Portos sem navios: Quando o investimento portuário se torna um custo invisível.

Em tempos de modernização e fundos comunitários, os investimentos em infraestrutura portuária têm sido vistos como símbolos de progresso. De certa forma, muitos dos investimentos ainda podem ser considerados curtos, tendo em conta os desafios futuros que se avizinham.

De Lisboa a Sines, passando por Leixões e Setúbal, centenas de milhões de euros têm sido canalizados para expandir cais, adquirir gruas e melhorar aspectos das operações. Mas há uma questão crucial que raramente ocupa os holofotes: de que serve um porto moderno se não há navios a atracar?

Investir num porto é apostar a longo prazo, mas é também assumir custos desde o primeiro dia. Apenas para manter uma estrutura portuária operável, os encargos fixos podem ultrapassar os 5 a 10 milhões de euros por ano, considerando energia, pessoal, segurança e manutenção de equipamentos. E sem volume de tráfego, essa conta transforma-se num prejuízo recorrente.

Dados ilustrativos de 2018 a 2023 mostram como o retorno só começa a aparecer quando o investimento é acompanhado de crescimento efectivo na movimentação de carga. Veja a comparação entre investimento e tráfego (TEUs). Nos últimos cinco anos, os portos portugueses viram os investimentos crescerem cerca de 189%, enquanto a movimentação de contentores aumentou quase 121% — mas esse crescimento está fortemente concentrado em poucos portos, com destaque absoluto para Sines, que em 2023 movimentou mais de 2,1 milhões de TEUs, consolidando-se como o maior porto de contentores do país.

O tráfego portuário depende menos de cimento e mais de relações comerciais sólidas com armadores. São eles que decidem onde os navios escalam, com base em critérios como: Custos operacionais por TEU, eficiência no turnaround (tempo de permanência do navio), infraestrutura de apoio (ferrovia, armazéns, hinterland competitivo). Sem acordos com grandes operadores — como a MSC, Maersk ou CMA CGM — o porto permanece tecnicamente disponível, mas economicamente inactivo.

Um relatório recente do BEI – Banco Europeu de Investimento destacou que mais de 40% dos investimentos portuários na Europa não atingem o break-even sem compromissos comerciais firmes à partida.

Portos como Leixões e Sines destacam-se não só pela capacidade técnica, mas também pela capacidade de atrair e manter linhas regulares de navegação. Já outros investimentos, mesmo com apoio público, falham por falta de visão integrada: não basta construir — é preciso ativar, negociar, garantir tráfego.

O Movimento é a “Moeda Real”. Num contexto de limitação orçamental e pressão para gerar impacto económico, o investimento portuário deve ser analisado com base em resultados concretos de movimentação e integração logística. Portos sem navios são apenas estruturas onerosas à espera de função. Portos com tráfego constante são motores vivos da economia.

Mais do que o tamanho das infraestruturas ou o volume bruto de investimento, o verdadeiro indicador de sucesso de um porto é o seu “throughput” — a quantidade efectiva de carga movimentada num dado período. É esse fluxo contínuo que gera receita, justifica postos de trabalho, atrai serviços logísticos complementares e assegura competitividade internacional. Um porto com baixo throughput é como uma autoestrada sem carros: impressiona pela escala, mas falha na função. A estratégia portuária deve, por isso, dar prioridade apenas a construção e respectiva expansão, mas principalmente a optimização do movimento, garantindo que cada euro investido se traduz em carga processada, valor acrescentado e impacto económico sustentável.

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