esta é a primeira experiência clara. Demonstrámos também que existem possibilidades realistas para expandir a abordagem descrita e produzir em massa membranas à base de grafeno com os tamanhos de peneira necessários.”
Permitir o acesso a água potável globalmente é neste momento uma prioridade. Em 2025, 14% da população global vai sofrer com a escassez de água, prevê a União Europeia. As alterações climáticas podem ainda piorar os cenários, ao levarem a um aumento da temperatura e à escassez de chuva. 
A nova solução parece promissora, mas há ainda alguns cuidados e obstáculos a passar, nomeadamente perceber se as membranas são resistentes a todo o material biológico que se encontra no mar e se esta é uma solução energética eficiente.
Fonte: TVI24

Portugal negoceia na ONU extensão da plataforma continental

Portugal iniciará a 14 de Agosto as negociações formais com as Nações Unidas sobre a expansão da plataforma continental, anunciou o Ministério do Mar.

“A primeira reunião de negociações está já marcada para 14 de Agosto no âmbito do grupo de trabalho que a Comissão de Limites da Plataforma Continental (CLPC) acaba de criar para analisar a proposta portuguesa, a qual pretende alargar em dois milhões de quilómetros quadrados a área marítima sob jurisdição nacional, o dobro da actual”, refere o comunicado.
A criação da subcomissão é destacada pelo ministério como “um passo decisivo” num processo que, se bem sucedido, permitirá a Portugal “o exercício de direitos soberanos sobre a plataforma continental para efeitos de conhecimento e aproveitamento dos seus recursos naturais”.
De acordo com a informação do Ministério, a CLPC integra 21 peritos em hidrografia, geologia e geofísica, dos quais sete vão avaliar a proposta portuguesa.
“De acordo com o artigo 76.º da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar a plataforma continental de um Estado costeiro compreende o leito e o subsolo das áreas marinhas que se estendem para além do seu mar territorial, em toda a extensão do prolongamento natural do seu território terrestre”, recorda o comunicado do ministério de Ana Paula Vitorino.
O projecto de extensão da plataforma continental portuguesa é coordenado desde 2005 pela Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental (EMEPC), e o processo junto das Nações Unidas teve início em 2009.
Fonte: T e N 

Maior comunidade de cavalos-marinhos do mundo vive na Ria Formosa

De acordo com o biólogo português, “a ria Formosa é um sistema dinâmico, sofrendo alterações na tipologia dos fundos e seu substrato, dos quais os cavalos-marinhos dependem. Para além disso, também temos de ter em conta flutuações naturais na população que se pode ter tornado insustentável para o meio que a acolhe”. No entanto, uma quebra tão significativa é um indício claro de que existem factores que têm de ser equacionados para determinar a causa da diminuição da população. “A perda de habitat parece ser a causa mais provável desta quebra, especialmente tendo em conta que tem sido detectada uma diminuição de pradarias marinhas fundamentais para fixação dos cavalos-marinhos”, esclarece. 

Apesar destes sinais preocupantes, os cavalos-marinhos parecem ter encontrado na ria Formosa um santuário onde se encontram a salvo da maior ameaça à sua sobrevivência – a captura para venda no mercado asiático. Todos os anos mais de 50 toneladas de cavalos-marinhos são capturadas no mundo e enviadas para aplicação na medicina tradicional oriental ou para utilização ornamental. Para além de a sua captura não ser permitida na ria Formosa, o Grupo de Investigação em Biologia Pesqueira e Hidroecologia do CCMAR concebeu e desenvolve um projecto de criação de cavalos-marinhos em cativeiro, tendo-se tornado a primeira instituição a nível mundial a conseguir a reprodução com sucesso da espécie H. guttulatus.

De acordo com Jorge Palma, responsável pelo projecto, “a criação em cativeiro é um elemento-chave para a conservação da espécie. Permitirá diminuir a pressão sobre a recolha de cavalos-marinhos do seu ambiente e servirá, caso necessário, como meio de repovoamento da espécie em locais onde foi outrora abundante. Para além disso, muitos aquários têm interesse nesta tecnologia como forma de suprimir autonomamente a necessidade de exemplares selvagens para as suas exposições”. 

