Portugal país marítimo? "Os indicadores económicos não mostram isso"

Os portugueses dão muita importância ao mar, mas ficam-se pelo romantismo de uma linha azul no horizonte. A provocação da bióloga marinha Rita Sá deu o mote ao debate no programa “Da Capa à Contracapa”, registado no final de Julho na Renascença, no programa semanal em parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Emanuel Gonçalves, biólogo marinho e também administrador da Fundação Oceano Azul, proprietária do Oceanário de Lisboa, defendeu que os números não mostram Portugal como um país marítimo, que requer investimentos continuados e uma estratégia de longo prazo.
“Para sermos um país marítimo, temos que ter população de forma correspondente a fazer coisas no mar. Olhando para os indicadores de utilização de embarcações de recreio, perdemos para o norte da Europa onde o clima é muito pior. Falta acesso, cultura, para trazer as pessoas para o mar. Os indicadores sobre a bioeconomia ou economia dos recursos marítimos também não mostram investimento capaz de transformar a ciência em empresas produtivas para o sector”, constata Emanuel Gonçalves que no passado esteve envolvido no grupo que preparou a Estratégia Nacional do Mar.
O que se perdeu então? Para o perito em Áreas Marinhas Protegidas, a Expo’98 marcou uma diferença significativa, juntando um conjunto de elementos dificilmente conciliáveis no tempo como a liderança governativa política, a capacidade financeira para investir e uma resposta da sociedade. “Houve clara vontade de trazer o Ano Internacional dos Oceanos para Portugal. Houve investimentos públicos necessários para transformar essa realidade em algo concreto. E aí a sociedades responde”, argumenta Gonçalves na Renascença, que defende um alinhamento dos pontos de vista da governação, economia e social, sublinhando ainda assim a vantagem do tema não estar politizado.
Rita Sá concorda com o diagnóstico. “Falta estratégia, falta visão, falta vontade para que o mar seja algo que faça parte da vida de toda a gente de uma forma profunda. As estratégias ficam sobretudo no papel”.
Pescar os pescadores para a conservação e a ciência para a política
A discussão em torno da sustentabilidade dos recursos pesqueiros tem sido marcada por divergências entre Estados, cientistas e comunidades piscatórias. Rita Sá assegura que tem sido tentado envolvimento dos pescadores na tomada de decisão na gestão de recursos da pesca. ” É uma mudança de paradigma para que corresponsabiliza as pessoas pelas decisões”, completa a activista da Associação Natureza Portugal que será uma das oradoras do encontro “O Futuro do Planeta” em Lisboa.
A bióloga considera que há compatibilidade possível entre a protecção de determinadas Áreas Marinhas e algumas actividades económicas desde que sejam mais controladas e monitorizadas, com envolvimento de comunidades.
Já para Emanuel Gonçalves, não foi possível ainda passar a mensagem de que o peixe e os pescadores são duas faces da mesma moeda. ” Não vivem um sem o outro. Só consigo defender os pescadores se defender o peixe. Só consigo ter uma economia saudável baseada nos biorecursos se proteger o capital natural que existe no oceano”, afirma o biólogo marinho.
Confrontado com as divergências entre as diversas partes com base em estudos apresentados como científicos, Emanuel Gonçalves considera que o problema está na incapacidade de admitir que esses pareceres são para seguir.
“Temos uma falta de incorporação da informação científica na tomada de decisão. Se assumirmos que os pareceres científicos são para levar a sério, as pessoas têm que ser consequentes com esses pareceres. Não podemos depois fingir que não existem esses pareceres ou fingir que as políticas contrariam esses pareceres. É uma questão cultural por ultrapassar”, critica Emanuel Gonçalves que insiste na necessidade de criar conselhos científicos nas principais estruturas de decisão do país. ” E os políticos devem tomar decisões de acordo com o seu entendimento que não se substitua aos cientistas na aferição da situação”, insiste Gonçalves, ele próprio membro do Conselho Nacional de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.
Não ter medo do mar, outra vez
Emanuel Gonçalves argumenta que o mundo vive em simultâneo uma emergência climática e uma crise de biodiversidade que requer a necessidade de escolhas políticas decisivas.
” Estamos a perder espécies que se estão a extinguir a uma escala sem precedentes e estamos a modificar a atmosfera do ponto de vista químico. As políticas de um país onde o oceano tem soluções para cada uma dessas crises têm que ser ajustadas a essa realidade. Se Portugal decidir optar pela exploração de hidrocarbonetos ou minerais no mar profundo, isso tem consequências. Essa escolha política tem consequências que nos afastam das soluções para estas duas crises”, afirma Gonçalves que defende uma aposta num ” cluster fortíssimo de biotecnologia, onde podemos ser lideres na exploração das soluções que o oceano nos traz” a par da recuperação de habitats costeiros que absorvem carbono, de uma aposta do sistema científico nacional capacitado para trazer inovação à economia”.
O administrador da Fundação Oceano Azul afirma mesmo que ” não é uma inevitabilidade que as pescas tenham de continuar a diminuir, que tenhamos que ver o sofrimento das comunidades costeiras, que os pescadores desapareçam e com eles a sua cultura. Será certamente uma inevitabilidade se continuarmos a não atacar esse problema com soluções concretas”.
Emanuel Gonçalves reconhece que o mar português é grande, mas a sua dimensão não deve amedrontar políticos, empresas e cidadãos. Mas é preciso transferir a ciência para a economia do mar.
” As patentes que derivam da exploração dos recursos genéticos e outros marinhos têm retorno para um determinado país, empresa ou laboratório. É preciso mais formação mas também estratégia. Formámos um enorme número de doutorados em ciências do mar. O que estamos a fazer com esse capital humano que investimos? Não estamos a conseguir integrá-los no sistema produtivo e científico. Isto é trágico. Estamos a fornecer mão-de-obra qualificada para países concorrentes e outros com mais recursos por falta de capacidade e de estratégia para os integrar e transferir para sistema produtivo. Temos uma percentagem bastante significativa de artigos científicos em ciências do mar, mas temos uma das mais baixas taxas de patentes na OCDE”, remata o biólogo marinho no debate sobre a relação entre os portugueses e o mar. 


