
Nas últimas décadas, a automação tem se tornado palavra de ordem em diversos sectores da economia — e os portos não escapam dessa tendência global.
Fora de Portugal, prototipos de robots, gruas automatizadas e softwares de gestão prometem transformar os terminais portuários em ambientes provavelmente eficientes, onde a intervenção humana seria mínima. Mas será que essa corrida pela automação realmente representa progresso? Ou estamos ignorando o valor insubstituível dos trabalhadores portuários?
É inegável que a tecnologia pode tornar operações mais rápidas e reduzir custos operacionais. Isto se funcionar obviamente na sua total plenitude. No entanto, essa lógica economicista costuma negligenciar o impacto social profundo da substituição da mão de obra humana. Os trabalhadores portuários não são apenas operadores de máquinas — são profissionais que conhecem o porto como uma extensão do próprio corpo. Lidam com situações imprevisíveis, adaptam-se rapidamente a mudanças e tomam decisões com base em experiências que nenhuma inteligência artificial consegue replicar.
Além disso, a automação massiva traz riscos que nem sempre são considerados. Um sistema altamente digitalizado está sujeito a falhas técnicas, bugs e até mesmo ataques cibernéticos ( Os profissionais desses departamentos tem de ser altamente especializados e isso tem muitos custos). Nesses cenários, quem pode garantir a continuidade do funcionamento portuário, senão os trabalhadores que conhecem o sistema por dentro e têm a capacidade de improvisar soluções?
Ao reduzir o número de empregos com a justificativa da “modernização”, corremos o risco de desumanizar os portos e torná-los dependentes de lógicas que priorizam o lucro sobre o bem-estar social. Em vez disso, deveria ser prioridade investir na capacitação e valorização dos trabalhadores, integrando a tecnologia de forma ética e colaborativa.
.Automação, sim, pode ser — mas com responsabilidade no sentido de auxiliar e não substituir. Que o avanço tecnológico nos portos sirva para elevar o trabalho humano, não para apagá-lo.
O futuro será realmente eficiente apenas se for também justo. Porque uma sociedade automatizada retira a “faísca” de uma sociedade humana em que os seus elementos querem contribuir para o desenvolvimento e não serem meros peões do xadrez da vida.