No final da peça “Ricardo III”, Shakespeare imagina o monarca em desgraça, disposto a trocar todo o seu reino se alguém lhe oferecer um cavalo. Só o futuro ditará se a ciência e tecnologia conseguirão encontrar atempadamente uma solução para devolver a estes pequenos cavalos do mar o seu velho reino da ria Formosa.


Há 611 empresas a operar na área do surf

O
desporto continua a ser prioridade na comunicação do destino
Portugal.

O
Registo Nacional de Agentes de Animação Turística (RNAAT) mostra
611 empresas a trabalhar na área do surf, avançou a Secretaria de
Estado do Turismo, referindo que o desporto continua a ser prioridade
na comunicação do destino Portugal.
Os
dados anteriores, de Abril de 2016, indicavam o registo de 586
empresas que afirmavam realizar actividades de surf, além dos
empreendimentos turísticos e alojamentos locais, que disponibilizam
serviços e equipamentos para turistas que querem praticar este
desporto.
“Acresce
o facto de vários operadores turísticos internacionais e ‘online
travel agencies’ (agências a operar na internet) especializados em
viagens de surf, sobretudo do mercado europeu, programarem o país”,
acrescentou a mesma fonte à Lusa, enumerando como destinos mais
procurados Peniche, Ericeira, Nazaré, Cascais, Costa Vicentina,
Viana do Castelo e Açores.
Em
resposta à agência Lusa, o gabinete de Ana Mendes Godinho
acrescentou que a produção de conteúdos sobre surf “continua
a ser uma prioridade na estratégia de comunicação do destino
Portugal para 2017”.
Quanto
ao peso do surf na actividade turística, Portugal continua sem dados
estatísticos, embora Governo e praticantes notem um aumento na
oferta.
Em
2012, uma análise interna da Associação Nacional de Surfistas
(ANS), com base em contactos informais junto de empresas e em
estimativas, indicava que o surf poderia representar 400 milhões de
euros na economia nacional.
O
Governo admite que “seja superior” este valor e Francisco
Rodrigues, presidente da ANS, acredita poder ser “uma perspectiva até conservadora”.
Para
estas contas, segundo Francisco Rodrigues, entram sobretudo a
“indústria endémica”, a “componente dos serviços”,
o que os “surfistas representam nas outras indústrias”,
mas também a indústria têxtil, uma vez que há produções em
Portugal para “corresponder a vendas feitas a nível
internacional”.
Para
a ANS, a oferta turística do surf vale pelo seu todo, até porque,
como recordou o dirigente, num raio de 150 quilómetros à volta de
Lisboa “é quase impossível não encontrar um bom dia de surf
ou um dia razoável que acomode as vontades de quem visita” o
país.

o Governo disse à Lusa que o surf, “como tema âncora da
comunicação internacional de Portugal enquanto destino turístico,
será um dos temas abordados na campanha internacional, nas redes
sociais, na plataforma ‘portuguese waves'” (ondas portuguesas).
Em
curso, até ao final deste mês, está a reestruturação da
plataforma ‘portuguese waves’ para torná-la num “melhor
instrumento de promoção e de apoio a quem procura fazer surf em
Portugal: com mais informação sobre a caracterização das praias,
o tipo de ondas que se pode encontrar nessas praias, informação
turística e notícias sobre o surf em Portugal”, segundo a
Secretaria de Estado do Turismo.
Fonte: DN

Cura para o cancro pode estar no fundo do Mar

Um homem de pouco mais de 50 anos, diagnosticado com um cancro da próstata (o quarto mais prevalente em termos mundiais) em estádio inicial enfrenta um dilema: tem de escolher entre ser operado ou fazer radioterapia, ambos os tratamentos com um risco grande de impotência e de incontinência urinária; ou optar apenas por vigiar activamente o tumor. Não há uma opção intermédia. Resignado, decide pela segunda hipótese mas, mesmo tendo quase como certo que aquele cancro (naquele momento) é indolente, não consegue dormir à noite. Acorda ansioso e a transpirar – um dilema comum a estes doentes. Pensa: “Tenho um cancro, quero tratá-lo.” 