Foto:DR

Alterações nas regras de combustíveis no sector marítimo levam a subida de preços

O custo do transporte marítimo de mercadorias atingiu os níveis mais altos em quase nove anos, devido ao facto de muitos armadores terem começado a retirar navios do mercado para fazer as alterações necessárias para enfrentar as novas regras para os combustíveis.
O Baltic Dry Index, um index que analisa fretes de quase tudo, desde carvão a minério de ferro a cereais, atingiu os 2.378 pontos na primeira semana de Setembro, a maior subida desde Novembro de 2010, segundo dados da Bolsa do Báltico, com sede em Londres. Os navios da classe Capesize estão estão neste momento a ser fretados por quase 35.000 dólares por dia, o valor mais alto desde há 5 anos e meio.
O sector marítimo está a preparar-se para algumas das mudanças mais significativas da sua história recente – um corte obrigatório nas emissões de óxido de enxofre que será imposto em pouco mais de três meses. Para atingir estas metas, milhares de navios estão a ser retirados do mercado para instalar equipamentos designados de scrubbers que vão permitir que estes possam continuar a queimar o combustível mais barato que hoje é utilizado. Os navios que não se adaptarem passarão a pagar taxas mais altas.
A paragem de navios para serem feitas as alterações está a causar uma falta de de oferta no mercado numa altura em que por várias razões a procura tem aumentado. Este aumento deve-se desde ao retomar das exportações de minério de ferro do Brasil (após a recuperação dos danos causados pelo colapso de uma barragem ), ao aumento das exportações dirigidas ao retalho no EUA, em antecipação ao aumento de taxas alfandegárias, na guerra comercial entre os EUA e a China. Outro factor foi que muitos navios foram abatidos. Todos estes factos alteraram o equilíbrio entre a oferta e a procura.
Assim, neste momento os valores dos fretes estão a subir em todas as classes de navios que são monitorizados pela Baltic Exchange. Os navios da classe Panamax, classe abaixo dos Capesizes, estão a cobrar 18.000 dólares por dia, o máximo desde 2010. A classe Handysize, com 9.700 dólares por dia, está num máximo desde 2011.
Segundo previsões dos especialistas a oferta total no mercado de transporte marítimo deve crescer quase 3% este ano. Enquanto na década passada, por vezes a capacidade expandiu-se em mais de 10%. Ainda assim, este aumento de preços recente pode não durar. As importações de minério de ferro por parte da China caíram 5% nos primeiros sete meses do ano – algo que é uma má notícia para um mercado que depende do país asiático para impulsionar o fluxo de cargas. Assim, muitos não prevêem que esta alta de preços seja estável apostando mais na volatilidade do mercado.

