O número de mergulhadores subiu em flecha nas últimas três décadas, com a democratização do ensino da modalidade. Os operadores sentiram a crise mas dizem que ainda há muito por fazer e viram-se para o mercado europeu, onde há 3,2 milhões de mergulhadores dispostos a viajar pelo menos uma vez por ano. Portugal parece estar cada vez mais na rota do mergulho mundial.
Barcos que tombaram em batalhas épicas, navios da Marinha afundados, bancos submarinos no meio do Atlântico, onde vivem baleias, focas e tubarões. Não faltam pontos de interesse no mar que banha os mais de 2500 quilómetros da costa portuguesa. Em números redondos, no continente e nas ilhas existem cerca de 300 locais de mergulho. E se 97% do país é mar, quantos estarão ainda por descobrir?
Nos últimos anos, as escolas e centros de mergulho nasceram como cogumelos em Portugal. Passaram de apenas meia dúzia no início da década de 1990 para quase 150 actualmente. O surgimento das agências internacionais de certificação facilitou e democratizou o ensino da modalidade, até então exclusivo para atletas e militares. A procura subiu em flecha, animada também por um interesse crescente no ambiente e no turismo de natureza, que registou um boom no início do século XXI. Porém, ninguém sabe quantas pessoas se deixaram já encantar pelo “mundo do silêncio” revelado por Jacques Cousteau.
Quando o país começou a dar os primeiros passos no mergulho amador, há 50 anos, criou-se o Caderno Nacional de Mergulho (CNM) do qual constava a certificação do mergulhador. Em 2009, o CNM foi substituído pelo Título Nacional de Mergulho (TNM), emitido pelo Instituto do Desporto de Portugal (IDP). Mas em 2013 o Governo mudou de ideias, suspendeu o TNM e deixou ao critério das escolas a comunicação ao IDP do número de novos mergulhadores. Nem todas o farão.
O IDP aponta para oito mil mergulhadores certificados, mas o número peca por defeito. A Federação Portuguesa de Actividades Subaquáticas certificou 13 mil pessoas desde 1965 com o sistema CMAS (Confederação Mundial das Actividades Subaquáticas), um dos cinco reconhecidos em Portugal – a par da PADI (Professional Association of Diving Instructors, principal agência certificadora a nível mundial), SSI (Scuba Schools International), DDI (Disabled Divers International) e SDI (Scuba Diving International). Mas há outras agências, que embora não sejam reconhecidas em Portugal, têm alguma expressão. Entre os operadores, há quem fale em 30 mil mergulhadores certificados.
Espaço para crescer
Nos últimos anos, a crise também chegou ao sector e a procura pelos cursos recuou. “Há cinco anos dávamos 100 cursos num ano. Este ano, até Junho demos dez”, lamenta Nuno Maria, que em 1992 fundou a Cipreia, escola e centro de mergulho sedeada em Sesimbra, na Arrábida, uma das zonas mais procuradas no continente para mergulhar. O aumento do número de escolas será um dos motivos mas a crise explica o resto, até porque a diminuição do número de novas certificações é global. Por exemplo, a PADI registou uma quebra de 0,9% em 2013 (menos do que em 2009, quando a diminuição foi de 5,7%, segundo os dados disponíveis no site da agência). Por ano, a esta agência atribui quase um milhão de certificações em todo o mundo, mas não revela dados sobre Portugal, onde terá cerca de 70% do mercado.
“É impossível saber quantos mergulhadores temos ao certo, mas o número mais realista anda à volta dos 50 mil”, arrisca José Tourais, conhecido como “o pai do mergulho” em Portugal. É dele a primeira escola de mergulho do país, a Nautilus Sub, fundada em 1989. Tourais considera que o país se tem aproximado do mercado europeu, onde o mergulho está muito mais desenvolvido, mas continua num patamar inferior mesmo tendo todas as condições para progredir. “De zero a 100, a qualidade da nossa oferta está na ordem dos 70, muito acima da média. Temos espaço para crescer durante mais 15 anos”, afirma.
E que condições são essas? “Não temos das piores costas do mundo, o potencial existe”, responde. Nos Açores e na Madeira, as águas límpidas a mais de 20 graus fazem as delícias dos mergulhadores, mas a época de mergulhos está praticamente limitada ao Verão, o que dificulta a sustentabilidade do negócio. No continente, a realidade é outra. Em Sesimbra, por exemplo, cuja costa está abrigada dos ventos de norte, mergulha-se quase o ano inteiro, apesar da fraca visibilidade e de a temperatura média da água rondar os 16 graus. Já no Grande Porto, onde também há dezenas de locais de mergulho identificados, a costa está mais sujeita às intempéries e a água é mais fria.
Uma centena de exemplares a cinco metros
Em relação à biodiversidade marinha, não faltam atracções que colocam Portugal no mapa mundial em relação a certas espécies. Por exemplo, a Ria Formosa, no Algarve, tem a maior comunidade de cavalos-marinhos de focinho comprido (Hippocampus guttulatus) do Mediterrâneo, única zona onde ocorre a espécie. Num mergulho, cuja profundidade média ronda os cinco metros, é possível ver mais de uma centena de exemplares, entre outras espécies de fauna e flora.
O património cultural subaquático é outro ponto a favor, que atrai muitos mergulhadores interessados em naufrágios. O inventário nacional, iniciado em 1984, tem mais de 9000 registos relativos a navios naufragados e artefactos encontrados no fundo do mar. E o afundamento de quatro navios da Marinha ao largo de Portimão, para a criação do parque Ocean Revival que ficou completo há um ano, criou ainda mais pontos de mergulho na costa algarvia.
“Hoje temos muito para oferecer aos turistas estrangeiros, particularmente do Norte da Europa, que já elegem Portugal como um destino de mergulho interessante em termos de preços de viagem e alojamento, e do clima, que é atractivo mesmo no Inverno”, considera Tourais. A instabilidade política no Egipto e no Norte de África, tipicamente os principais destinos dos mergulhadores europeus, terá também contribuído para lançar os holofotes sobre Portugal.
3,2 milhões mergulhadores na Europa
Segundo a Organização Mundial de Turismo, existem na Europa cerca de 3,2 milhões mergulhadores activos, que realizam viagens de mergulho pelo menos uma vez por ano. Em 2022, serão perto de 5 milhões. “Só o mercado nórdico representa dois milhões de mergulhadores, que serão três milhões em 2022”, diz Luís Sá Couto, da Subnauta, que promoveu o projecto Ocean Revival.
Segundo ele, o Algarve regista dez mil mergulhos por ano e o objectivo é chegar aos 90 mil daqui por dez anos. “Não é uma loucura, é perfeitamente possível”, garante, revelando que este ano já nota um aumento da procura, depois de uma forte aposta na promoção do destino lá fora. Até ao final de Maio, a Subnauta levou dois mil mergulhadores ao Ocean Revival e para Setembro e Outubro espera casa cheia com turistas do Norte da Europa.
O crescimento deve traduzir-se em euros: em 2012, segundo Sá Couto, o mergulho no Algarve gerou 2,6 milhões de euros e em 2022 pode gerar 70,5 milhões.
Faltam dados sobre o impacto económico da actividade a nível nacional. Embora a náutica de recreio, na qual se inclui o mergulho, seja uma das dez apostas do Plano Estratégico Nacional para o Turismo, nem o Governo nem o Turismo de Portugal têm dados sobre o peso do turismo subaquático na economia. Nuno Madeira, adjunto do secretário de Estado do Turismo, justifica: “É difícil avaliar esses pequenos segmentos”. Será ainda assim tão pequeno?
Fonte: Público