Mas como? Uma terceira opção teria de ter mais benefícios do que efeitos secundários – o maior handicap de qualquer dos tratamentos convencionais. “É como quando temos um bife e só queremos cozinhar a parte do meio: qualquer tratamento à base de temperatura cozinha tudo, o bom e o mau”, diz à Niso Sadik, gestor de uma empresa de biotecnologia chamada Steba Biotech, sediada no Luxemburgo mas cujo centro de investigação é em Israel. 

A resposta à aparente equação impossível foi encontrada (surpreenda-se) na natureza e juntou duas coisas aparentemente diferentes: a fotossíntese e o cancro. “A génese da ideia veio do conhecimento do que a natureza faz para eliminar um órgão que funciona mal. Quando olhamos para um tumor também podemos vê-lo como um órgão anormal”, explica o médico e bioquímico Avigdor Scherz, um dos autores do inovador tratamento. 

O método é retirar o oxigénio 

A chamada terapia fotodinâmica vascular dirigida (ou VTP, em inglês) – desenvolvida pelo Weizmann Institute of Science, em Israel, em conjunto com a empresa Steba Biotech – é a nova esperança no tratamento do cancro da próstata e foi inspirada numa bactéria do fundo do oceano que consegue transformar a pouca luz que recebe em energia. 

O tratamento, ainda sob avaliação para uso humano pela Agência Europeia do Medicamento, e também pela Federal Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, consiste na injecção na circulação sanguínea de uma droga sensível à luz – quando activada através de um laser, destrói o tumor. Ao contrário dos tratamentos convencionais, o método não é “cozinhar”. “É fechar os vasos sanguíneos que alimentam o tumor para deixar de haver oxigénio e provocar a morte daquela célula e, consequentemente, de todo o cancro”, explica Niso Sadik. 

A investigação começou ainda no início dos anos 90, com dois parceiros improváveis: um químico, Avigdor Scherz, e um botânico, Yoram Salomon. Os cientistas basearam-se em moléculas semelhantes à clorofila que, quando estimuladas pela luz, libertam um tipo de toxinas químicas, para criar um medicamento que destrói os vasos sanguíneos que alimentam o tumor. 

E apenas esses. “Os vasos do tumor são mais susceptíveis a esses materiais tóxicos e quebram imediatamente, causando a morte do tumor ao fim de 16 a 24 horas”, explica Avigdor Scherz. O especialista também garante que a droga não é tóxica para o resto do corpo porque, além de a zona iluminada estar limitada ao tumor (através da inserção de fibras ópticas, ver caixa), a substância é rapidamente eliminada da circulação sanguínea. 

Foram testadas mais de 200 moléculas até chegar à final (a WST11) e só em 2003 é que a empresa de biotecnologia começou a desenvolver o software, o equipamento de laser e as fibras ópticas. Além do tratamento não ser invasivo (e de apenas uma sessão ser suficiente), é feito em ambulatório, ou seja, o doente pode deixar o hospital no mesmo dia. E não exclui os outros tratamentos: “Uma pessoa que faça esta terapia pode depois fazer radioterapia e cirurgia”, diz o responsável da empresa de biotecnologia. 

Um grande ensaio clínico feito com 413 doentes, em 47 hospitais de 10 países da Europa, e publicado em Dezembro de 2016 no The Lancet Oncology, teve resultados promissores: 49% dos pacientes entraram em remissão completa. E apenas 6% tiveram de retirar a próstata, em comparação com os 30% que não foram submetidos à terapia. Já os efeitos secundários – “semelhantes aos de uma biópsia normal”, diz o responsável da Steba Biotech -, foram transitórios: duraram apenas três meses e, após dois anos, nenhum dos pacientes tinha efeitos colaterais. 