Os ouriços-do-mar têm uma boca cheia de dentes (e são afiados)

Desengane-se quem pensa que o tubarão é a criatura com os dentes mais assustadores a viver nas profundezas do oceano. Pode parecer estranho à primeira vista, mas estamos a falar do humilde ouriço-do-mar.
É certo que não temos muito a temer enquanto seres humanos. Embora as picadas dos seus espinhos sejam desagradáveis (e às vezes venenosas), a verdade é que estes animais não usam os dentes afiados para nos morder — as principais presas são as algas e os pepinos-do-mar.
De acordo com o Science Alert, uma nova investigação realizada pelo engenheiro mecânico e estrutural Horacio Espinosa, da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, usou técnicas de microscopia eletrónica para investigar como os dentes do ouriço-do-mar, localizados na parte inferior do seu corpo, se desgastam durante os processos de abrasão.
Os resultados agora obtidos confirmam uma hipótese já colocada anteriormente: os dentes afiam-se através da abrasão — tal como uma lâmina pode ser afiada com um afiador de facas, à medida que o material é removido da aresta de corte.
“O material na camada externa do dente exibe um comportamento complexo de plasticidade e dano que regula a lascagem ‘controlada’ do dente para manter a sua agudeza”, explica o engenheiro, cujo estudo foi publicado na revista científica Matter.
Quando o esmalte dos nossos dentes começa a desaparecer, desaparece definitivamente. No caso deste animal, os cinco dentes que tem são um bocadinho mais sortudos. Quando a camada fibrosa externa (chamada de “pedra”) lasca, é substituída por novos materiais que crescem de forma contínua. Com o tempo, esta nova camada volta a ficar quebradiça e é então que o ciclo se repete.
De acordo com os investigadores, este é um mecanismo biológico que pode levar a ciência a conseguir um dia fabricar materiais capazes de imitar este processo e talvez até levar ao desenvolvimento de “novos dentes artificiais para humanos com melhores propriedades”.
Via Zap

Nível dos oceanos pode subir com consequências para mais de mil milhões de pessoas, alerta novo estudo da ONU

Sem acção urgente para reduzir emissões de gases com efeito de estufa, os gelos permanentes vão derreter a um ritmo sem precedentes, elevando o nível dos oceanos com consequências para mais de mil milhões de pessoas, advertem peritos da ONU.


