Theo Notteboom analisa Sines, Algeciras e Tanger-Med.

A leitura de Theo Notteboom sobre a evolução dos portos na zona do Estreito de Gibraltar ajuda a perceber, com alguma clareza, onde está hoje o Porto de Sines e qual pode ser o seu verdadeiro espaço de afirmação nos próximos anos. O retrato é exigente: Tanger-Med consolidou-se como a grande potência regional no movimento de contentores, Algeciras continua a ser uma referência incontornável do sistema portuário do Sul da Europa, e Sines surge como um porto com peso estratégico, mas ainda à procura de transformar potencial em escala mais robusta.

É precisamente aqui que a análise se torna mais interessante para Portugal. Sines não está a competir apenas com portos vizinhos. Está inserido numa geografia logística cada vez mais pressionada por grandes hubs de transhipment, por cadeias marítimas em reconfiguração e por decisões comerciais tomadas à escala global. Nesse quadro, Tanger-Med impôs-se com uma força difícil de ignorar, concentrando quase metade dos contentores movimentados neste conjunto portuário alargado. Não é apenas uma questão de volume. É uma questão de agressividade competitiva, de posicionamento geográfico e de capacidade para captar fluxos que antes se distribuíam de forma mais equilibrada. Algeciras, por seu lado, continua a representar um gigante histórico da região. Mantém escala, centralidade e uma longa tradição como ponto-chave nas rotas internacionais. Mas o seu peso relativo já não é o de outros tempos. A ascensão de Tanger-Med alterou profundamente o equilíbrio no Estreito e obrigou todos os restantes portos da região a repensarem o seu posicionamento. Sines também entra nessa equação. No caso português, o porto de águas profundas continua a ter atributos que o colocam num patamar especial. A profundidade natural, a capacidade para receber alguns dos maiores porta-contentores do mundo, a localização atlântica e a ligação potencial ao hinterland ibérico e europeu fazem de Sines um activo logístico de enorme valor. O problema nunca foi a falta de condições naturais. O desafio tem sido sempre outro: converter essas vantagens em crescimento sustentado, em maior densidade logística e em mais capacidade para fixar carga, investimento e valor acrescentado. É por isso que Sines não deve ser lido apenas a partir da comparação directa com Tanger-Med. Marrocos construiu, com esse porto, uma máquina de escala global, muito orientada para o transbordo, com custos competitivos e com uma flexibilidade regulatória que os portos da União Europeia não têm. Essa diferença pesa. E pesa ainda mais numa altura em que os portos europeus enfrentam novas exigências ambientais, custos acrescidos e maior pressão regulatória. Sines, sendo porto europeu, joga com regras mais apertadas. Isso pode ser uma limitação concorrencial no curto prazo, mas também pode vir a ser uma vantagem se a Europa decidir tratar os seus grandes portos estratégicos como activos a defender e reforçar .O ponto decisivo é este: Sines não precisa de ser uma cópia de Tanger-Med para ser relevante. Precisa, isso sim, de afirmar uma identidade própria dentro da rede marítima europeia e atlântica. Tem condições para funcionar como grande porta de entrada no Atlântico, como plataforma para serviços intercontinentais e como nó logístico com margem para crescer em articulação com a ferrovia, com a indústria e com os corredores de exportação. Essa é a diferença entre ser apenas um porto eficiente e tornar-se uma infraestrutura verdadeiramente estruturante para a economia portuguesa.

A análise de Notteboom também ajuda a desmontar uma ideia simplista que por vezes surge no debate público: a de que o crescimento de outros portos condena automaticamente Sines à irrelevância. Não é assim. O crescimento de Tanger-Med mostra que existe procura, escala e centralidade nesta fachada marítima. O que isso obriga é a uma resposta mais ambiciosa. Sines tem de crescer com estratégia, com investimento e com visão. A expansão da capacidade instalada, a melhoria contínua das condições operacionais e o avanço de novos projectos terminais podem dar ao porto português a massa crítica de que necessita para subir de patamar. No fundo, o retrato traçado por Theo Notteboom não coloca Sines fora do jogo. Pelo contrário. Mostra que o porto continua dentro de uma das zonas mais disputadas e mais importantes da logística marítima euro-mediterrânica. Mas também deixa um aviso claro: num sistema onde Tanger-Med acelera e Algeciras resiste, Sines não pode viver apenas da sua geografia. Tem de transformar posição em influência, capacidade em carga e potencial em centralidade efectiva. Esse é, talvez, o ponto mais importante de toda esta análise. Sines continua a ter tudo para crescer. O que falta não é destino. É escala. E essa já não se conquista apenas com boas condições naturais. Conquista-se com execução, estratégia e ambição.

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