Opinião: Da visão do hypercluster de 2009 até à realidade de 2026.

Por Guilherme Bastos – Gestor.

Quando, no já distante ano de 2009, foi apresentado o estudo “O Hypercluster da Economia do Mar”, coordenado pelo saudoso Ernâni Lopes, o país atravessava um momento de viragem. A crise financeira global de 2008 expunha fragilidades já identificadas e obrigava a repensar o modelo económico. O mar surgiu então não como um mera metáfora, mas como opção estratégica concreta. A proposta era exigente: Abandonar abordagens sectoriais, romper com políticas avulsas e construir um sistema económico integrado, ligado ao mar, capaz de gerar escala, inovação, exportações e autonomia estratégica.

O conceito de hypercluster não era meramente retórico. Pressupunha massa crítica empresarial, encadeamentos produtivos, conhecimento aplicado, infraestruturas eficientes e, sobretudo, governação estável e transversal. O estudo alertava que sem essa componente institucional o mar continuaria a ser um somatório de actividades dispersas, incapazes de se reforçarem entre si. Em 2026, o contraste entre a ambição desse diagnóstico e a realidade observável é mais nítido e mais incómoda. No plano de projectos, o mar venceu. Nunca houve tantos documentos estratégicos, programas, agendas e planos nacionais e europeus dedicados à economia azul. O mar tornou-se politicamente consensual, de certa forma inquestionável. Mas essa vitória simbólica esconde uma fragilidade estrutural: A transformação do mar em narrativa substituiu, em muitos casos, a sua transformação em sistema económico.

O estudo de 2009 partia de uma leitura clara da posição portuguesa no mundo: Portugal não podia competir por dimensão de mercado interno, mas podia competir por posição geoestratégica, conectividade marítima e especialização atlântica. Em 2026, essa leitura mantém-se válida, talvez ainda mais. A reconfiguração por exemplo, das cadeias de abastecimento globais, a instabilidade no Mar Vermelho, a crescente relevância do Atlântico e da energia marítima reforçam exactamente os argumentos de então. A diferença é que outros países avançaram mais depressa a estruturar as suas apostas. Nos portos, por exemplo, houve evolução, mas não convergência. Sines aproximou-se da visão do hypercluster: especialização clara, integração logística, relevância internacional. Contudo, o sistema portuário nacional continua marcado por concorrência interna, falta de complementaridade e ausência de planeamento integrado. Em vez de um sistema portuário pensado como rede, persiste uma lógica fragmentada, muitas vezes dependente de ciclos políticos e de agendas locais. No shipping, a distância entre 2009 e 2026 é ainda mais reveladora. O estudo defendia que sem presença na propriedade, gestão e decisão do transporte marítimo, Portugal capturaria apenas valor residual. Em 2026, esta realidade mantém-se. O país é profundamente dependente do transporte marítimo, mas permanece marginal na sua governação económica. Aceitou-se a ideia de que bastava ser “bom utilizador” de serviços globais, abdicando de uma estratégia própria de médio e longo prazo.Na indústria naval e na construção e reparação, o cenário é semelhante. O hypercluster pressupunha reindustrialização selectiva, orientada para nichos tecnológicos, plataformas offshore, energia, defesa e manutenção especializada.

Em 2026, sobrevivem ilhas de competência, mas sem escala, continuidade ou integração numa política industrial marítima coerente. O potencial existe, mas continua subexplorado. Talvez onde a divergência seja mais paradoxal seja na energia. Em 2009, o mar era visto como potencial; em 2026, é central. Eólica offshore, hidrogénio, gás, cabos submarinos e infraestruturas energéticas colocaram o mar no centro da transição energética europeia. No entanto, grande parte destes projectos reproduz um modelo considerado extractivo moderno: O território acolhe, mas o valor estratégico, tecnológico e financeiro permanece maioritariamente fora. O hypercluster pensava o mar como plataforma de soberania económica; a realidade tende a tratá-lo como suporte físico. Tudo isto converge para o ponto mais crítico do estudo de 2009: A governação. Ernâni Lopes insistia que sem coordenação efectiva, liderança política estável e visão transversal, o hypercluster seria inviável. Em 2026, o mar continua repartido por ministérios, agências, fundos e programas, com responsabilidades diluídas e prioridades frequentemente contraditórias. Há investimento, mas falta direcção. Há estratégia escrita, mas pouca estratégia executada.

A comparação entre 2009 e 2026 revela, assim, uma conclusão desconfortável: Portugal não falhou por erro de diagnóstico, mas por incapacidade de persistir numa visão exigente. Preferiu soluções parcelares, projectos simbólicos e consensos fáceis, em vez de escolhas estruturais e conflitos estratégicos inevitáveis. O hypercluster da economia do mar continua a ser, em 2026, menos um capítulo encerrado do passado e mais um espelho do presente. Um lembrete de que o mar não se transforma em motor de desenvolvimento apenas por vontade declarada. Exige investimento, plano de continuidade, escala, risco político e coordenação real no terreno.

Enquanto isso não acontecer, Portugal continuará a falar do mar como desígnio nacional, mas a vivê-lo como oportunidade incompleta, e sem essa evolução e inovação, a relação do país com o mar não irá chegar onde se desejava.

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