Despertar do Árctico: Trump, Gronelândia e a Sombra de Moscovo e Pequim.

A recente intensificação do interesse de Donald Trump na aquisição da Gronelândia, território semiautónomo da Dinamarca, marca o regresso de uma visão geopolítica que encara o Círculo Polar Árctico como o epicentro da próxima grande disputa entre superpotências. Longe de ser um “capricho imobiliário”, esta postura é fundamentada pela percepção, alimentada pela inteligência norte-americana e por factos no terreno, de que a Rússia e a China estão a consolidar um domínio perigoso sobre as rotas de navegação polares.

No início de 2026, a retórica da Casa Branca tornou-se explícita: o presidente americano afirma que o Árctico está “infestado” de navios russos e chineses, descrevendo a região como um activo de segurança nacional que os aliados europeus, nomeadamente a Dinamarca, não têm capacidade de proteger sozinhos.

A convicção de que Moscovo “manda” no Árctico sustenta-se na hegemonia geográfica e logística da Rússia, que controla a Rota do Mar do Norte (NSR). Com a maior linha de costa na região, o Kremlin investiu biliões de dólares na modernização de bases militares e na manutenção de uma frota de quebra-gelos que humilha a dos Estados Unidos em termos numéricos e tecnológicos, incluindo colossais embarcações de propulsão nuclear capazes de garantir a navegabilidade durante quase todo o ano. Para Trump, o facto de a Rússia cobrar taxas de passagem e impor a presença de pilotos russos em navios estrangeiros que utilizam esta rota é a prova de que a navegação no topo do mundo já tem um dono de facto, criando um corredor comercial que contorna o domínio naval tradicional dos Estados Unidos nos mares do sul. Simultaneamente, a China, que se autoproclama um “Estado quase-árctico”, tem penetrado na região através da chamada “Rota da Seda Polar”. Pequim não possui território no Círculo Polar, mas compensa essa lacuna com investimentos massivos em infraestruturas críticas, como projectos de gás liquefeito na Sibéria e tentativas persistentes de financiar aeroportos e exploração mineira na Gronelândia.

Esta aliança sino-russa é vista por Washington como uma tenaz estratégica: enquanto a Rússia fornece a força bruta militar e os quebra-gelos, a China entra com o capital e a necessidade de encurtar as suas rotas comerciais para a Europa em cerca de 40%. A Gronelândia, situada no coração desta encruzilhada, torna-se assim o prémio máximo: um território rico em minerais críticos e terras raras necessários para a indústria de defesa, cuja posse pelos Estados Unidos fecharia definitivamente a porta a qualquer tentativa de Pequim de estabelecer uma base de apoio logística ou militar permanente no Atlântico Norte.Ao pressionar pela soberania sobre a ilha, Trump aplica uma “Doutrina Monroe” actualizada para o século XXI, onde o controlo territorial directo é visto como a única garantia contra a influência de adversários num ambiente de degelo acelerado. A preocupação não é apenas comercial, mas existencial para a hegemonia americana; se as novas auto-estradas marítimas do Árctico forem geridas por regras ditadas por Moscovo e Pequim, o equilíbrio de poder global sofrerá uma alteração irreversível.

Por isso, a Gronelândia deixou de ser vista como um protectorado dinamarquês para passar a ser, na óptica de Trump, a peça de xadrez que impedirá o Árctico de se transformar num domínio exclusivo das potências autocráticas.

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