Comércio de petroleiros congela após detenção de Maduro e aprofunda-se a paralisia do petróleo venezuelano.

O mercado global de petroleiros enfrenta nova vaga de incerteza depois da detenção do Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, numa operação militar dos Estados Unidos durante o fim de semana, um episódio que, na prática, congelou as exportações de crude do país e reforçou a linha dura de Washington na aplicação de medidas marítimas.

Após a operação, o Presidente norte americano, Donald Trump, afirmou que os Estados Unidos pretendem assumir o controlo da Venezuela “por enquanto”, com enfoque na recuperação da indústria petrolífera, sublinhando, porém, que o embargo ao crude venezuelano se mantém plenamente em vigor. Trump disse que grandes petrolíferas dos EUA poderão, mais tarde, investir milhares de milhões de dólares na reabilitação de infra-estruturas degradadas, mas deixou claro que um alívio de sanções não está para breve.

A mensagem foi reiterada pelo secretário de Estado, Marco Rubio, que descreveu a actual política como uma “quarentena do petróleo”, e não como um caminho para normalização imediata. Rubio defendeu que o bloqueio ao tráfego de petroleiros constitui uma alavanca significativa que se manterá até haver mudanças na gestão do sector e no combate ao tráfico de droga, invocando também o interesse nacional norte americano.

No plano operacional, os efeitos no shipping foram rápidos. As exportações de crude, já condicionadas por sanções e acções de fiscalização, aparentam estar paralisadas. A Reuters noticiou que as autoridades portuárias não receberam pedidos de autorização de saída de petroleiros que já tinham terminado o carregamento, enquanto dados de rastreamento marítimo indicam navios imobilizados no cais ou a sair de portos venezuelanos sem carga.

Mesmo navios associados à Chevron, que operavam ao abrigo de uma licença específica dos EUA, terão interrompido movimentos. O site TankerTrackers.com referiu que não havia um único petroleiro a carregar em Jose, o maior terminal de crude do país, sinalizando a dimensão do bloqueio.

O bloqueio agrava, em paralelo, a pressão sobre a petrolífera estatal PDVSA. Com tanques em terra e armazenamento flutuante a aproximarem-se da saturação, a empresa começou a reduzir produção. Segundo a Bloomberg, a PDVSA preparava-se para encerrar cerca de 15% da produção nacional, estimada em 1,1 milhões de barris por dia, com cortes no Cinturão do Orinoco que podem chegar a 25%. Poços de crude extra pesado nas zonas de Orinoco e Junín estão entre os primeiros a serem encerrados, com mais reduções previstas noutras áreas.

As parcerias também estão a ser afectadas. A PDVSA pediu a operações ligadas à Chevron, como Petropiar e Petroboscan, que reduzam produção. A Sinovensa, joint venture com a chinesa CNPC, prepara-se para encerrar vários agrupamentos de produção. Volumes que historicamente seguiam para a China no âmbito de acordos de pagamento de dívida ficaram agora retidos, numa altura em que petroleiros de bandeira chinesa deixaram de se aproximar dos portos venezuelanos.

No mar, a intensificação da fiscalização tornou-se mais visível. Um VLCC, o Thousand Sunny, de propriedade chinesa e com historial de transporte de crude venezuelano para a China, desviou-se e segue agora em direcção à Nigéria. Outros petroleiros antes com destino à Venezuela surgem parados, segundo corretores e dados de tracking, reflectindo maior prudência de armadores e operadores perante riscos de apreensão e de sanções retroactivas.

Do ponto de vista do mercado, há divergências sobre o efeito nas taxas de frete. O banco escandinavo SEB considerou que, no curto prazo, o impacto no segmento “compliant” poderá ser limitado, uma vez que o embargo norte americano ao crude venezuelano se mantém. Para haver um impulso relevante, argumenta o SEB, seria necessária uma flexibilização ou remoção do embargo, hipótese que Washington afasta por agora.

A plataforma de análise Kpler sublinhou a escala da disrupção e classificou o episódio como “ponto de viragem” para os fluxos de crude venezuelano, não por antecipar alívio de sanções, mas por aumentar a aplicação de medidas e a incerteza legal. Segundo a Kpler, a capacidade legal da PDVSA para contratar navios, transferir titularidade da carga ou receber pagamentos está agora sob dúvida, com a fiscalização marítima a tornar-se o principal constrangimento à exportação.

Dados da Kpler indicam cerca de 1,32 milhões de metros cúbicos de petróleo actualmente transportados em navios sancionados, sendo que crude e misturas venezuelanas representam perto de três quartos desse volume. A vigilância junto aos portos venezuelanos intensificou-se, as transferências navio a navio em zonas do Caribe estão a diminuir e cresce a auto restrição por parte de traders, seguradoras e armadores.

A Kpler admite que, a médio prazo, possa surgir uma transição caso seja reconhecida uma nova autoridade com legitimidade para restabelecer continuidade legal. No imediato, porém, a avaliação é de bloqueio. Em regimes sancionatórios, acrescenta, a remoção de uma liderança não se traduz em alívio automático: tende antes a aprofundar a fiscalização, congelar activos e paralisar o comércio até existir clareza jurídica.

Foto: Nicolas Maduro a bordo do USS Iwo Jima / Donald Trump Conta TruthSocial.

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