O alerta consta de um relatório lançado esta quarta-feira no Mónaco pelo Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), criado pelas Nações Unidas, dedicado ao impacto climático nos oceanos e na criosfera, as regiões cobertas por gelo e neve permanentes que constituem 10 por cento da superfície do planeta.
Durante este século, os oceanos deverão sofrer alterações “sem precedentes”, com temperaturas mais altas, água mais ácida, com menos oxigénio e condições alteradas de produção de recursos.
“Ondas de calor marinhas e fenómenos extremos ligados aos (fenómenos meteorológicos) ‘El Niño’ e ‘La Niña’ deverão tornar-se mais frequentes”, preveem os cientistas do IPCC, que ressalvam que “a frequência e a gravidade destas mudanças será menor num cenário de emissões de gases com efeito de estufa reduzidas”.
O IPCC estabelece que “o oceano e a criosfera acolhem habitats únicos e estão ligados a outros componentes do sistema climático através de trocas globais de água, energia e carbono”.
Alterações neste sistema afetam mais de mil milhões de pessoas em todo o mundo, desde os cerca de quatro milhões que vivem no Ártico aos 680 milhões das zonas costeiras e aos 670 milhões que se contam nas zonas de alta montanha, que poderão chegar aos 840 milhões dentro de 30 anos.
Os cientistas do painel constataram que o oceano global tem vindo a aumentar de temperatura desde 1970, absorvendo “mais de 90% do calor em excesso no sistema climático”, com ondas de calor marinho duas vezes mais frequentes desde 1982.
“Ao absorver mais dióxido de carbono, o oceano sofreu um aumento da acidez à superfície”, apontam os cientistas, considerando muito provável que 20% a 30% do dióxido de carbono (CO2) emitido pela atividade humana desde 1980 foi parar ao oceano e provocou uma perda de oxigénio desde a superfície marinha até aos mil metros de profundidade.
O nível médio global do oceano está a subir, com aceleração nas últimas décadas devido às perdas cada vez maiores das massas de gelo da Gronelândia e da Antártida e da perda continuada da massa dos glaciares e tem havido “aumentos da precipitação e de ventos tropicais ciclónicos, com episódios climáticos extremos que representam um risco para as zonas costeiras”.
O IPCC aponta uma subida “sem precedentes” do nível médio global dos oceanos no período de 2006 a 2015 em relação ao último século, a um ritmo de 3,6 milímetros por ano, atribuindo-a principalmente às massas de gelo e glaciares que derreteram.
Na Antártida, as perdas de gelo “triplicaram no período entre 2007 e 2016 em relação ao período 1997-2006”, lê-se no relatório em que se conclui com “confiança alta” que “a causa dominante da subida do nível médio do mar desde 1970 tem origem humana”.
A projeção dos cientistas é que a subida do nível dos oceanos atinja 15 milímetros por ano em 2100 e “vários centímetros por ano no século XXII”.
Níveis elevados das águas que se verificavam uma vez por século poderão ser uma realidade anual neste século.
Entre as consequências, o relatório aponta “alterações nas atividades sazonais e na abundância e distribuição de espécies animais e vegetais importantes ecológica, cultural e economicamente”, com “perturbações ecológicas e no funcionamento dos ecossistemas” e aumento do risco de extinção de espécies adaptadas a temperaturas baixas.
A perda das massas de gelo deverá “afetar recursos aquáticos e o seu uso”, com a libertação de metais como o mercúrio na água dos rios, consequências para a saúde, e na agricultura de zonas no sopé de montanhas, com “alterações nas cheias, deslizamentos de terras, avalanches e desestabilização dos solos”, com efeitos nas atividades humanas, da agricultura ao turismo.
Nos últimos 100 anos, “perto de 50% das zonas húmidas costeiras perderam-se em resultado da pressão humana, subida do nível do mar, aquecimento e eventos climáticos extremos”, perdendo-se “ecossistemas vegetais costeiros que protegem o litoral de tempestades e da erosão” e que absorviam dióxido de carbono, refere também o documento.
A tendência é para os glaciares continuarem a derreter nas próximas décadas: “as massas gelo da Gronelândia e Antártida deverão continuar a derreter a um ritmo crescente durante o século XXI e mais além”, uma realidade agravada no cenário de continuarem a aumentar as emissões de gases com efeito de estufa.
Medidas de mitigação dos efeitos descritos “ambiciosas e adaptação eficaz” são a única maneira de contrariar “os custos e riscos crescentes” de continuar a adiar ações concretas para limitar o aquecimento global.
“As pessoas mais expostas e vulneráveis são muitas vezes as que têm menos capacidade para responder”, nota o IPCC, frisando que muitas iniciativas ao nível governamental (como proteção de áreas marinhas ou sistemas de gestão de águas) estão “demasiado fragmentados em muitos setores administrativos” para serem eficazes face “aos riscos crescentes provocados pelas alterações climáticas”.
Entre as medidas apontadas como positivas, o IPCC refere a recuperação de ecossistemas vegetais costeiros, que poderão absorver cerca de “0,5% das emissões anuais atuais” e emitir menos dióxido de carbono, proteger o litoral de tempestades, aumentar a qualidade da água e trazer benefício à biodiversidade.
“Apesar das grandes incertezas sobre o ritmo e dimensão da subida do nível dos oceanos depois de 2050”, as comunidades costeiras beneficiarão de planeamento atempado, com “respostas flexíveis” que possam ir sendo adaptadas à realidade, diz o IPCC, admitindo medidas que podem ir de sistemas de alerta de cheia à relocalização de pessoas antes ou depois de desastres.
A redução “urgente e ambiciosa” de emissões é fundamental, consideram os cientistas, que defendem a mesma ambição para medidas de adaptação às alterações climáticas.
“Educação e literacia climática, monitorização e previsão, uso de todas as fontes de conhecimento disponíveis, partilha de dados, informação e conhecimento, financiamento e apoio institucional” são essenciais, salientam ainda. 


