
A sindicalização tem vindo, de facto, a descer em Portugal, e os números mais recentes voltam a confirmar uma tendência que já não é nova: menos trabalhadores optam por se organizar através de estruturas sindicais, num recuo gradual.
A quebra não é apenas estatística. É, para muitos, um sintoma de afastamento, cansaço e perda de confiança num instrumento que durante décadas foi visto como essencial para equilibrar forças nas relações laborais. No sector dos transportes, a pressão tem sido particularmente sentida e, dentro deste universo, ao qual a área marítimo-portuária não tem sido indiferente, sobretudo no último ano.
Entre conflitos, instabilidade operacional e um ambiente de permanente tensão, muitos trabalhadores descrevem um cenário em que a capacidade de mobilização se fragilizou e em que a união, antes assumida como condição de sobrevivência negocial, se foi diluindo. Uma das razões apontadas por quem vive o sector no terreno é a descrença nos novos intervenientes. Há a percepção de que surgiram actores que não conseguiram conquistar legitimidade, seja por falta de experiência, por estratégias pouco claras ou por agendas que nem sempre são entendidas como alinhadas com o interesse colectivo. Essa desconfiança traduz-se em ruído, divisão e, acima de tudo, em menos adesão e menos coesão.
Quando a base se fragmenta, a força negocial encolhe.O contraste com o passado é frequentemente sublinhado. Muitos recordam tempos em que havia mais “astúcia”, mais leitura do contexto, mais capacidade de negociação, mais eficácia na construção de compromissos e na obtenção de resultados concretos. Não se trata apenas de nostalgia: É uma crítica directa à forma como certas lutas têm sido conduzidas, com a sensação de que, em vez de fortalecerem a posição dos trabalhadores, acabaram por desgastar o sector e alimentar um ciclo de impasses.
É precisamente esse sentimento de desgaste que alimenta a ideia mais perigosa: A percepção de que as lutas não levaram a lado algum. Quando se instala a convicção de que o esforço colectivo não produz ganhos, cresce o afastamento, aumenta a apatia e reduz-se a disposição para participar. E, se esta trajectória continuar, o receio é claro: o futuro pode ser sombrio, não apenas para o sindicalismo, mas para a capacidade dos trabalhadores se fazerem ouvir, protegerem condições e influenciarem o rumo das decisões que os afectam diariamente e durante a sua carreira.