
Vivemos um tempo em que as fronteiras do poder alteram-se não só com tanques ou tratados, mas igualmente com navios, contentores e infraestruturas logísticas/portuárias. Os portos marítimos, outrora vistos apenas como plataformas técnicas ao serviço do comércio, são hoje protagonistas de um novo xadrez geopolítico — onde quem domina os fluxos domina também a capacidade de influenciar economias, energias e até decisões políticas.
Durante décadas, a visão dominante era clara: Mais comércio significava mais estabilidade. Os portos eram motores da globalização, pontos de contacto entre economias, facilitadores da paz pelo mercado. Essa lógica começou a ruir com a crise financeira de 2008, mas desabou verdadeiramente com a pandemia, a guerra na Ucrânia e o endurecimento das relações entre grandes blocos económicos. A globalização deu lugar a uma nova ordem fragmentada, feita de alianças frágeis, sanções cruzadas, interrupções súbitas e desconfiança mútua.
Neste cenário, os portos passaram a ser muito mais do que estruturas físicas. Tornaram-se claramente, activos estratégicos de primeira linha, alvos potenciais de conflito e ferramentas de afirmação geopolítica. Quem controla os portos controla muito mais do que navios ou mercadorias: Controla informação, energia, cadeias logísticas e, por vezes, a soberania de um país inteiro sobre as suas trocas comerciais.
O exemplo do Canal de Suez — Onde o encalhe de um único navio gerou milhões em prejuízos e meses de perturbação, demonstrou como uma única infraestrutura pode ter impacto intensamente global. O mesmo se aplica ao Mar Negro, onde portos inteiros ficaram sob ameaça ou bloqueio devido ao conflito na Ucrânia. Ou ainda ao Mar da China, onde a presença naval mistura-se com disputas sobre rotas comerciais, cabos submarinos e corredores estratégicos.
A Europa, por mais desenvolvida e regulamentada que esteja, não está imune. Os seus portos são vulneráveis a ciberataques (como o registado no Porto de Antuérpia), a pressões de investimento estrangeiro com interesses geoestratégicos, ou à instabilidade dos grandes corredores marítimos internacionais. Neste quadro, a Comissão Europeia tem procurado reforçar a resiliência portuária, através de projectos como o Mecanismo Interligar a Europa, a rede TEN-T e investimentos em digitalização e segurança. Mas os desafios estão longe de ser meramente técnicos, e embora não tenham só a questão técnica, de certa forma faz com que seja necessária uma posição firme em defesa do bloco portuário europeu.
Portugal encontra-se numa posição única — e, ao mesmo tempo, delicada. O Porto de Sines, pela sua profundidade, localização atlântica e vocação energética, é hoje um ponto de confluência de interesses internacionais. Norte-americanos, europeus e chineses viram (e continuam a ver) em Sines uma porta de entrada privilegiada para a Europa ocidental. A infraestrutura em si é moderna, com grande potencial de crescimento e integração ferroviária. Mas falta-lhe ainda uma definição clara do seu papel estratégico, e um escudo geopolítico que o proteja de pressões externas, sem fechar a porta à cooperação internacional.
O mesmo se pode dizer do Porto de Leixões, essencial para as exportações do norte do país, mas que carece de uma estratégia nacional coordenada que o posicione como parte ativa da autonomia logística do país.
Aqui reside o grande risco: Continuarmos a tratar os portos como equipamentos técnicos, quando na verdade são peças-chave da nossa segurança económica e política. O investimento público deve ser mais do que manutenção e eficiência operacional; tem de incluir uma abordagem integrada que articule logística, defesa, energia e diplomacia. Os portos devem ter voz nos fóruns de decisão política. Precisam de planos robustos de cibersegurança, regulamentação clara sobre propriedade e investimentos sensíveis, e um papel activo nas estratégias de transição energética e digital.
É fundamental compreender que a soberania, no século XXI, se mede também em contentores. Um porto que não está protegido, que não tem controlo sobre os seus dados, que depende de capitais opacos, ou que não está preparado para responder a choques externos, não é apenas um risco comercial — é uma vulnerabilidade nacional.
Portugal tem, neste momento, a oportunidade e a responsabilidade de assumir uma posição firme na arquitetura logística e geopolítica europeia. Não pela força, mas pela visão. Temos localização, temos capacidades e temos alianças. Falta-nos, muitas vezes, estratégia e coragem política para tratar os portos como o que verdadeiramente são: âncoras da nossa autonomia estratégica.