Foto: NSIDC/Ted Scambos

Caverna em Maiorca mostra que a água do mar subiu 16 metros há milhares de anos

Escondida na costa nordeste da ilha espanhola de Maiorca, encontram-se as Cuevas de Artà, uma enorme rede de caverna repleta de estalagmites e estalactites.


Estas formações rochosas naturais dominam espaços cavernosos com nomes como a “Câmara do Purgatório” ou a “Câmara do Inferno” – mas a caverna Artà guarda um segredo antigo, revela agora um novo estudo.

Na nova investigação, uma equipa internacional de cientistas analisou depósitos minerais chamados espeleotemas dentro da Caverna Artà. Os espeleotemas, que incluem estalagmites e estalactites, assumem várias formas diferentes e desenvolvem-se lentamente à medida que precipitam nas reações químicas à base de água que ocorrem ao longo de dezenas a centenas de milhares de anos.
A análise desses depósitos geoquímicos pode dizer muito sobre as condições ambientais quando essa formação mineral surgiu.
No novo estudo, publicado no fim de agosto na revista especializada Nature, os cientistas analisaram caraterísticas chamadas supercrescimentos freáticos, que se formam dentro de cavernas, quando estas são inundadas pelo aumento da água do oceano.
Dentro da rede de cavernas, a equipa liderada pela geoquímica Oana Dumitru, da Universidade do Sul da Florida, identificou seis dessas formações de supercrescimento, encontradas em vários locais dentro da caverna e em elevações que variavam de 22,5 a 32 metros acima do nível do mar.
A análise das amostras extraídas desses supercrescimentos data dos depósitos de entre 4,39 a 3,27 milhões de anos atrás, indicando que se formaram durante a época do Plioceno, o último grande período de aquecimento da Terra, quando árvores até cresceram no Polo Sul. Mas isso não é tudo o que os investigadores descobriram.
Um intervalo durante o Plioceno Tardio, chamado Período Quente do Meio Piacenziano, é frequentemente considerado um tipo de análogo para o futuro aquecimento antropocêntrico. Isto porque as condições atmosféricas de dióxido de carbono eram comparáveis ​​às de hoje (cerca de 400 ppm) e o mundo estava entre 2 a 3°C mais quente do que uma temperatura média global pré-industrial.
Durante esse período, os cientistas descobriram que o nível médio global do mar estava a 16,2 metros acima do nível atual. De acordo com a equipa, é provável que, mesmo que o CO2 atmosférico se estabilize onde está hoje, o nível do mar provavelmente subirá inevitavelmente novamente às mesmas altitudes, embora reconheçam que possa demorar centenas ou milhares de anos.
“Considerando os padrões atuais de derretimento, a extensão do nível do mar provavelmente seria causada pelo colapso das camadas de gelo da Gronelândia e da Antártica Ocidental”, explicou Dumitru em comunicado.
Assim, escreve o ScienceAlert, se os humanos não são capazes de estabilizar ou reduzir o carbono atmosférico e outros gases de efeito estufa que capturam calor, poderíamos observar até 23,5 metros de elevação do nível do mar – algo que o mundo testemunhou pela última vez há quatro milhões de anos atrás, quando as temperaturas eram até 4°C superiores aos níveis pré-industriais.
Por outro lado, se conseguirmos manter com sucesso os aumentos acima da temperatura pré-industrial de 1,5 a 2ºC, estudos anteriores publicados no ano passado indicam que o aumento do nível do mar pode estar limitado entre dois a seis metros acima do atual nível do mar.
O objetivo científico dos invetsigadores é usar a química antiga contida na caverna Artà para ajustar a calibração dos futuros modelos de placas de gelo.

Será que o monstro de Loch Ness é uma enguia gigante?

Uma equipa de investigadores analisou cerca de 500 milhões de sequências de ADN para fazer um catálogo das espécies existentes no lago Ness e não encontrou nenhuma criatura gigante ou pré-histórica.


