
A normalidade começa, lentamente, a regressar. Contudo, os efeitos do protesto estão longe de estar resolvidos. Cerca de 50 navios ficaram retidos ao largo do porto de Antuérpia devido à suspensão total dos serviços de pilotagem e reboque, provocando um dos maiores engarrafamentos marítimos do ano na região.
A paralisação foi convocada pelas três principais centrais sindicais da Bélgica — ABVV-FGTB, ACV-CSC e CGSLB — em protesto contra alterações ao sistema de pensões e outros cortes sociais.
O movimento teve impacto imediato no sector portuário: os pilotos marítimos que operam a entrada e saída de navios, especialmente os de Vlissingen (essenciais para o acesso ao porto de Antuérpia), aderiram em massa, forçando uma suspensão completa das operações marítimas durante quase 24 horas.
Na manhã de ontem, a fila de navios fundeados fora do porto crescia, atingindo o pico de quase meia centena de embarcações, entre porta-contentores, graneleiros e porta-carros. Estima-se que apenas na manhã de hoje os serviços começaram a ser retomados de forma controlada, com prioridade para os navios com cargas perecíveis ou de maior urgência logística.
Segundo fontes portuárias, por volta das 9h do dia 26 ainda se contabilizavam 10 navios à espera de entrada e 3 à espera de autorização para zarpar. Esperava-se que o congestionamento fosse resolvido até ao final do dia 27, embora os operadores logísticos alertem que os efeitos secundários, como o desfasamento de escalas e acúmulo nos terminais, poderão prolongar-se por vários dias.
No porto de Zeebrugge, que também foi afectado pela paralisação, a retoma foi mais célere e a operação regressou à normalidade ainda na tarde do dia 26. No entanto, o impacto desta greve estende-se muito além das fronteiras belgas.
Os portos de Roterdão e Hamburgo, já sob pressão de semanas de congestionamento, ressentem-se agora do desvio de tráfego e da reorganização forçada de serviços. A Maersk, uma das maiores transportadoras marítimas do mundo, já anunciou mudanças operacionais, incluindo a alteração da sua rota TA5, que passará a evitar Roterdão e a seguir directamente de Felixstowe para Hamburgo. A companhia aplicou ainda uma sobretaxa de 10 euros por TEU nos portos de Antuérpia e Roterdão, em resposta ao impacto acumulado dos atrasos e reestruturações de tráfego.
Especialistas alertam que este é apenas um dos sintomas de uma crise logística europeia mais ampla, alimentada por uma procura elevada, reorganizações de alianças marítimas e problemas estruturais como o baixo nível dos rios, além de um clima laboral cada vez mais tenso.
Com quatro greves registadas em Antuérpia no último mês, o sector começa a encarar estes episódios como uma ameaça estrutural e não apenas circunstancial. Enquanto as operações retomam, as empresas de logística, armadores e operadores portuários enfrentam agora o desafio de recompor agendas, evitar colapsos em cadeias de abastecimento e lidar com o aumento de custos decorrente destas disrupções. A retoma está em curso, mas a travessia para a plena normalidade ainda será longa.
Créditos da foto: @Antuérpia-Bruges