Quase 1,4 milhões de quilómetros de cabos submarinos no
fundo dos oceanos e mares asseguram entre 97% e 99% do tráfego de internet em
todo mundo, mas até há pouco tempo este tipo de infraestrutura não era uma
prioridade para Portugal. Com a digitalização da economia e o consumo de
serviços digitais em franca expansão, o país, seguindo orientações de Bruxelas,
tem-se promovido nesta indústria com o objectivo tornar-se um autêntico
entroncamento subaquático, esperando beneficiar diferentes sectores da economia.
Estão identificados projectos relacionados com os cabos submarinos que podem
trazer à tona mais de dez mil milhões de euros em investimento estrangeiro.
Só nos últimos seis anos, Portugal garantiu a amarração dos
sistemas internacionais de cabos submarinos Ellalink e Olisipo, que ligam a
Europa, via Portugal, à América do Sul e já estão em operação; o 2Africa
(amarrado este ano) e o Equiano (entra ao serviço em 2025), que ligam África ao
Velho Continente; o Medusa, que conecta o país aos cabos do Mediterrâneo e do
Oriente, junto ao Canal do Suez; e o Nuvem, que liga a Europa, via Portugal,
aos EUA e que deverá estar operacional em 2026. Está ainda em discussão o
Pisces, uma iniciativa da União Europeia (UE) para ter um cabo que ligue a
Irlanda a Portugal e Espanha, para vir a interligar e a complementar os cabos
internacionais a sul com o norte do espaço europeu.
Tal como as actuais redes de fibra óptica terrestres asseguram
as comunicações e o acesso à internet em terra, os cabos submarinos permitem
fazer navegar, através do mar, os dados entre continentes. E se, por um lado,
podem ser uma extensão do que já é feito pelas redes terrestres, por outro,
podem funcionar como sistemas de redundância ou impulsionadores de
conectividade em zonas terrestre mais remotas. Tal como o satélite assegura a
conectividade móvel e sistemas de emergências, os cabos submarinos asseguram a
conectividade fixa. Esta infraestrutura também serve como fonte de energia para
parques eólicos offshores e para a prevenção de fenómenos meteorológicos e
atividade sísmica.
O mercado dos cabos submarinos estava avaliado em cerca de
24 mil milhões de euros pela consultora Straits Research, no final de 2022,
estimando-se uma taxa de crescimento anual de 6,1% até 2031, atingindo os 41
mil milhões de euros. Os valores incluem apenas a construção e implementação
dos cabos e podem não impressionar porque, até há pouco tempo, esta era uma
indústria pouco procurada. Só agora vai apresentando sinais de expansão, devido
ao aumento da procura por serviços digitais e ao aumento dos investimentos em
infraestruturas de telecomunicações de alta velocidade. A Google e a Meta já
têm planos de investimento para esta área, considerando que os cabos submarinos
reduzem a latência e aumentam a largura de banda da net. Também o sector
energético começa a apostar mais nesta área.
Pelo menos, nove biliões de euros em transações financeiras
são asseguradas, diariamente, pelo tráfego de internet suportado por cabos
submarinos, segundo o estudo “Undersea Cables: Indispensable, insecure”,
escrito pelo actual primeiro-ministro britânico, Rishi Sunak, em 2017. Só este
dado permite depreender as portas que o fundo do mar pode abrir a uma economia
de escala reduzida como é a portuguesa. É neste ponto que entram os centros de
dados, que são pontos neutros para interligações, ou troca de tráfego, entre
telecoms, prestadores de serviços de internet e cloud ou empresas que procuram
serviços específicos com elevada capacidade de tráfego para modelos de negócios
digitais.
.jpeg)