Um monstro gigante de pescoço comprido, a que carinhosamente se chama Nessie, tem alimentado mitos, livros, programas de televisão e filmes. O monstro de Loch Ness poderia ser um réptil pré-histórico encalhado naquele lago escocês, dizem alguns mitos. Agora, uma equipa internacional diz que pode não ser mais do que uma enguia gigante, noticiou a BBC. Será que, mesmo assim, o turismo movido pelo mito do mostro vai continuar a prosperar?



O primeiro relato de um monstro a viver naquelas águas escocesas remonta a 565 d.C., na obra do missionário irlandês Santo Columba, mas diz respeito ao rio Ness, não ao lago. Os relatos de uma criatura gigante a viver no lago surgem em 1933, descrevendo-o, por exemplo, como uma criatura semelhante a uma baleia que fazia agitar as águas.
A primeira fotografia do monstro surge no ano seguinte — e ficou conhecida pela “Fotografia do Cirurgião” —, mas 60 anos mais tarde a fotografia foi desmascarada e comprovou-se ser falsa. Afinal não passava de um brinquedo. Pelo caminho surgiram relatos de mais avistamentos, várias expedições e muitas teorias sobre o que poderia ser Nessie: elefantes dos circos que atuavam na região a nadar com a tromba de fora, ramos caídos a boiar, a ondulação do próprio lago, um peixe-gato gigante, um tubarão-da-gronelândia (o vertebrado mais antigo do mundo) ou mesmo um plesiossauro (um réptil marinho do período Jurássico).
Agora, uma equipa internacional, coordenada pela Universidade de Otago (Nova Zelândia), apresentou os resultados do ADN encontrado no lago. Foram recolhidas 250 amostras de água, em 2018, e analisadas cerca de 500 milhões de sequências do material genético aí encontrado, como se fossem pegadas ou impressões digitais deixadas dentro de água. As análises feitas permitem criar um catálogo de todas as espécies de plantas, insetos, peixes e mamíferos que vivem no lago.
O objetivo da equipa não era encontrar o monstro de Loch Ness. De facto, não encontraram e é nisso que se baseiam. Não encontraram vestígios de répteis marinhos pré-históricos, nem peixes gigantes, nem tubarões, nem tão pouco a presença de um animal de grande porte que correspondesse às descrições feitas da criatura. O que encontraram — e muito — foi material genético de enguias. Só não conseguem é dizer, com base no ADN, que tamanho têm as enguias que vivem naquelas águas.
Bem, os nossos dados não revelam o tamanho, mas a quantidade absoluta de material diz que não podemos descartar a possibilidade de haver enguias gigantes no lago Ness. Desse modo, não podemos descartar a possibilidade de que o que as pessoas veem e acreditam ser o monstro de Loch Ness seja uma enguia gigante”, diz Neil Gemmell, geneticista na Universidade de Otago.
E agora, quem é que quer ir ver o monstro de Loch Ness? Gary Campbell, que mantém um registo dos avistamentos, diz que todos os anos há pelos menos 10 relatos de algo inexplicável visto à superfície do lado. Para ele, o turismo que gira à volta do mito de Nessie não será afetado. “O monstro de Loch Ness é um ícone mundial.”
Chris Taylor, da VisitScotland, considera que as perguntas que continuam por responder só vão atrair mais visitantes à região em busca de respostas por elas próprias. Basta dizer que o lago é visitado anualmente por 400 mil pessoas.

Austrália diz que estado da Grande Barreira de Coral é agora “muito pobre”