Um parceiro invulgar 

Apesar de o processo de aprovação para uso humano ainda não estar concluído, esta pioneira terapia poderá chegar a Portugal mais cedo, através de um intermediário pouco óbvio: a Santa Casa da Misericórdia de Azeitão. A ideia partiu do provedor desta Misericórdia, que é também médico no Hospital Nossa Senhora da Arrábida – o maior em Cuidados Paliativos e Continuados no Sul do País. “Recebemos muitos doentes oncológicos e, nesta área, o cancro da próstata é o mais prevalente nos homens. Um em cada oito morre com uma situação destas. Portanto estamos muito despertos a todos os avanços internacionais e nacionais”, diz Jorge Maria Carvalho. 

Não tendo unidade de oncologia, nem oncologistas, a ideia da Misericórdia é começar a oferecer tratamentos nesta área. Aliás, à semelhança do que fazem com os doentes com insuficiências cardíacas ou com Esclerose Lateral Amiotrófica ali internados, para os quais também não têm serviços de cardiologia e de neurologia. O objectivo é, em primeiro lugar, formar seis médicos urologistas e depois alargar a equipa. “Numa fase inicial, estamos a contactar hospitais públicos e privados de Lisboa para nos cederem blocos para fazermos os tratamentos”, explica o provedor. 

Há pouco investimento implicado, “aliás, foi por isso que não fomos buscar um robô [de cirurgia robótica]”, brinca. O produto e o equipamento seriam fornecidos pelo fabricante gratuitamente, numa primeira fase. Explicação: a ideia seria conseguir um programa de acesso precoce, que se destina a medicamentos inovadores ainda fora do mercado, sem custos. Estima-se que cada tratamento custe à volta de 12 mil euros.


Foto: Sábado
Foto: Getty Images

"Engavetámos o mar por causa de um trauma"

O presidente-executivo da Fundação Oceano Azul diz que Portugal pode afirmar-se como grande potência marítima.

Foi o mar que fez o pequeno rectângulo chamado Portugal agigantar-se, é ele que, mais uma vez, nos pode devolver a auto-estima e acabar com um atraso de pelo menos dois séculos. Não é coisa pouca, não senhor. Mas o autor do ensaio Portugal e o Mar, e um dos maiores especialistas nacionais em ciência, mar e ambiente, Tiago Pitta e Cunha, acredita que isso vai acontecer. Anda a congeminar como fazê-lo há quase três décadas e vê na inauguração da Fundação Oceano Azul, da Sociedade Francisco Manuel dos Santos (SFMS), da qual é presidente-executivo, um passo gigante nesse sentido. Explica ao que vem esta instituição com curadores de todo o mundo, e como um país pequeno pode ousar afirmar-se como grande potência marítima.

Em que medida é que a Fundação Oceano Azul (FOA) pode ajudar Portugal a mudar o seu “trágico” destino?

A principal marca distintiva de Portugal é a geografia e a principal marca distintiva da geografia portuguesa é o mar. Durante décadas, este elemento que deve ser preponderante na política do país passou despercebido e o tema dominante foi a integração europeia e a ligação a Bruxelas. Esse traço distintivo tem um potencial que não conhecíamos.

A dedicação exclusiva à Europa, e o facto de, nesse contexto, pouco nos distinguirmos dos outros, fez-nos reconciliar com o mar?

Compreende-se o desaparecimento do mar das prioridades nacionais. A ligação do País às colónias ultramarinas foi o grande desígnio do Estado Novo, sobretudo a partir das guerras coloniais. Quando, em Abril de 1974, há um virar brusco de página, o mar torna-se parte do passado e é engavetado, também devido ao trauma. Entretanto, houve uma revolução profunda, Portugal passou de País voltado para o sector primário para um País dedicado ao sector terciário.


A própria Europa normalizou-nos. O desígnio marítimo foi de algum modo trocado por fundos comunitários.

Isso é um dos grandes mitos urbanos da actualidade e que nasce de um complexo de menoridade nosso inacreditável. A Irlanda, que nunca teve frota de pesca, quando entrou na CEE tornou-se num dos grandes países europeus nessa matéria. Ninguém nos disse: “Os senhores agora vão parar de pescar.” Fomos nós que quisemos fazê-lo. A pesca era uma actividade de subsistência e quisemos migrar para os serviços. Quando nos afastámos do mar foi como se estivéssemos a acabar com 500 anos de solidão – os 500 anos de navegação foram também de solidão.


Fonte: Sábado