
Cem dias após o último ataque atribuído aos rebeldes Houthi no Mar Vermelho, o Canal do Suez permanece longe de uma retoma operacional consistente.
O tráfego marítimo através desta via estratégica continua cerca de 60% abaixo dos níveis considerados normais, evidenciando que a crise ultrapassa o registo episódico da violência e se instalou como um problema estrutural de confiança no sistema do transporte marítimo internacional.
Apesar da ausência de incidentes recentes, a maioria dos grandes armadores mantém a decisão de evitar o Mar Vermelho e o Golfo de Áden, privilegiando a rota alternativa pelo Cabo da Boa Esperança. Trata-se de uma opção mais longa e mais onerosa, mas considerada operacionalmente mais previsível num contexto em que o risco de segurança permanece elevado e, sobretudo, difícil de quantificar. A incerteza continua a pesar nos prémios de seguro, na gestão de frotas e no planeamento das cadeias logísticas globais.
Os efeitos fazem-se sentir de forma particularmente intensa no Canal do Suez, uma das principais artérias do comércio mundial, cuja quebra prolongada de tráfego se traduz numa redução significativa de receitas e numa perda de centralidade no desenho das rotas internacionais. Ao mesmo tempo, o desvio de navios para o Atlântico Sul e para o Índico via Cabo da Boa Esperança tem implicações diretas nos tempos de trânsito, no consumo de combustível e na disponibilidade global de tonelagem.
O cenário descrito revela um dado essencial: a normalização do tráfego marítimo não acompanha automaticamente a redução dos ataques. A confiança dos operadores constrói-se de forma gradual e exige garantias de segurança duradouras, mais do que períodos de aparente estabilidade. Mesmo o reforço da presença naval internacional na região não foi, até ao momento, suficiente para inverter de forma significativa as decisões estratégicas dos principais players do shipping.
Assim, o Mar Vermelho continua formalmente aberto à navegação, mas permanece, na prática, condicionado por uma percepção de risco que mantém afastada uma parte substancial do comércio marítimo global, com consequências económicas e geoestratégicas que se prolongam muito para além da região.