A avaliação do estado da Grande Barreira de Coral passou de “pobre” para “muito pobre”, como resultado das alterações climáticas. É essa a conclusão de um relatório da Autoridade do Parque Marinho da Grande Barreira de Coral, na Austrália, que faz uma avaliação do estado de conservação da barreira a cada cinco anos.
“Os impactos significativos e em larga escala das temperaturas recorde da superfície marítima resultaram numa passagem do estado do habitat da barreira de coral de um estado pobre para muito pobre”, diz a agência governamental no relatório, citado pela Al Jazeera. “É urgente tomar acções de gestão fortes e efectivas a uma escala global, regional e local”, pede ainda o organismo, a fim de salvar a maior barreira de coral do mundo, com mais de dois mil quilómetros de comprimento.
The Guardian explica que o relatório conclui que os corais da Grande Barreira estão afectados e que há uma degradação do habitat que afecta peixes, tartarugas e aves.
A ministra do Ambiente australiana, Sussan Ley, destacou ainda que nos últimos cinco anos a Grande Barreira foi afectada por dois branqueamentos de corais de grande escala, bem como vários ciclones e uma invasão de estrelas-do-mar-coroas-de-espinhos, uma espécie predadora de corais. “Podemos mudar e estamos comprometidos com a mudança”, reforçou a ministra.
Imogen Zethoven, directora de estratégia da Sociedade Conservadora Marinha da Austrália, tem uma interpretação diferente: “Podemos dar a volta a isto, mas apenas se o primeiro-ministro se importar o suficiente para liderar um Governo que queira salvar [a Barreira]. Salvar significa liderar nesta matéria e conseguir reduzir as emissões de gases de efeito de estufa a nível mundial”, declarou à BBC. “Tivemos dez anos de avisos, dez anos de aumento das emissões e dez anos a ver a Barreira a caminhar em direcção a uma catástrofe.”

Açores Atlantis 2019: uma expedição pela sustentabilidade do oceano

Os Açores vão receber uma expedição inédita: a Açores Atlantis 2019. Em setembro e outubro, especialistas mundiais irão navegar ao largo desta ilhas portuguesas promovendo a responsabilidade ambiental e o respeito pelas espécies marinhas, em prol da harmonia do oceano.

Promovida pela plataforma Oceans and Flow, esta expedição vai arrancar no próximo mês de setembro, no grupo ocidental do arquipélago dos Açores, com cinco grandes ações.
Esta expedição tem início com a viagem Açores-Atlantis, que decorre entre os dias 10 e 17 de setembro. A aventura contará com o apoio de um grupo de especialistas, que receberá dez participantes na Ilha de São Miguel, que serão convidados a «aprofundar a sua relação com o oceano e consigo mesmos, enquanto fortalecem a sua consciência ambiental», lê-se em comunicado.
Entre 20 e 29 do mesmo mês, dois veleiros com 13 pessoas a bordo irão visitar várias ilhas ao longo de 10 dias, com o propósito de «desenvolver práticas na Natureza como método para melhorar a escuta profunda do oceano, integrar a responsabilidade ambiental e respeitar as espécies marinhas». Esta viagem contará com a presença de figuras como Matthieu Paley, fotógrafo da National Geographic, e Juliana Marinho, jornalista da WWF-Brasil. Desta viagem nascerá o documentário «Song for Atlantis», realizado por Gustavo Neves.
A Expedição Açores Atlantis 2019 integrará também as Ocean Talks. Estas sessões de palestras para a comunidade local decorrerão no dia 1 de outubro, na Universidade dos Açores, em Ponta Delgada.
Para além dos projetos anteriores, a primeira edição desta expedição inclui ainda uma ação de limpeza de praia, a Eco Ação, que decorrerá a 6 de outubro às 9h00, na Ribeira Grande, São Miguel. Esta iniciativa contará com o envolvimento da comunidade.
«A Expedição Açores Atlantis 2019 é um evento que junta os conceitos de “Viagem e Comunicação Social”, apresentando o trabalho de uma tribo aquática em busca de harmonia pelo Oceano. Financiada por parceiros estratégicos, esta equipa, que foi selecionada pelas suas competências aquáticas, experiência fotográfica e impacto na comunicação social global, apresenta os Açores como destino essencial para escutar a Natureza e conectar-se com o meio ambiente. Sempre envolvendo e contando com o apoio da comunidade local», afirma Violeta Lapa, principal mentora e produtora desta Expedição, em comunicado.
[Imagem: Peregrinus Studio]

Subida da água do mar pode provocar 280 milhões de deslocados, alerta relatório da ONU

