
O sector global do shipping está entrando em território inexplorado, avançando rumo a uma era de utilização de frota sem precedentes. De acordo com o mais recente relatório da Alphaliner, a capacidade ociosa caiu para apenas 0,6% da frota mundial, que hoje soma cerca de 32 milhões de TEUs (unidades equivalentes a vinte pés) — um nível de saturação que não se via desde os picos de procura registrados antes da pandemia.
Actualmente, apenas 70 navios porta-contentores, totalizando 185.157 TEUs, estão inactivos — um número quase insignificante diante da magnitude da frota global. Isso indica que o sector do shipping opera hoje em quase plena capacidade, impulsionado por uma confluência de factores que vão muito além do mero crescimento do comércio internacional.
Por trás desses dados logísticos, esconde-se uma complexa teia de transformações geopolíticas e estratégicas. A escassez de capacidade ociosa torna as cadeias de suprimento globais mais vulneráveis a choques regionais — como bloqueios de rotas marítimas críticas, disputas no Mar Vermelho, ou tensões em torno do Estreito de Taiwan. Ao mesmo tempo, potências marítimas e portuárias reforçam a sua influência, disputando hubs estratégicos e investindo em infraestrutura portuária com ambições geopolíticas.
Além disso, o aumento da utilização da frota ocorre num contexto de reestruturação das rotas comerciais, marcado pela transição energética, pelas novas políticas de descarbonização da Organização Marítima Internacional (IMO), e pelo crescimento do proteccionismo logístico. A disputa por slots nos principais portos, a reorganização de alianças entre armadores e o fortalecimento de corredores logísticos alternativos — como a Rota do Ártico ou o Corredor Índia – Médio Oriente – Europa — ilustram como o shipping deixou de ser apenas uma questão de eficiência, passando a representar um instrumento estratégico de poder global.
Resumindo, a actual taxa de utilização da frota não é apenas um reflexo de eficiência operacional, mas também um sintoma de um novo equilíbrio — ou desequilíbrio — nas engrenagens do comércio marítimo mundial.