A subida do nível das águas do mar, em consequência do aquecimento global, pode fazer 280 milhões de deslocados, segundo um relatório preliminar científico que a ONU divulga em setembro.
Com o aumento da frequência dos ciclones, diz o documento, muitas grandes cidades podem ser inundadas todos os anos a partir de 2050. E até ao fim do século as previsões do relatório é que 30 a 99% do terreno permanentemente congelado (permafrost) deixe de o ser, libertando grandes quantidades de dióxido de carbono e de metano.
Ao mesmo tempo, os fenómenos resultantes do aquecimento global podem levar a um declínio constante da quantidade de peixe, um produto do qual muitas pessoas dependem para se alimentar.
O relatório preliminar da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado pela agência France Press, é da responsabilidade do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC na sigla original), cuja versão final será divulgada em setembro.
O relatório vai ser discutido pelos representes dos países membros do IPCC, que se reúnem no Mónaco a partir de 20 de setembro, por alturas da cimeira mundial sobre o clima em Nova Iorque, marcada para 23 de setembro pelo secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.
O objectivo é alcançar compromissos mais fortes dos países para reduzir as suas emissões de dióxido de carbono, que caso se mantenham no ritmo actual farão subir as temperaturas de 2 a 3 graus celsius até ao fim do século.
Especialistas temem que a China, Estados Unidos, União Europeia e Índia, os quatro principais emissores de gases com efeito de estufa, estejam a fazer promessas que não cumprem. Estas regiões do mundo vão também ser afectadas pela subida das águas do mar, alerta o relatório, especificando que não serão só afectadas as pequenas nações insulares ou as comunidades costeiras expostas.
Xangai, a cidade mais populosa da China, está localizada num delta, formado pela foz do rio Yangtze e pode começar a ser inundada regularmente se nada for feito para parar as alterações climáticas. E o país tem mais nove cidades em risco.
Essa subida do nível do mar coloca os Estados Unidos como um dos países mais vulneráveis, a aumentar em cinco vezes o risco de inundações, incluindo em Nova Iorque.
A União Europeia está menos vulnerável, mas os especialistas do IPCC alertam para inundações no delta do Reno. E para a Índia esperam que milhões de pessoas tenham de ser deslocadas.
A elevação do nível das águas do mar deve-se ao aumento das temperaturas que está a derreter as grandes massas de gelo nos polos.
Segundo o documento as calotes polares da Antártica e da Groenlândia perderam mais de 400 mil milhões de toneladas de massa por ano na década antes de 2015. Os glaciares das montanhas também perderam 280 mil milhões de toneladas.

Seul analisa possível radiotividade no mar causada por urânio da Coreia do Norte


O governo sul-coreano está a analisar amostras de água do mar recolhidas na fronteira marítima com a Coreia do Norte, depois de imagens satélite mostrarem derramamentos de uma mina de urânio norte-coreana num rio que ali desagua.

As autoridades estão a recolher essas amostras junto à chamada Linha de Limite Norte (LLN), a divisória marítima ocidental de ambas as Coreias, perto de onde desagua o rio Ryesong, que flui no Mar Amarelo da Coreia do Norte, segundo confirmou esta quarta-feira à agência de notícias espanhola Efe, uma porta-voz do ministério da Unificação da Coreia do Sul.
A análise está a ser realizada depois do investigador norte-americano Jacob Bogle alertar recentemente, após verificar em várias imagens tiradas por satélite, a possibilidade de que a mina de urânio de Pyongsang, uns 100 quilómetros a sudeste de Pyongyang, esteja a realizar derrames no rio.
As imagens mostram contínuos derrames contínuos vindos do cano de esgoto no leito de Ryesong, cuja foz está a cerca de 45 quilómetros a sudoeste de Pyongsan.
As análises para detectar a possível presença de material radioativo vão demorar cerca de duas semanas,segundo a mesma porta-voz, que assegurou que o governo tornará os resultados públicos.
Por seu lado, o site especializado em assuntos da Coreia do Norte ’38north’ publicou esta quarta-feira a sua análise das imagens satélite e reduziu o alarme gerado por alguns meios de comunicação que informaram sobre a investigação.
Segundo a página, apesar de ser evidente que o lixo está a ser derramado no rio e que o ritmo dessa contaminação parece ter aumentado nos últimos dois anos, “a descarga observada é menos extensa do que a sugerida” pelos investigadores.
Sustenta ainda que mais preocupante que o possível derrame é o facto de “as operações desta instalação (a maior do tipo na Coreia do Norte) indicam que Pyongyang mantém e continua a dar prioridade ao programa para produzir urânio altamente enriquecido para produzir armas nucleares”.
Foto: YONHAP/EPA